Archive for the ‘História da Ciência’ Category

A Criação do Sol, da Lua e dos Planetas

junho 13, 2010
Criação do Sol, da Lua de dos Planetas

Criação do Sol, da Lua de dos Planetas

Michelangelo Buonarroti (1475 – 1564) foi um dos maiores pintores do Renascimento. Na verdade, sua biografia nos diz que além de pintor, ele foi escultor, poeta e arquiteto. Sem dúvida nenhuma, foi um dos maiores gênios que a humanidade já revelou. Ele é mais conhecido pelas pinturas que realizou na Capela Sistina, principalmente a parte do Juízo Final.

Aqui apresento, logo acima, uma de suas obras nem tão conhecidas assim: “A Criação do Sol, da Lua e dos Planetas”.

Nesta pintura acima, que também é um dos afrescos que estão no teto da Capela Sistina, vemos duas situações distintas. A primeira, à direita, trata do momento da criação do Sol (esfera alaranjada) e da Lua (esfera cinza) por Deus. A segunda situação, à esquerda, trata da criação das árvores e plantas.

A parte das plantas está à esquerda da criação do Sol e da Lua porque, segundo os relatos bíblicos, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia, enquanto que as plantas foram criadas no terceiro dia, um dia antes portanto.

Notem que, no momento em que Deus trabalhava na criação das plantas e segundo a visão artística de Michelangelo, houve um pequeno descuido da parte do criador que acabou mostrando mais do que devia.

Segundo o livro de Êxodo (capítulo 33, versículo 20), Deus disse à Moisés (ainda lembro bem!): “Não podes ver a minha face, porque homem algum pode ver-me e continuar vivo”. Bom, a face pode ser…

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As Faces de Leonardo da Vinci

abril 19, 2010

Se preferir, escolha as legendas (subtitles) em português!

Leonardo da Vinci sempre é tema de textos aqui no Café com Ciência. Afinal de contas, ao meu ver, foi a mente mais criativa que a humanidade presenciou ou produziu. Porém, diferentemente de outros pintores famosos (muitos deles seus contemporâneos), aparentemente, Leonardo não fez um auto-retrato. Ao menos não há algo neste sentido e que seja reconhecido por todos estudiosos do pintor. Há algumas suposições, mas nada comprovado, ainda.

Aqui, reproduzo um vídeo indicado pelo Open Culture. Ele trata de um estudo de Siegfried Woldhek que é um cartunista profissional e já desenhou mais de 1100 faces. Reconhecimento de faces é, portanto, um de seus fortes!

Basicamente, ele foi buscar, em todo o trabalho de Leonardo, pinturas onde aparecem faces. Nestas faces, mesmo que as pinturas não representassem auto-retratos, poderia estar escondida a face de Leonardo. Ele excluiu as pinturas onde as faces não são o foco principal do quadro (eliminou os quadros muito vagos ou estilizados) e os auto-retratos de “gente feia” ou caricaturas, uma vez que (segundo Siegfried Woldhek) Leonardo era reconhecido em seu tempo como um homem bonito.

Como resultado final sobraram três pinturas. (a) O famoso “homem velho” que já era atribuído como sendo Leonardo, mas sem maiores comprovações por parte dos historiadores; (b) O Homem Vitruviano, também bastante conhecido e (c) o retrato de um músico. E as comparou!

Ele vai além e mostra a similaridade entre as faces de cada pintura, que aparentam tratar do mesmo homem, mas em idades diferentes. Por fim, ele compara a única face reconhecidamente de Leonardo e que está na escultura de Davi (de Davi e Golias, de Verrochio, que Leonardo posou como modelo quando tinha 15 anos de idade) e também tem características bastantes similares ao “possível” Leonardo das três pinturas anteriores.

Siegfried Woldhek deixa bem claro que são suposições, mas afirma que são suposições com alicerces firmes. Segundo ele, este trabalho não só mostra a face de Leonardo, como mostra seu envelhecimento. De qualquer forma, um belo trabalho onde a inteligência e a imaginação andaram de mãos dadas.

As Grandes Navegações do Século XX

outubro 19, 2009
Mapa com as trajetórias das naves e sondas nestes 50 anos de conquistas espaciais.

Mapa com as trajetórias das naves e sondas nestes 50 anos de conquistas espaciais.

Carl Sagan costumava tomar as grandes navegações dos séculos XV e XVI como exemplo para as empreitadas espaciais. O espírito aventureiro, a necessidade de conhecer novos mundos, ao mesmo tempo em que pouco se sabia sobre o seu próprio mundo eram temas-chave. O Espaço era um oceano, e a superfície da Terra seria uma linda praia margeando um mar convidativo, ele costumava poetizar.

Sagan participava destas missões científicas. Além de divulgador científico, ele era, antes de tudo, um cientista e trabalhava nestas que foram as grandes navegações do século XX.

A imagem acima ilustra o que já foi realizado nos últimos 50 anos de conquistas espaciais. Naves e sondas espaciais foram enviadas a praticamente todos os planetas do Sistema Solar. Algumas destas naves já cruzaram o limite entre o que ainda é sistema solar e o que já se começa a se tratar como meio interestelar.

Na figura acima, pode-se ver as trajetórias, nomes das missões e seus respectivos anos. Para uma mesma nave, há várias trajetórias indicando que ela passou em um dado local mais de uma vez (flyby). As missões que falharam também estão representadas.

Ao meu ver, trata-se de resumo visual rico em detalhes, um trabalho excelente! Como é de costume afirmar: uma imagem vale mais que mil palavras!

Mais do que isso, além do fato de estas naves nos enviarem notícias de mundos longínquos, o mais distante artefato já produzido pelo homem nos mandou uma das mais importantes fotos já produzidas pela ciência. Enquanto observava Saturno, a Voyager 1 conseguiu capturar uma imagem de nosso mundo, enquanto esse navegava pela imensidão cósmica.

Abaixo, reproduzo uma imagem da sonda Voyager 1 e um vídeo que filosofa sobre o quão importante essa fotografia nos revela, humanamente falando e em todos os sentidos que essa palavra possa abordar.

Pálido ponto azul entre os anéis de Saturno.

Um pálido ponto azul entre os anéis de um Saturno que eclipsa o Sol. Créditos: NASA/JPL/Space Science Institute

Aquele ponto azul, destacado no canto superior esquerdo da figura acima, é a Terra, nosso planeta. Um pequeno mundo girando em torno do mesmo Sol que Saturno. Sol este que estava eclipsado por Saturno para um observador na Voyager 1.

Os computadores de Harvard

outubro 14, 2009

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O Café com Ciência já mostrou que muitas vezes existe uma certa inércia relacionada a classificações em Astronomia. Mas a mais interessante delas (em minha opinião) refere-se à classificação espectral de estrelas (também aqui).

Mas não é bem sobre isso que eu queria escrever, e sim sobre as mulheres presentes na foto (responsáveis pelo desenvolvimento da classificação). Elas ficaram conhecidas (entre o final do século XIX e início do século XX) como os “Computadores de Harvard“.  Desde muito antes daquela época, as mulheres já vinham trabalhando para o desenvolvimento da Astronomia, e sua participação tornou-se cada vez maior com o passar dos anos.

No início da década de 1880, Charles Pickering (então diretor do Observatório de Harvard) realizou um survey astronômico voltado à espectros estelares. Para fazer a classificação de todas as placas fotográficas com os espectros obtidos, Pickering recrutou (entre outras) Williamina Fleming, Antonia Maury e Annie Jump Cannon. Foi uma das primeiras vezes que mulheres puderam exercer a função de computadores humanos (até então uma função exclusiva para homens).

O trabalho começou com Williamina, cuja tarefa principal foi arranjar todos os espectros de acordo com um critério estabelecido, que nesse caso era a intensidade das linhas da série de Balmer do elemento Hidrogênio. Assim, ela dividiu as estrelas em classes que iam de A (linhas mais intensas) até N (linhas mais fracas). Alguns anos mais tarde, Annie Cannon agrupou algumas classes e só restaram as letras A, B, F, G, K, M e O. Utilizando esse novo esquema, Annie classificou (entre 1918 e 1924) mais de 225.000 estrelas!

Atualmente, as estrelas são classificadas de acordo com sua temperatura. MAS, como a classificação de Annie foi mantida, a ordem (para valores decrescentes de temperatura) tornou-se: O, B, A, F, G, K e M. A mnemónica mais utilizada entre os astrônomos é: Oh, Be A Fine Girl/Guy, Kiss Me. Até hoje não encontrei nenhuma frase em português  (e sem palavras de baixo calão) que fosse fácil de memorizar.

Abaixo, mais uma foto (retirada daqui) dessas bravas mulheres trabalhando na classificação de espectros. Outra astrônoma, que também aparece na foto (terceira partindo da esquerda) e que contribuiu em outras áreas da astronomia, é Henrietta Leavitt.

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Fica registrado então o nosso sincero agradecimento a essas mulheres que, mesmo em condições desiguais, tanto trabalharam (e ainda trabalham) para o desenvolvimento da ciência!

Veja também!

Máquina de Anticítera

outubro 12, 2009
No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant)

No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant).

O conhecimento é volátil: pode evaporar sem deixar vestígios. Por sorte, às vezes sobra um pouco dele antes de desaparecer por completo. A máquina de Anticítera é uma prova concreta dessa afirmação.

Em 1902, foi encontrada uma máquina em uma embarcação afundada na ilha grega de Anticítera. Estudos indicam que essa máquina foi construída por volta de 100 a.C e afundou 35 anos depois.

A máquina é composta por pelo menos trinta rodas denteadas. Ainda não é clara a função de todas suas engrenagens. O que se sabe é que a máquina de Anticítera deve ter sido utilizada como uma espécie de calendário, prevendo eventos astronômicos (eclipses, por exemplo) e jogos pan-helênicos (como os de Nemeia e as Olimpíadas). Isso foi deduzido com ajuda das inscrições encontradas em seu corpo. Acredita-se que o mecanismo deve levar em conta em seus cálculos correções de movimentos da Terra com relação ao céu, como precessão e nutação.

O impressionante dessa história é que não se esperava que houvesse tecnologia para uma arquitetura tão elaborada pelo menos até mil anos depois da (suposta) construção dessa máquina. Máquinas sofisticadas como essa e construídas na Idade Antiga devem ter sido mantidas em segredo por políticos e militares da época, por isso não há outros registros dessa produção.

Quase cem anos de pesquisas no sentido de desvendar o mistério de todo o mecanismo de Anticítera não foram suficientes para conhecê-la por completo. Mesmo assim, não se sabe a quem creditar a invenção e montagem da máquina, o mais antigo computador que já se teve notítica. Sua descoberta pela civilização contemporânea foi um mero acaso: não fosse a busca por tesouros em embarcações afundadas, seríamos ainda mais ignorantes sobre a vida daqueles povos.

Dois exemplos Inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Dois exemplos de inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Isso mostra como não temos tanto controle sobre nosso mundo quanto pensamos. Por mais elaborado que seja nosso método científico (e por maior que seja nossa crença nele), somos incapazes de desvendarmos tudo o que se passou, assim como não temos como garantir que as civilizações futuras saberão o que acontece nos dias de hoje.

Observatório do Monte Wilson e os Incêndios na Califórnia

setembro 1, 2009
Labaredas vistas a partir da câmera do Observatório do Monte Wilson!

Labaredas vistas a partir da câmera do Observatório do Monte Wilson!

O Observatório do Monte Wilson é um dos mais tradicionais do mundo. Descobertas das mais importantes foram realizadas através de observações neste observatório.

Fundado em 1904 por George Ellery Hale, seu principal telescópio tem um espelho primário com diâmetro de 2.5 metros. Para se ter uma ideia, o diâmetro do maior telescópio 100% brasileiro, o Observatório do Pico dos Dias, é de 1.5 metros, e só teve sua construção iniciada no final da década de 1970.

Foi lá, por exemplo, que Hubble em 1923 determinou a distância até a Galáxia de Andrômeda, ao determinar as distâncias de estrelas isoladas daquela galáxia. Mostrando que a nossa não era a única e que o Universo era maior do que se supunha. Logo após (em 1929), ele deu um passo ainda maior, apresentou a grande descoberta de que o Universo estava (está) em expansão.

Por outro lado, este telescópio está na Califórnia, e lá é relativamente comum haver incêndios de grandes proporções. Incêndios que até parecem só ameaçar as mansões dos famosos milionários de Hollywood e cercanias. Ou só a ameaça sofrida por esta parcela da sociedade é que tem destaque na mídia.

Neste momento, outro grande incêndio atinge a Califórnia. Já houve, inclusive, mortes de bombeiros tentando conter o fogo. E, de forma descontrolada, o fogo avança e agora ameaça, dentre tanta gente, tantas casas e construções dos mais diversos tipos, o famoso Observatório do Monte Wilson.

Segundo os bombeiros da região, existe uma grande possibilidade de o fogo atingir o Observatório nas próximas horas. Devido à grande dificuldade em se vencer o fogaréu que já engloba grande áreas ao redor do Monte Wilson, o combate será realizado por vias aéreas. Há um boletim que transmite as últimas notícias do fogo nos arredores dos telescópios. Além de uma câmera que mostra os arredores do observatório em tempo real.

Na figura acima vemos uma das imagens tomadas pela câmera montada no Observatório. O fogo e fumaça nas montanhas próximas já impõem respeito! Ficarei aqui na torcida pelas vidas e pelo Observatório (já evacuado) com suas riquezas histórico-científicas em risco.

Afinal, dentre outas coisas, foi de lá que nosso Universo deixou de ser uma pequena ilha, para termos a nossão de que existem inumeráveis outras mais. Além disso, foi de lá que nosso Universo deixou de ser estático (ao menos o era na mentalidade dos estudiosos), e se manifestou como algo monstruoso e que se expande, e que, portanto, já fora menor anteriormente. Tudo isso ajudou a levantar a ideia de que em algum momento do passado o Universo deve ter se originado de uma grande explosão, o Big Bang.

Hiparco, Pogson e as magnitudes

agosto 29, 2009

Certas definições, quando estabelecidas, são muito difíceis de serem alteradas. O conhecimento às vezes se acumula sobre conceitos que, na sua época, poderiam parecer corretos, mas que hoje tornam-se até contra-intuitivos. Essa inércia ocorre bastante em Astronomia, e os alunos geralmente sofrem para assimilar tudo isso.

Um exemplo bastante interessante é o caso da magnitude que, por definição, fornece uma escala de brilho de um dado objeto astronômico. Hiparco, brilhante astrônomo grego que viveu entre 190 e 120 a.C. desenvolveu (entre muitas outras coisas) um sistema de classificação dos objetos no céu. Para ele, a estrela mais brilhante que conseguia ver foi chamada de estrela de primeira grandeza (ou de primeira magnitude). Da mesma forma, a estrela mais fraca que seu olho conseguia enxergar foi chamada de estrela de sexta grandeza (ou sexta magnitude).

Até aí tudo certo. Passaram-se 2 mil anos até que Norman Robert Pogson percebesse que a diferença de brilho aparente entre as estrelas de primeira e sexta magnitudes era de aproximadamente 100 vezes. A primeira vista alguém poderia dizer que uma estrela de magnitude 3 é 2 vezes menos brilhante do que uma estrela de primeira magnitude, mas não é bem assim que acontece. O nosso olho possui uma resposta logarítmica à luz. Por isso que uma diferença entre 1 e 6 magnitudes é traduzida em uma razão de 100 em brilho aparente.

Assim, a magnitude aparente (m) de um objeto é proporcional ao logarítmo do fluxo recebido pelo olho (com um sinal negativo na frente, para levar em conta a inversão de escala feita por Hiparco). O problema não antecipado por Hiparco era que, um belo dia, seríamos capazes de desenvolver equipamentos que pudessem “ver” objetos muito mais fracos do que um ser humano jamais pensaria em enxergar. Então, começaram a aparecer magnitudes negativas! Alguns valores de magnitude visual estão listados abaixo (retirados daqui):

  • Sol: m =  -26.74 (porque é a estrela que está mais próxima a nós)
  • Lua cheia: m = -13
  • Acrux: m = 1.3 (a estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul)
  • Urano: m = 5.6 (o limite do olho humano sem instrumentos é 6.0)
  • Plutão: m = 13.6
  • Hubble: m = 30.0 (limite de magnitude que o telescópio espacial consegue detectar)

Essa definição de magnitude aparente não leva em conta, por exemplo, a distância em que o objeto se encontra.  Com efeito, essa quantidade não fornece nenhuma informação sobre o brilho intrínseco dos objetos. A fluxo de luz que parte da estrela sofre (entre outros efeitos) uma “diluição geométrica”, diminuindo com o quadrado da distância. Além disso, a poeira presente no meio interestelar também afeta a luz vinda dos objetos. Sendo assim, estrelas muito brilhantes e muito distantes podem possuir um valor alto de magnitude aparente. Já objetos mais próximos e menos brilhantes podem ter uma magnitude menor. Para resolver o impasse, foi definida uma grandeza chamada magnitude absoluta, que fornece o brilho dos objetos em uma certa distância padrão. Nessa escala, a magnitude do Sol é 4.83.

Então agora tudo certo… Não! Para piorar um pouco a situação, as estrelas possuem cores (temperaturas) diferentes. Isso significa que cada uma emite quantidades diferentes de energia em diferentes partes do espectro eletromagnético. Assim, as magnitudes também devem ser definidas em intervalos de comprimento de onda (magnitude aparente/absoluta no visível, infra-vermelho e etc.), criando assim uma série de definições complementares. Existe ainda o conceito de magnitude bolométrica, que está associada ao fluxo emitido pelo objeto somado em todos os comprimentos de onda.

Se alguém tivesse avisado o Hiparco sobre essa confusão toda, teria ele feito algo diferente?

As lunetas nas obras de Jan Brueghel, o Velho

julho 31, 2009

Trecho do quadro: Paisagem Extensa com Vista para o Castelo de Mariemont, por J. Brueghel, o Velho, ca. 1609-1612. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond.

A família Brueghel (ou Bruegel) foi composta por alguns dos mais famosos pintores flamengos. Neste texto, as obras exibidas são de Jan Brueghel, o Velho (Bruxelas, 1568 – Antuérpia 1625).

Pierluigi Selvelli e Paolo Molaro são dois pesquisadores do INAF-Osservatorio Astronomico di Trieste, e são os autores de um magnífico trabalho que liga algumas obras de J. Brueghel com a Astronomia.

Pela época em que J. Brueghel viveu, já podemos perceber que ele passou por um dos períodos mais efervescentes da história ocidental. Foi contemporâneo de Galileu, Kepler, Maurício de Nassau e as Companhias das Índias Orientais (a mais rica) e Ocidentais (que esteve ligada ao comércio entre a colônia portuguesa na América e a Europa).

Além disso, com a prosperidade holandesa, surgiu a luneta. E, como a arte sempre acompanha os avanços científicos, as novas tecnologias e o pensamento de sua época, ela também deu o ar da graça neste período.

Como podemos ver nos três trechos de pinturas de J. Brueghel, o Velho, a luneta é bastante recorrente. E isso suscitou curiosidade por parte dos italianos acima citados. Que lunetas são essas? Quem as construiu? Isto sabendo que a própria invenção da luneta é indicada como fato ocorrido por volta de 1600 d. C. (e as pinturas englobam um curto período entre 1609 e 1618 d. C.).

Já que não havia fotografias naquela época, as pinturas são os melhores registros visuais. E algumas pinturas, da mais alta qualidade e retratando algumas lunetas, bem pouco tempo após sua invenção, não podem passar despercebidas.

As pinturas foram feitas enquanto ele era pintor na corte do arquiduque Alberto VII dos Habsburgos, governador espanhol da parte católica da Holanda. É o próprio arquiduque Alberto VII quem olha pela luneta na figura logo acima, retirada de um quadro maior. Comparando com objetos na pintura, os autores estimam que a luneta tenha entre 40 e 45 cm de comprimento e cerca de 5 cm de diâmetro.

Até onde se sabe, esta pintura nos dá a mais antiga representação artística de uma luneta. Mesmo sabendo que a motivação original da pintura não tenha sido esta.

O interessante é que documentos mostram que Daniello Antonini, que trabalhava na corte do arquiduque, escrevera ao próprio Galileu avisando que Alberto VII obteve alguns exemplares da luneta do “primeiro inventor”, mesmo que de qualidade inferior que as de Galileu. E o “tubo” que aparece na figura é, muito provavelmente, uma destas peças citadas por Antonini.

Quanto à paternidade das lunetas (expressas no termo “primeiro inventor”), tanto pode ser de Zacharias Janssen como de Hans Lippershey, ambos considerados os pais da luneta.

Os autores apontam indícios de que Zacharias Janssen construiu algumas lunetas, que mediam por volta de 40 cm, e deu alguns exemplares ao arquiduque e ao príncipe Maurício de Nassau (aquele mesmo que governou o Brasil holandês, onde hoje situam-se os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte alcançando o Ceará).

Informação extra: “Os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro, basicamente, porque tinham um bom comércio com os portugueses, transportando matérias-prima do Brasil à Europa, ao mesmo tempo em que não eram reconhecidos como Estado-livre pela Espanha. Com a morte do rei Sebastião de Portugal (morto na batalha de Alcácer-Quibir), que não deixou herdeiros, assumiu o trono português, devido a complexas linhagens familiares, o rei da Espanha Felipe II, para desgosto dos holandeses que viram seus negócios com as colônias portuguesas descerem pelo ralo. A solução encontrada: atacar!.”

Este período, em que Portugal (e, portanto, o Brasil) pertenceu à Espanha, é conhecido como União Ibérica (1580-1640 d. C.). Então, na verdade, a expulsão dos holandeses do território brasileiro foi para proteger terras espanholas, apesar de certa autonomia dada aos portugueses e suas colônias concedidas pelos espanhóis.

De volta às pinturas! Por outro lado, os autores encontraram evidências de que Antonius Maria Schyrley de Rheita, o marquês Ambrogio Spinola (Comandante do Exército Espanhol em Flandres), comprou uma luneta, provavelmente construída por Lippershey (ao chocar locais e datas em comum), e a ofereceu ao arquiduque Alberto VII, deixando a dúvida quanto ao fabricante da luneta.

Na segunda figura, vemos uma parte do quadro “Alegoria da Visão”, feito com colaboração com Peter Paul Rubens. Nela vemos duas lunetas, uma logo em primeiro plano entre a Vênus e o cupido, e uma segunda atrás do cupido e junto ao seu pé. Com um certo esforço, pode-se perceber que há um pequeno macaco pegando um tubo jogado no chão. Alguns argumentam que o macaco segura, na verdade, um microscópio, uma vez que há correspondências que alegam que o arquiduque, também, recebera um microscópio de Janssen. Os autores creditam esse tubo a um modelo mais primitivo de luneta holandesa.

Na pintura também há vários outros instrumentos astronômicos, tais como um grande astrolábio, uma esfera armilar, um globo com pedestal, um compasso, mapas divididos e relógios solares. Os autores reforçam que, tudo isto vêm testemunhar o interesse do arquiduque por ciência, e Astronomia em particular, e que cada instrumento foi caracterizado de forma meticulosa com a verdadeira habilidade flamenga. Até os mais diminutos detalhes foram reproduzidos de forma precisa.

Na terceira figura, do quadro “A Alegoria da Visão e o Olfato”, vemos um telescópio em detalhe (a obra inteira é bem maior). O telescópio é no mesmo estilo do representado na segunda figura, sendo que o da segunda figura é composto por sete tubos, enquanto que o da terceira figura é composto por oito tubos. Os tamanhos estimados dos telescópios são de cerca de 170 cm. E os diâmetros dos tubos que compõem os telescópios são estimados entre 2,5 e 7,5 cm (dos mais finos, junto à ocular, aos mais grossos, junto à objetiva). As similaridades são apontadas como sendo devidas ao mesmo fabricante.

Trecho do quadro: A Alegoria da Visão, por J. Bruegel e P.P. Rubens, 1617. Madrid, Museo Nacional del Prado.

Trecho do quadro: A Alegoria para a Visão e o Olfato, por J. Bruegel et al., ca. 1618. Madrid, Museo Nacional del Prado.

O trabalho dos italianos pode ser acessado aqui!

Rutherford… Bohr…

julho 24, 2009

Fã que sou de Ariano Suassuna, não pude deixar esta pérola sem fazer qualquer comentário.

Ariano Suassuna é um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade, e estuda a cultura popular brasileira (em particular a nordestina). Ele tem conseguido ligar a cultura popular dos folhetos do romanceiro do Nordeste com a cultura popular renascentista que fora trazida pelos colonizadores. Além dos europeus, a influência Moura (norte da África) também é levada em conta.

Devido a um isolamento geográfico, que só há bem pouco tempo deixou de existir, o Nordeste brasileiro guarda relíquias culturais que já desapareceram em outras partes do Brasil e tampouco são encontradas na Europa ou norte da África. Particularmente, conheço expressões (bem poucas, verdade seja dita) faladas por pessoas que convivi e que soam como outro idioma se usar com qualquer brasileiro “atualizado”. Exemplo? Você já “espapaiou uma catenga azunindo um azogue?”

Desta forma, Ariano criou (junto com outros intelectuais) o movimento armorial. Este movimento define as “armas” de um povo como o conjunto de suas culturas, e tem como objetivo formular (ou reformular) uma arte erudita nacional e popular.

No vídeo acima, Ariano fala sobre uma tentativa frustrada (ainda bem) de conversão que alguém tentou sobre ele. Pelo tema da conversa, imagino que fora um físico a ilustre figura que, sem-noção, fora a casa de Ariano tentar mostrar o que era moda e de “qualidade”. Em outras palavras, foi uma tentativa malograda em “atualizar” uma das mais ilustres personalidades na área de cultura popular.

Numa tentativa de explicar o tema do vídeo: Rutherford e Bohr foram dois físicos do início do século XX, e ajudaram a modelar a então recém-criada teoria da mecânica quântica. O cavalo morto que Ariano cantarolou, muito possivelmente, trata-se do gato de Schrödinger. Agora, “em redor do buraco tudo é beira” não consegui decifrar a origem científica para tamanha preciosidade. Fico devendo essa.

Comenta-se que Ariano, bem-humorado que é, adorou a montagem deste vídeo. De qualquer forma, o físico, desmiolado e pregador de novas doutrinas, ajudou (tendo Ariano como porta-voz) a criar um dos maiores hits da internet e a divulgar os nomes de Rutherford e Bohr, mesmo que associados a um cavalo morto e à beira de um buraco.

Galileu e a descoberta de Netuno

julho 13, 2009
Planeta Netuno pode ter sido descoberto por Galileu Galilei.

Planeta Netuno pode ter sido descoberto por Galileu Galilei.

David Jamieson, físico da Universidade de Melbourne, afirma que Galileu Galilei é o verdadeiro autor da descoberta do planeta Netuno.

Já é sabido que Galileu Galilei observou o que conhecemos por Netuno no fim de 1612, mas que achou que se tratava de uma simples estrela, e portanto, o planeta passou-lhe despercebido.

Jamieson andou estudando as anotações de Galileu e afirma que descobriu provas substanciais da descoberta de Netuno por parte de Galileu. Para Jamieson, Galileu não deixou esta oportunidade escapar e, sim, deu-se conta de que na verdade aquela estrela movia-se como um planeta. Isto ainda em 1613!

Galileu, que era um defensor do sistema heliocêntrico de Copérnico, sempre fazia esboços de suas observações. Interessante que em um de seus rascunhos há um dado ponto próximo de Júpiter, seu foco principal de investigação. Esse ponto não está em nenhum catálogo estelar moderno (porque se move!) e isso levou a suspeitas sobre sua existência. Por meio de simulações computacionais, foi possível analisar onde estava Netuno no momento em que Galileu fizera suas observações, e que foram retratadas em seus esboços. Os resultados indicaram que o ponto em questão era mesmo Netuno.

“Na noite de 28 de janeiro de 1613, Galileu escreveu em seus rascunhos que uma estrela (que agora sabemos que se trata de Netuno) moveu-se com relação a uma outra estrela em sua vizinhança”, afirmou Jamieson à space.com. Ou seja, a mobilidade foi percebida sim!

Aparentemente, Galileu não fez divulgar seus estudos. Mais do que isso, devido às limitações nos conhecimentos astronômicos da época, afirmar a descoberta de um novo planeta (que mal se sabia o que eram, além de objetos luminosos no céu e com movimentos errantes) seria esperar demais.

Mas Jamieson vai além e afirma que há rascunhos, anteriores ao de 28 de janeiro de 1613, com indicações de que Galileu voltou a eles numa aparente tentativa de rever as posições anteriores do ponto observado em 28 de janeiro, em uma tentativa de achar onde estaria o, recém-descoberto, corpo movente em noites anteriores. Segundo Jamieson, um forte indicativo de que Galileu suspeitava de que se tratava de um novo corpo que girava em torno do Sol, como os demais planetas até então conhecidos.

O que a história tradicional nos ensina é que a autoria da previsão da existência de Netuno ainda é motivo de debates. Antes mesmo de uma prova matemática de sua existência, Alexis Bouvard, em 1821, supôs que deveria haver um outro planeta além de Urano ao constatar desvios não-previstos na órbita deste. Acabou abandonando a ideia após descrédito por parte da comunidade científica.

Matematicamente, Netuno foi previsto em 1843 por John Couch Adams que realizou cálculos para explicar os desvios encontrados nos dados de Urano associando tais desvios à influência de um outro planeta. E, entre 1845 e 1846, Urbain Le Verrier, de forma independente de Adams, também realizou cálculos que o levaram a prever um oitavo planeta.

Com bases matemáticas para sua existência, a caça ao oitavo planeta foi aberta e Netuno foi descoberto, e posteriormente notificado, em 23 de setembro 1846 por Johann Gottfried Galle.

Cada ano que passa, Galileu ainda nos surpreende. Se a veracidade desta história se confirmar, ela implicará que Galileu observou Netuno antes mesmo da descoberta de Urano (1781).