Archive for the ‘Filosofia da Ciência’ Category

A seriedade da pesquisa em Astrologia

junho 1, 2010

A Folha.com publicou uma reportagem sobre um departamento da Universidade de Brasília que dá o que falar no meio acadêmico: é o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, que tem como objetos de estudo ufologia, astrologia e conscienciologia. Alguns acreditam que há problemas em financiar com verbas públicas um grupo de estudos como esse, pois o dinheiro para ciência não deve ser dividido com esse tipo de conhecimento. É raro encontrar algo dentro dos limites da universalidade da cultura humana que possa ser mais arrogante do que esse tipo de pensamento sectário e preconceituoso.

(Esse texto reflete minha opinião e não necessariamente a dos outros dois autores deste blog.)

Há uma expectativa sobre a ciência atual, respaldada tanto por uma mentalidade cientificista quanto por uma suposta necessidade desenvolvimentista, que dá ao conhecimento científico status de verdade ontológica. Tal expectativa só se concretiza no contexto no qual nossa civilização se insere temporal e espacialmente. Tudo bem que a universidade foi pensada sobre ideais iluministas, racionalistas, positivistas e todo o mais – o que sustenta nossa crença cega em uma causalidade cartesiana, mas daí para dizer que a universidade não pode financiar astrologia é preciso um salto considerável.

Astrologia e ufologia, assim como as ciências, são formas de se representar o mundo. Expressam visões de mundo, nada além disso.  Pesquisas sobre esse tipo de conhecimento podem não ser interessantes para um cientista ordinário, ainda assim não são menos razoáveis para algumas pessoas, como aquelas com quem convivemos em nosso dia-a-dia. Essa justificativa deveria ser suficiente para aceitarmos a produção de conhecimento (não-científico) nesses campos de estudo. No entanto, o status de verdade das ciências parece ser inabalável e intocável.

Tanto astrologia quanto as ciências são embasadas em hipóteses. Embora algumas hipóteses sejam mais fortes do que outras, isso ainda não faz das ciências representações que excluam a validade das não-ciências em um certo domínio de vivência. O método científico é só uma hipótese, por mais sofisticada e eficiente que o seja. A Física explica muita coisa e por isso é genial. Experiência e observação são sim muito úteis e funcionam muito bem para o desenvolvimento do conhecimento científico. Mas não são verdades em si. Por mais fantásticos e fascinantes que sejam seus resultados, ainda são apenas hipóteses fortes.

A rigor, não faz sentido financiar uma ciência que estude o universo distante – do tipo a astronômica – só porque as teorias físicas funcionam aqui no nosso mundo. Ou não é questão de fé o fato de as leis físicas serem as mesmas em todo o universo?

Estudar teologia e astrologia na universidade é tão interessante quanto estudar filosofia. Se estudadas na universidade, a função da teologia e da astrologia não deve ser a de formar profissionais para o mercado, mas sim fazer pesquisa que ajude a construir esses saberes. Um teólogo pesquisador pode ser diferente de um padre ou bispo, assim como o João Bidu não deve morrer de amores pela pesquisa. Então qual o problema em pesquisar teologia e astrologia?

A universidade não pode ser meramente utilitarista, financiando uma fatia do conhecimento que pode ser produzido e desenvolvido pela sociedade contemporânea. Nesse sentido, astrologia e paranormalidade devem ter tanto espaço no financiamento de pesquisa básica quanto qualquer ciência. Não basta conhecimento científico para satisfazer os anseios das pessoas em toda sua diversidade. Há humanidades incapazes de serem expressas por qualquer linguagem, nem mesmo a científica. Vetar financiamento à astrologia, ufologia, teologia ou qualquer que seja a área de conhecimento é mutilar uma parte importante da cultura construída ao longo de nossa história.

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Paradoxo da Pedra

janeiro 18, 2010
Rocha

Uma rocha demasiadamente grande e pesada?

Coloquei à venda nas “Casas do Abreu, que o fabricante não dá garantias nem eu”, uma máquina formidável. Trata-se de um robô perfeito projetado para sempre obedecer às ordens de seu dono e somente às dele!

Porém, em uma manhã ensolarada, enquanto se bronzeava em torno de sua piscina semiolímpica, Severina Xique-Xique ordenou que seu escravo perfeito lhe trouxesse um copo de limonada que ficara esquecido na cozinha. Para sua surpresa, o robô não se moveu um único centímetro. Até aparentou exibir um sorriso sarcástico. Para deixá-la ainda mais pasma, Dona Gertrudes (sua sogra megera) manda-o pegar sua dentadura na pia do banheiro. Segundo as promessas do fabricante, o robô deveria, obrigatoriamente, obedecer à Severina, ao mesmo tempo em que deveria, incondicionalmente, rejeitar quaisquer ordens de terceiros (inclusive de sogras). Todavia, o robozinho sai em disparada atrás da dentadura da feliz sogra. Em choque, Severina quase desmaia na piscina.

Obviamente, o robô apresentou mal funcionamento. Pergunto: de quem é a culpa? Do robô? Que deve ser castigado com choques elétricos até voltar a funcionar corretamente. Ou, seria de quem o projetou/fabricou? Acho que ninguém teria dúvidas de que o projetista (eu no caso) teria que voltar à prancheta e refazer as contas. O interessante é que este raciocínio tão simples e óbvio não é aplicado em outras situações similares.

Esta estória sempre me vem à mente quando tentam explicar as desgraças humanas utilizando como pano de fundo a religião e seus mitos fabulosos. A trama começa com o argumento de que um erro (que costumam chamar de pecado) cometido por um de casal há muito tempo manchou nosso futuro. E tudo, absolutamente tudo, de ruim que a humanidade já passou, passa e passará está a este erro relacionado. Este tipo de ideia ajuda a encobrir a falta de evidência de um ser onipotente e que, portanto, poderia interagir em nossos momentos mais difíceis.

O interessante é que nesta situação, o mesmo raciocínio da estória do robô nunca é aplicado. Vamos lá: supondo que originalmente “fomos projetados” para sermos perfeitos, mesmo com o livre arbítrio (que seria um tipo de inteligência artificial ao robô), deveríamos seguir à risca o programado (não matar, não roubar, não assistir o BBB…). E, se não seguimos o que fora especificado a priori, pergunto: “De quem é a culpa?”

Existe um paradoxo sobre a existência de um ser onipotente. Seja esse ser Jeová, Alah ou Padre Cícero.

Em uma de suas variantes, ele afirma: “Se há algum ser onipotente, ele deve ser capaz de criar uma rocha tão grande e pesada que nem mesmo ele seria capaz de erguê-la”.

O paradoxo está no fato de que se tal ser conseguir tirar essa pedra (ou aerolito, como prefere o Vinicius Placco) da cartola ele não terá poder para levantá-la. Se, por outro lado, o misterioso mestre dos deuses não conseguir criar tal pedra, já de antemão será gongado pelos jurados. Sua provável onipotência falhará em qualquer situação.

A pergunta que não sai de minha cabeça é: o Haiti foi, ou é, alguma pedra demasiadamente grande e pesada? Ou o provável ser onipotente anda mais preocupado com outras coisas, como esta, esta ou esta outra. Acho que não custa perguntar se quisermos as respostas.