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Telescópio SOAR

setembro 27, 2009

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O SOAR (Southern Astrophysical Research Telescope) é um telescópio com espelho principal de 4.1m de diâmetro. Ele foi construído a partir de uma parceria entre o Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil (34%), o U.S. National Optical Astronomy Observatory (33%), a Michigan State University (19%) e a University of North Carolina at Chapel Hill (14%). O local escolhido para a construção foi Cerro Pachón, Chile, a 2700m acima do nível do mar. Neste local existem ainda outros telescópios, como por exemplo o Gemini Sul, que aproveitam a altitude, baixa umidade e ausência de chuva da região dos Andes chilenos para realizar suas observações.

O valor gasto para contrução e por 20 anos de operação foi de US$42.000.000,00. A comunidade astronômica brasileira tem acesso a mais de 100 noites de observação por ano (sendo que no GEMINI o Brasil possui apenas algumas horas de observação) e o Chile, pelo fato de “hospedar” o telescópio, tem direito a 10% do tempo de observação por ano.

A entrada neste consórcio foi um ótimo negócio, pois nos dá autonomia para fazer ciência de qualidade, sem depender de tempo de outras instituições (e outros países). Além disso, foram construídas estações de observação remota (local de onde escrevo este post), que permitem fazer observações sem a necessidade de ir até o Chile. Isso economiza tempo e dinheiro, além de proporcionar a nós, alunos de pós-graduação, uma forma de aprender todos os procedimentos envolvidos na tomada de dados. Provavelmente não é tão emocionante quanto ir até o telescópio de fato (essa pergunta o Moisés pode responder),  mas mesmo assim é uma experiência ótima.

Só para complementar as informações, o escritório do SOAR no Brasil funciona no LNA (Laboratório Nacional de Astrofísica). Neste link é possível encontrar material em português sobre o telescópio e o tipo de ciência que está sendo feita pelos pesquisadores brasileiros.

Agora que acabei de escrever percebi que o post ficou meio curto… e com as  idéias um pouco dispersas… mas como são quase 4h da manhã e meu café acabou, tenho certeza que serei perdoado.

O Sete de Setembro e a Astronomia

setembro 7, 2009
Bandeira do Brasil

Bandeira do Brasil

Como hoje é sete de setembro e, portanto, aniversário da Independência do Brasil, não há melhor momento para se discutir a respeito das estrelas presentes na Bandeira Nacional.

A Bandeira do Brasil foi adotada pelo decreto número 4 de 19 de novembro de 1889. Este decreto foi preparado por Benjamin Constant, membro do Governo Provisório e seguidor das ideias progressistas de Augusto Comte. Foi Benjamin Constant quem sugeriu a expressão progressista “Ordem e Progresso” que ainda hoje está presente na bandeira brasileira.

Diferentemente do que se ensina por aí, as cores de nossa bandeira não representam nossas matas (o verde), nossas riquezas (o amarelo) e por aí em diante. Na verdade, elas representam as famílias às quais nossa monarquia estava ligada. O verde está associado à casa real de Bragança, da qual fazia parte o imperador D. Pedro I, e o amarelo à casa real dos Habsburgos, à qual pertencia a imperatriz D. Leopoldina.

O círculo azul central corresponde a uma representação da esfera celeste, inclinada segundo a latitude da cidade do Rio de Janeiro às 12 horas siderais (8 horas e 30 minutos) do dia 15 de novembro de 1889. Ou seja, é uma representação de como estaria o céu no dia e horário em que fora proclamada a República. Note que a proclamação ocorreu durante o dia e o céu lá estampado é uma representação sem a luz intensa do Sol. De fato, mesmo durante o dia as estrelas estão no céu, só não as vemos devido à intensa luz solar, ajudada pela atmosfera que espalha essa luz (tornando o céu azulado).

A faixa branca por si só não representa nada. Alguns argumentam que seja a eclíptica ou o equador celeste, mas nada mais é do que uma simples faixa cuja finalidade é exibir o lema positivista.

Sabendo que se trata de uma representação do céu, as estrelas representam algo? A resposta é sim!

Cada estrela representa um estado da Federação. Na figura abaixo há uma indicação bem clara de quem é quem. Note que a estrela acima da faixa branca não é o Distrito Federal, como supõem alguns. Na verdade a estrela acima da faixa branca é o que hoje conhecemos como Estado do Pará. Na época em que a bandeira foi apresentada existia a província do Grão-Pará, que estava prosperando bastante, trazendo fortuna para a Nação. Representa, portanto, uma estrela ao norte!

O artifício de se colocar elementos celestiais em bandeiras nacionais não é privilégio brasileiro. Na bandeira dos Estados Unidos são cinquenta estrelas dispostas de forma sequencial, onde cada uma também representa um estado da federação. Na bandeira chilena há uma estrela. Nas bandeiras argentina e uruguaia há o Sol. Nas bandeiras australiana e neozelandesa há o Cruzeiro do Sul. E assim por diante.

Carl Sagan comenta este fato em seu famoso livro Cosmos. A presença destes elementos celestiais simboliza a eternidade dos céus presentes na pátria de quem criou a bandeira. Como poder atemporal, os céus sempre foram utilizados como símbolos de poder de povos, reis e nações. E mesmo nos dias atuais, a coisa não é diferente.

Estrelas na Bandeira Nacional

Estrelas na Bandeira Nacional

A grama é sempre mais verde do outro lado da cerca?

julho 27, 2009

Tendo em vista que a minha estadia na terra do tio Sam está para terminar e que, devido ao excesso de trabalho, minha frequencia de posts foi bem abaixo do esperado, resolvi escrever um ultimo texto antes de voltar para casa.

O título acima é uma tradução livre da frase The grass is always greener on the other side of the fence. Indo até onde minha inteligência permite, eu entendo essa frase quase como uma bronca, ou seja, tudo o que é do outro é melhor do que o seu. Não é uma questão de querer melhorar, de se espelhar nas boas ações do vizinho para melhorar as suas; é uma questão  (com o perdão da palavra) que chega perto da inveja.

E porque escrever tudo isso aqui? Muitas pessoas, sem ter a base correta para falar de certos assuntos, tendem a achar que tudo que existe e vem do primeiro mundo (nesse caso, os Estados Unidos) é melhor, até mesmo em ciência. Bom, depois desse mês trabalhando aqui, posso dizer se, pelo menos dentro da Astronomia, a grama é realmente mais verde aqui.

Não, a grama não é mais verde aqui. Em matéria de estrutura, investimento e incentivo à pesquisa, eu diria que o Brasil ainda perde de lavada. Mas quando se trata de qualificação de pessoal, nível de trabalhos publicados e empenho individual em pesquisa, estamos muito bem, obrigado. Me arrisco até a dizer que eu algumas áreas bem específicas nossa grama é ainda mais verde que a deles.

A dinâmica me pareceu muito similar. Alunos de pós-graduação são sempre alunos de pós-graduação. A grande maioria longe de casa, enfrentando problemas para se estabelecer em um novo instituto, ganhar dinheiro para pagar aluguel, trabalhando duro para conseguir um pós-doc e, quem sabe um dia, um emprego permanente. Porém, quando algum deles precisa de, por exemplo,  um laptop novo, aí a competição fica injusta. É revoltante ver o tamanho da parcela que pagamos de impostos…

Um ponto interessante que eu reparei aqui (além do péssimo café-água-de-batata) foi a questão de horário. No Brasil (pelo menos no instituto onde eu faço pesquisa), é possível encontrar gente trabalhando desde antes das 7h até 22-23h. Aqui, pelo contrário, as coisas funcionam das 9-9h30 às 17h. Tudo que deve ser feito no dia tem que caber nesse horário. Bom, deve-se levar em conta que alguns continuam a trabalhar fora desse horário em casa e no final de semana. Outro fator limitante é que estamos no verão aqui. Realmente o escritório não é tão atrativo quando você tem uma temperatura de 25-30 graus lá fora, levando em conta que no inverno o frio é tenso (a sensação chega a -20 graus). Bom, isso foi apenas uma constatação. Nada de julgamentos (exceto pela questão do café).

Tive a oportunidade de assistir à teses de doutorado, seminários e de interagir com professores e alunos. Os trabalhos apresentados são de muita qualidade, a mesma mostrada nos trabalhos feitos no Brasil. Aqui é mais comum os alunos (pelo menos da Astronomia) fazerem um doutorado direto em 5 anos (com 2-3 anos para disciplinas e monitoria e 3-2 anos de pesquisa) do que um mestrado e depois um doutorado. E sempre com aquela pressão (que é igual em todos os lugares do mundo) de ter que publicar o maior número  possível de papers…

Resumindo: em se tratando de pesquisa em Astronomia, a grama do Brasil é tão verde quanto a dos Estados Unidos, e os jardineiros tem  mesma capacitação. As principais diferenças são: o primeiro mundo tem (muito) mais dinheiro; investe mais para cuidar do próprio jardim e; o número de jardineiros deles (ainda) é bem maior que o nosso…