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A Criação do Sol, da Lua e dos Planetas

junho 13, 2010
Criação do Sol, da Lua de dos Planetas

Criação do Sol, da Lua de dos Planetas

Michelangelo Buonarroti (1475 – 1564) foi um dos maiores pintores do Renascimento. Na verdade, sua biografia nos diz que além de pintor, ele foi escultor, poeta e arquiteto. Sem dúvida nenhuma, foi um dos maiores gênios que a humanidade já revelou. Ele é mais conhecido pelas pinturas que realizou na Capela Sistina, principalmente a parte do Juízo Final.

Aqui apresento, logo acima, uma de suas obras nem tão conhecidas assim: “A Criação do Sol, da Lua e dos Planetas”.

Nesta pintura acima, que também é um dos afrescos que estão no teto da Capela Sistina, vemos duas situações distintas. A primeira, à direita, trata do momento da criação do Sol (esfera alaranjada) e da Lua (esfera cinza) por Deus. A segunda situação, à esquerda, trata da criação das árvores e plantas.

A parte das plantas está à esquerda da criação do Sol e da Lua porque, segundo os relatos bíblicos, o Sol e a Lua foram criados no quarto dia, enquanto que as plantas foram criadas no terceiro dia, um dia antes portanto.

Notem que, no momento em que Deus trabalhava na criação das plantas e segundo a visão artística de Michelangelo, houve um pequeno descuido da parte do criador que acabou mostrando mais do que devia.

Segundo o livro de Êxodo (capítulo 33, versículo 20), Deus disse à Moisés (ainda lembro bem!): “Não podes ver a minha face, porque homem algum pode ver-me e continuar vivo”. Bom, a face pode ser…

As lunetas nas obras de Jan Brueghel, o Velho

julho 31, 2009

Trecho do quadro: Paisagem Extensa com Vista para o Castelo de Mariemont, por J. Brueghel, o Velho, ca. 1609-1612. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond.

A família Brueghel (ou Bruegel) foi composta por alguns dos mais famosos pintores flamengos. Neste texto, as obras exibidas são de Jan Brueghel, o Velho (Bruxelas, 1568 – Antuérpia 1625).

Pierluigi Selvelli e Paolo Molaro são dois pesquisadores do INAF-Osservatorio Astronomico di Trieste, e são os autores de um magnífico trabalho que liga algumas obras de J. Brueghel com a Astronomia.

Pela época em que J. Brueghel viveu, já podemos perceber que ele passou por um dos períodos mais efervescentes da história ocidental. Foi contemporâneo de Galileu, Kepler, Maurício de Nassau e as Companhias das Índias Orientais (a mais rica) e Ocidentais (que esteve ligada ao comércio entre a colônia portuguesa na América e a Europa).

Além disso, com a prosperidade holandesa, surgiu a luneta. E, como a arte sempre acompanha os avanços científicos, as novas tecnologias e o pensamento de sua época, ela também deu o ar da graça neste período.

Como podemos ver nos três trechos de pinturas de J. Brueghel, o Velho, a luneta é bastante recorrente. E isso suscitou curiosidade por parte dos italianos acima citados. Que lunetas são essas? Quem as construiu? Isto sabendo que a própria invenção da luneta é indicada como fato ocorrido por volta de 1600 d. C. (e as pinturas englobam um curto período entre 1609 e 1618 d. C.).

Já que não havia fotografias naquela época, as pinturas são os melhores registros visuais. E algumas pinturas, da mais alta qualidade e retratando algumas lunetas, bem pouco tempo após sua invenção, não podem passar despercebidas.

As pinturas foram feitas enquanto ele era pintor na corte do arquiduque Alberto VII dos Habsburgos, governador espanhol da parte católica da Holanda. É o próprio arquiduque Alberto VII quem olha pela luneta na figura logo acima, retirada de um quadro maior. Comparando com objetos na pintura, os autores estimam que a luneta tenha entre 40 e 45 cm de comprimento e cerca de 5 cm de diâmetro.

Até onde se sabe, esta pintura nos dá a mais antiga representação artística de uma luneta. Mesmo sabendo que a motivação original da pintura não tenha sido esta.

O interessante é que documentos mostram que Daniello Antonini, que trabalhava na corte do arquiduque, escrevera ao próprio Galileu avisando que Alberto VII obteve alguns exemplares da luneta do “primeiro inventor”, mesmo que de qualidade inferior que as de Galileu. E o “tubo” que aparece na figura é, muito provavelmente, uma destas peças citadas por Antonini.

Quanto à paternidade das lunetas (expressas no termo “primeiro inventor”), tanto pode ser de Zacharias Janssen como de Hans Lippershey, ambos considerados os pais da luneta.

Os autores apontam indícios de que Zacharias Janssen construiu algumas lunetas, que mediam por volta de 40 cm, e deu alguns exemplares ao arquiduque e ao príncipe Maurício de Nassau (aquele mesmo que governou o Brasil holandês, onde hoje situam-se os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte alcançando o Ceará).

Informação extra: “Os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro, basicamente, porque tinham um bom comércio com os portugueses, transportando matérias-prima do Brasil à Europa, ao mesmo tempo em que não eram reconhecidos como Estado-livre pela Espanha. Com a morte do rei Sebastião de Portugal (morto na batalha de Alcácer-Quibir), que não deixou herdeiros, assumiu o trono português, devido a complexas linhagens familiares, o rei da Espanha Felipe II, para desgosto dos holandeses que viram seus negócios com as colônias portuguesas descerem pelo ralo. A solução encontrada: atacar!.”

Este período, em que Portugal (e, portanto, o Brasil) pertenceu à Espanha, é conhecido como União Ibérica (1580-1640 d. C.). Então, na verdade, a expulsão dos holandeses do território brasileiro foi para proteger terras espanholas, apesar de certa autonomia dada aos portugueses e suas colônias concedidas pelos espanhóis.

De volta às pinturas! Por outro lado, os autores encontraram evidências de que Antonius Maria Schyrley de Rheita, o marquês Ambrogio Spinola (Comandante do Exército Espanhol em Flandres), comprou uma luneta, provavelmente construída por Lippershey (ao chocar locais e datas em comum), e a ofereceu ao arquiduque Alberto VII, deixando a dúvida quanto ao fabricante da luneta.

Na segunda figura, vemos uma parte do quadro “Alegoria da Visão”, feito com colaboração com Peter Paul Rubens. Nela vemos duas lunetas, uma logo em primeiro plano entre a Vênus e o cupido, e uma segunda atrás do cupido e junto ao seu pé. Com um certo esforço, pode-se perceber que há um pequeno macaco pegando um tubo jogado no chão. Alguns argumentam que o macaco segura, na verdade, um microscópio, uma vez que há correspondências que alegam que o arquiduque, também, recebera um microscópio de Janssen. Os autores creditam esse tubo a um modelo mais primitivo de luneta holandesa.

Na pintura também há vários outros instrumentos astronômicos, tais como um grande astrolábio, uma esfera armilar, um globo com pedestal, um compasso, mapas divididos e relógios solares. Os autores reforçam que, tudo isto vêm testemunhar o interesse do arquiduque por ciência, e Astronomia em particular, e que cada instrumento foi caracterizado de forma meticulosa com a verdadeira habilidade flamenga. Até os mais diminutos detalhes foram reproduzidos de forma precisa.

Na terceira figura, do quadro “A Alegoria da Visão e o Olfato”, vemos um telescópio em detalhe (a obra inteira é bem maior). O telescópio é no mesmo estilo do representado na segunda figura, sendo que o da segunda figura é composto por sete tubos, enquanto que o da terceira figura é composto por oito tubos. Os tamanhos estimados dos telescópios são de cerca de 170 cm. E os diâmetros dos tubos que compõem os telescópios são estimados entre 2,5 e 7,5 cm (dos mais finos, junto à ocular, aos mais grossos, junto à objetiva). As similaridades são apontadas como sendo devidas ao mesmo fabricante.

Trecho do quadro: A Alegoria da Visão, por J. Bruegel e P.P. Rubens, 1617. Madrid, Museo Nacional del Prado.

Trecho do quadro: A Alegoria para a Visão e o Olfato, por J. Bruegel et al., ca. 1618. Madrid, Museo Nacional del Prado.

O trabalho dos italianos pode ser acessado aqui!

Rutherford… Bohr…

julho 24, 2009

Fã que sou de Ariano Suassuna, não pude deixar esta pérola sem fazer qualquer comentário.

Ariano Suassuna é um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade, e estuda a cultura popular brasileira (em particular a nordestina). Ele tem conseguido ligar a cultura popular dos folhetos do romanceiro do Nordeste com a cultura popular renascentista que fora trazida pelos colonizadores. Além dos europeus, a influência Moura (norte da África) também é levada em conta.

Devido a um isolamento geográfico, que só há bem pouco tempo deixou de existir, o Nordeste brasileiro guarda relíquias culturais que já desapareceram em outras partes do Brasil e tampouco são encontradas na Europa ou norte da África. Particularmente, conheço expressões (bem poucas, verdade seja dita) faladas por pessoas que convivi e que soam como outro idioma se usar com qualquer brasileiro “atualizado”. Exemplo? Você já “espapaiou uma catenga azunindo um azogue?”

Desta forma, Ariano criou (junto com outros intelectuais) o movimento armorial. Este movimento define as “armas” de um povo como o conjunto de suas culturas, e tem como objetivo formular (ou reformular) uma arte erudita nacional e popular.

No vídeo acima, Ariano fala sobre uma tentativa frustrada (ainda bem) de conversão que alguém tentou sobre ele. Pelo tema da conversa, imagino que fora um físico a ilustre figura que, sem-noção, fora a casa de Ariano tentar mostrar o que era moda e de “qualidade”. Em outras palavras, foi uma tentativa malograda em “atualizar” uma das mais ilustres personalidades na área de cultura popular.

Numa tentativa de explicar o tema do vídeo: Rutherford e Bohr foram dois físicos do início do século XX, e ajudaram a modelar a então recém-criada teoria da mecânica quântica. O cavalo morto que Ariano cantarolou, muito possivelmente, trata-se do gato de Schrödinger. Agora, “em redor do buraco tudo é beira” não consegui decifrar a origem científica para tamanha preciosidade. Fico devendo essa.

Comenta-se que Ariano, bem-humorado que é, adorou a montagem deste vídeo. De qualquer forma, o físico, desmiolado e pregador de novas doutrinas, ajudou (tendo Ariano como porta-voz) a criar um dos maiores hits da internet e a divulgar os nomes de Rutherford e Bohr, mesmo que associados a um cavalo morto e à beira de um buraco.

1453 d. C.

maio 21, 2009
O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

A Idade Média, que tratei em um post anterior (476 d.C.), encerrou-se em 1453 d.C. com a queda do Império Bizantino. E, não foi em vão que a descoberta da América, e logo após a descoberta do Brasil, aconteceu apenas algumas décadas depois da queda de Constatinopla. Afinal de contas, em termos históricos, de 1453 até 1492 (descobrimento da América) são menos de 40 anos.

Foi devido ao Bloqueio da passagem por Constantinopla (e região) que os europeus se viram forçados a encontrar uma outra forma de continuar o comércio com as Índias. Os Espanhóis achavam que, sendo a Terra redonda, poder-se-ía alcançá-las indo no sentido contrário, para Oeste. Os Portugueses planejaram o que fora feito milhares de anos antes pelos fenícios, o périplo da África. Se a Terra não fosse redonda eles poderiam ir parar num mundo de monstros ou cair no abismo onde os oceanos vertem toda sua água.

Colombo, italiano que liderou a esquadra espanhola, alcançou a América e supõe-se que tenha morrido sem saber que, na verdade, o que ele fez não foi “simplesmente” dar outra forte comprovação quanto à esfericidade da Terra, mas sim descobriu um novo continente, o Novo Mundo. A partir daí, os portugueses quiseram sua parte na nova terra e “descobriram” o que hoje é o Brasil.

Tudo isto porque uma cidade fora tomada por inimigos alguns anos antes. Porém esta importante cidade era o elo entre o Oriente e uma Europa que estava se reformulando após séculos nas mãos dos árabes. A Reconquista da península Ibérica e a consequente formação dos primeiros estados nacionais (Portugal, Espanha, Países Baixos…) exigiu uma maior demanda de produtos de luxo para o mercado interno que emergia.

Historicamente localizados, podemos ver as conseguências destas transformações na Ciência. Por volta desta nova era (Idade Moderna) surgiu a Renascença, cujo nome já nos trás a noção de nascer novamente. O que nasceu novamente foi o pensar humano, a liberdade de questionar-se, de procurar entender a natureza. A liberdade de expressar-se nas pinturas, nas escrituras, nas esculturas. Claro que falar de liberdade para fazer, pensar ou agir nos idos de 1500, não teria uma boa contrapartida nos dias atuais. Mas quando tratamos da era que ficara para trás, as mudanças foram de uma importância sem precedentes.

A era de ouro perdida na época dos gregos ressurgia nas mãos e mentes brilhantes de Galileu Galilei (1564-1642), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Caravaggio (1571-1610). Um pouco mais tarde, mas ainda na era Moderna: Newton (1643-1727), Leibniz (1646-1716), Euler (1707-1783) e tantos outros que não caberia citar todos aqui, revolucionaram a Física, a Matemática, a Astronomia e a sociedade como um todo. É só dar liberdade para o ser humano buscar respostas as suas indagações, ou mesmo liberdade para questionar-se, que as revoluções no conhecimento vêm como simples consequência.

Evidentemente que não cabe só ao acontecido em Constatinopla (hoje Istambul) toda essa reviravolta, mas o ponto de partida foi lá, o pontapé inicial que exigiu mudanças nas estruturas do poder na Europa. Países antes sem expressão, como Portugal e Espanha, devido a suas posições estratégicas no Atlântico e Mediterrâneo, passaram a ter grande importância. Apoiados por uma Inglaterra que se erguia a base do mercantilismo e dos Países Baixos que lucravam com o transporte de matéria-prima originária das colônias no Novo Mundo, a Europa começava a impor no resto do mundo suas culturas. E tudo isso exigia uma logística e engenharias que precisaram ser repensadas e constantemente renovadas devido à competição entre as novas potências que surgiam. E a ciência pegou carona nesta empreitada que começava a redesenhar o mundo.

Após o refortalecimento das monarquias dos Estados Nacionais, com contrapartidas autoritárias para com suas respectivas populações, em 1789 d.C. o mundo sofre outro abalo que redireciona o rumo da História, ocorre a Revolução Francesa. Neste momento surgia a Idade Contemporânea.