Archive for julho \31\UTC 2009

As lunetas nas obras de Jan Brueghel, o Velho

julho 31, 2009

Trecho do quadro: Paisagem Extensa com Vista para o Castelo de Mariemont, por J. Brueghel, o Velho, ca. 1609-1612. Virginia Museum of Fine Arts, Richmond.

A família Brueghel (ou Bruegel) foi composta por alguns dos mais famosos pintores flamengos. Neste texto, as obras exibidas são de Jan Brueghel, o Velho (Bruxelas, 1568 – Antuérpia 1625).

Pierluigi Selvelli e Paolo Molaro são dois pesquisadores do INAF-Osservatorio Astronomico di Trieste, e são os autores de um magnífico trabalho que liga algumas obras de J. Brueghel com a Astronomia.

Pela época em que J. Brueghel viveu, já podemos perceber que ele passou por um dos períodos mais efervescentes da história ocidental. Foi contemporâneo de Galileu, Kepler, Maurício de Nassau e as Companhias das Índias Orientais (a mais rica) e Ocidentais (que esteve ligada ao comércio entre a colônia portuguesa na América e a Europa).

Além disso, com a prosperidade holandesa, surgiu a luneta. E, como a arte sempre acompanha os avanços científicos, as novas tecnologias e o pensamento de sua época, ela também deu o ar da graça neste período.

Como podemos ver nos três trechos de pinturas de J. Brueghel, o Velho, a luneta é bastante recorrente. E isso suscitou curiosidade por parte dos italianos acima citados. Que lunetas são essas? Quem as construiu? Isto sabendo que a própria invenção da luneta é indicada como fato ocorrido por volta de 1600 d. C. (e as pinturas englobam um curto período entre 1609 e 1618 d. C.).

Já que não havia fotografias naquela época, as pinturas são os melhores registros visuais. E algumas pinturas, da mais alta qualidade e retratando algumas lunetas, bem pouco tempo após sua invenção, não podem passar despercebidas.

As pinturas foram feitas enquanto ele era pintor na corte do arquiduque Alberto VII dos Habsburgos, governador espanhol da parte católica da Holanda. É o próprio arquiduque Alberto VII quem olha pela luneta na figura logo acima, retirada de um quadro maior. Comparando com objetos na pintura, os autores estimam que a luneta tenha entre 40 e 45 cm de comprimento e cerca de 5 cm de diâmetro.

Até onde se sabe, esta pintura nos dá a mais antiga representação artística de uma luneta. Mesmo sabendo que a motivação original da pintura não tenha sido esta.

O interessante é que documentos mostram que Daniello Antonini, que trabalhava na corte do arquiduque, escrevera ao próprio Galileu avisando que Alberto VII obteve alguns exemplares da luneta do “primeiro inventor”, mesmo que de qualidade inferior que as de Galileu. E o “tubo” que aparece na figura é, muito provavelmente, uma destas peças citadas por Antonini.

Quanto à paternidade das lunetas (expressas no termo “primeiro inventor”), tanto pode ser de Zacharias Janssen como de Hans Lippershey, ambos considerados os pais da luneta.

Os autores apontam indícios de que Zacharias Janssen construiu algumas lunetas, que mediam por volta de 40 cm, e deu alguns exemplares ao arquiduque e ao príncipe Maurício de Nassau (aquele mesmo que governou o Brasil holandês, onde hoje situam-se os estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte alcançando o Ceará).

Informação extra: “Os holandeses invadiram o Nordeste brasileiro, basicamente, porque tinham um bom comércio com os portugueses, transportando matérias-prima do Brasil à Europa, ao mesmo tempo em que não eram reconhecidos como Estado-livre pela Espanha. Com a morte do rei Sebastião de Portugal (morto na batalha de Alcácer-Quibir), que não deixou herdeiros, assumiu o trono português, devido a complexas linhagens familiares, o rei da Espanha Felipe II, para desgosto dos holandeses que viram seus negócios com as colônias portuguesas descerem pelo ralo. A solução encontrada: atacar!.”

Este período, em que Portugal (e, portanto, o Brasil) pertenceu à Espanha, é conhecido como União Ibérica (1580-1640 d. C.). Então, na verdade, a expulsão dos holandeses do território brasileiro foi para proteger terras espanholas, apesar de certa autonomia dada aos portugueses e suas colônias concedidas pelos espanhóis.

De volta às pinturas! Por outro lado, os autores encontraram evidências de que Antonius Maria Schyrley de Rheita, o marquês Ambrogio Spinola (Comandante do Exército Espanhol em Flandres), comprou uma luneta, provavelmente construída por Lippershey (ao chocar locais e datas em comum), e a ofereceu ao arquiduque Alberto VII, deixando a dúvida quanto ao fabricante da luneta.

Na segunda figura, vemos uma parte do quadro “Alegoria da Visão”, feito com colaboração com Peter Paul Rubens. Nela vemos duas lunetas, uma logo em primeiro plano entre a Vênus e o cupido, e uma segunda atrás do cupido e junto ao seu pé. Com um certo esforço, pode-se perceber que há um pequeno macaco pegando um tubo jogado no chão. Alguns argumentam que o macaco segura, na verdade, um microscópio, uma vez que há correspondências que alegam que o arquiduque, também, recebera um microscópio de Janssen. Os autores creditam esse tubo a um modelo mais primitivo de luneta holandesa.

Na pintura também há vários outros instrumentos astronômicos, tais como um grande astrolábio, uma esfera armilar, um globo com pedestal, um compasso, mapas divididos e relógios solares. Os autores reforçam que, tudo isto vêm testemunhar o interesse do arquiduque por ciência, e Astronomia em particular, e que cada instrumento foi caracterizado de forma meticulosa com a verdadeira habilidade flamenga. Até os mais diminutos detalhes foram reproduzidos de forma precisa.

Na terceira figura, do quadro “A Alegoria da Visão e o Olfato”, vemos um telescópio em detalhe (a obra inteira é bem maior). O telescópio é no mesmo estilo do representado na segunda figura, sendo que o da segunda figura é composto por sete tubos, enquanto que o da terceira figura é composto por oito tubos. Os tamanhos estimados dos telescópios são de cerca de 170 cm. E os diâmetros dos tubos que compõem os telescópios são estimados entre 2,5 e 7,5 cm (dos mais finos, junto à ocular, aos mais grossos, junto à objetiva). As similaridades são apontadas como sendo devidas ao mesmo fabricante.

Trecho do quadro: A Alegoria da Visão, por J. Bruegel e P.P. Rubens, 1617. Madrid, Museo Nacional del Prado.

Trecho do quadro: A Alegoria para a Visão e o Olfato, por J. Bruegel et al., ca. 1618. Madrid, Museo Nacional del Prado.

O trabalho dos italianos pode ser acessado aqui!

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A grama é sempre mais verde do outro lado da cerca?

julho 27, 2009

Tendo em vista que a minha estadia na terra do tio Sam está para terminar e que, devido ao excesso de trabalho, minha frequencia de posts foi bem abaixo do esperado, resolvi escrever um ultimo texto antes de voltar para casa.

O título acima é uma tradução livre da frase The grass is always greener on the other side of the fence. Indo até onde minha inteligência permite, eu entendo essa frase quase como uma bronca, ou seja, tudo o que é do outro é melhor do que o seu. Não é uma questão de querer melhorar, de se espelhar nas boas ações do vizinho para melhorar as suas; é uma questão  (com o perdão da palavra) que chega perto da inveja.

E porque escrever tudo isso aqui? Muitas pessoas, sem ter a base correta para falar de certos assuntos, tendem a achar que tudo que existe e vem do primeiro mundo (nesse caso, os Estados Unidos) é melhor, até mesmo em ciência. Bom, depois desse mês trabalhando aqui, posso dizer se, pelo menos dentro da Astronomia, a grama é realmente mais verde aqui.

Não, a grama não é mais verde aqui. Em matéria de estrutura, investimento e incentivo à pesquisa, eu diria que o Brasil ainda perde de lavada. Mas quando se trata de qualificação de pessoal, nível de trabalhos publicados e empenho individual em pesquisa, estamos muito bem, obrigado. Me arrisco até a dizer que eu algumas áreas bem específicas nossa grama é ainda mais verde que a deles.

A dinâmica me pareceu muito similar. Alunos de pós-graduação são sempre alunos de pós-graduação. A grande maioria longe de casa, enfrentando problemas para se estabelecer em um novo instituto, ganhar dinheiro para pagar aluguel, trabalhando duro para conseguir um pós-doc e, quem sabe um dia, um emprego permanente. Porém, quando algum deles precisa de, por exemplo,  um laptop novo, aí a competição fica injusta. É revoltante ver o tamanho da parcela que pagamos de impostos…

Um ponto interessante que eu reparei aqui (além do péssimo café-água-de-batata) foi a questão de horário. No Brasil (pelo menos no instituto onde eu faço pesquisa), é possível encontrar gente trabalhando desde antes das 7h até 22-23h. Aqui, pelo contrário, as coisas funcionam das 9-9h30 às 17h. Tudo que deve ser feito no dia tem que caber nesse horário. Bom, deve-se levar em conta que alguns continuam a trabalhar fora desse horário em casa e no final de semana. Outro fator limitante é que estamos no verão aqui. Realmente o escritório não é tão atrativo quando você tem uma temperatura de 25-30 graus lá fora, levando em conta que no inverno o frio é tenso (a sensação chega a -20 graus). Bom, isso foi apenas uma constatação. Nada de julgamentos (exceto pela questão do café).

Tive a oportunidade de assistir à teses de doutorado, seminários e de interagir com professores e alunos. Os trabalhos apresentados são de muita qualidade, a mesma mostrada nos trabalhos feitos no Brasil. Aqui é mais comum os alunos (pelo menos da Astronomia) fazerem um doutorado direto em 5 anos (com 2-3 anos para disciplinas e monitoria e 3-2 anos de pesquisa) do que um mestrado e depois um doutorado. E sempre com aquela pressão (que é igual em todos os lugares do mundo) de ter que publicar o maior número  possível de papers…

Resumindo: em se tratando de pesquisa em Astronomia, a grama do Brasil é tão verde quanto a dos Estados Unidos, e os jardineiros tem  mesma capacitação. As principais diferenças são: o primeiro mundo tem (muito) mais dinheiro; investe mais para cuidar do próprio jardim e; o número de jardineiros deles (ainda) é bem maior que o nosso…

Rutherford… Bohr…

julho 24, 2009

Fã que sou de Ariano Suassuna, não pude deixar esta pérola sem fazer qualquer comentário.

Ariano Suassuna é um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade, e estuda a cultura popular brasileira (em particular a nordestina). Ele tem conseguido ligar a cultura popular dos folhetos do romanceiro do Nordeste com a cultura popular renascentista que fora trazida pelos colonizadores. Além dos europeus, a influência Moura (norte da África) também é levada em conta.

Devido a um isolamento geográfico, que só há bem pouco tempo deixou de existir, o Nordeste brasileiro guarda relíquias culturais que já desapareceram em outras partes do Brasil e tampouco são encontradas na Europa ou norte da África. Particularmente, conheço expressões (bem poucas, verdade seja dita) faladas por pessoas que convivi e que soam como outro idioma se usar com qualquer brasileiro “atualizado”. Exemplo? Você já “espapaiou uma catenga azunindo um azogue?”

Desta forma, Ariano criou (junto com outros intelectuais) o movimento armorial. Este movimento define as “armas” de um povo como o conjunto de suas culturas, e tem como objetivo formular (ou reformular) uma arte erudita nacional e popular.

No vídeo acima, Ariano fala sobre uma tentativa frustrada (ainda bem) de conversão que alguém tentou sobre ele. Pelo tema da conversa, imagino que fora um físico a ilustre figura que, sem-noção, fora a casa de Ariano tentar mostrar o que era moda e de “qualidade”. Em outras palavras, foi uma tentativa malograda em “atualizar” uma das mais ilustres personalidades na área de cultura popular.

Numa tentativa de explicar o tema do vídeo: Rutherford e Bohr foram dois físicos do início do século XX, e ajudaram a modelar a então recém-criada teoria da mecânica quântica. O cavalo morto que Ariano cantarolou, muito possivelmente, trata-se do gato de Schrödinger. Agora, “em redor do buraco tudo é beira” não consegui decifrar a origem científica para tamanha preciosidade. Fico devendo essa.

Comenta-se que Ariano, bem-humorado que é, adorou a montagem deste vídeo. De qualquer forma, o físico, desmiolado e pregador de novas doutrinas, ajudou (tendo Ariano como porta-voz) a criar um dos maiores hits da internet e a divulgar os nomes de Rutherford e Bohr, mesmo que associados a um cavalo morto e à beira de um buraco.

Eclipse Solar e a Ida à Lua

julho 23, 2009

Há 40 anos, pela primeira vez, pisamos em um astro do Sistema Solar que não a Terra. E, obviamente que o Café com Ciência não poderia deixar passar em branco esta celebração.

A Lua dá sustentabilidade ao eixo de rotação da Terra e, por conseguinte, fornece uma estabilidade climática que permite o surgimento da vida e, mais importante, permite que a vida possa prosperar e evoluir. De fato, caso não existisse a Lua, o eixo de rotação da Terra não teria tal estabilidade e as famosas estações do ano não existiriam, pelo menos com a regularidade que conhecemos. A Terra precessiona, como um pião, mas de uma forma bem lenta (graças à Lua).

E foi, justamente, neste astro que o homem deixou sua primeira pegada extraterrestre. Além das pegadas, ficaram um jipe lunar e alguns instrumentos científicos.

Para não ficar de fora e participar das festividades, na manhã do dia 22 de julho de 2009, a Lua passou na frente do Sol para um referencial na Terra, em outras palavras, nos proporcionou um dos mais belos acontecimentos que alguém pode presenciar: um eclipse solar. E, tido como o mais longo a ocorrer neste século.

Como para a Lua a Terra não apresenta fronteiras entre países, pois isso nada mais é do que uma invenção humana, esta, ironicamente, resolveu premiar não o povo que primeiro chegou lá, mas seus maiores rivais da atualidade, os chineses.

E, pela internet, estava eu a ver a tela de meu computador ir escurecendo vagarosamente com uma imagem de Shanghai ao fundo. E, garanto, que não foi devido ao descanso de tela de meu computador. A ausência de luz foi causada devido ao momentâneo bloqueio da luz do astro-Rei por parte da Lua intrometida.

Para comemorar estas duas realizações, viajem à Lua mais eclipse solar, que juntos mostram o quanto que nós humanos buscamos conhecer os fenômenos celestes, escolhi uma frase criada por Neil deGrasse Tyson (citada no documentário “O Universo” do History Channel), e que nos mostra nossa importância cósmica. Nem tão exacerbada como defendem alguns, nem tão medíocre como defendem outros. Logo acima, coloquei um link para um vídeo em que deGrasse Tyson cita sua famosa frase. E, logo abaixo, reproduzo o pensamento de Tyson em português, através de uma tradução livre minha:

“Reconhecer que cada molécula que constrói nosso corpo, e os átomos que constroem as moléculas, podem ser rastreados até os núcleos incandescentes de estrelas de alta massa que explodiram e lançaram seus interiores quimicamente ricos na Galáxia, enriquecendo quimicamente nuvens de gás primordiais com a química da vida. Desta forma, estamos todos conectados: biologicamente uns com os outros; quimicamente com a Terra e atomicamente com o resto do universo. Isto é maravilhoso. Isto me faz sorrir e, na verdade, isto me traz uma sensação de grandeza. Não que sejamos melhores que o universo, nós somos parte dele. Estamos no universo e o universo está em nós.”

Só a Astronomia para nos dá esta real noção de nosso lugar no universo. Isto, à medida em que viajamos através dele espacialmente, e com ele temporalmente, num pálido ponto azul.

Massa de Jeans?

julho 20, 2009

Se você foi direcionado para esta página após digitar no google algo como “Lojas de jeans + restaurantes para comer massa” infelizmente você está no lugar errado. Se você já é leitor do blog e acha que finalmente nós iremos escrever sobre moda, culinária e costura, também errou. Agora, se você ainda não se encheu desse papo furado e chegou até o final do primeiro parágrafo,  você merece uma bela equação para apreciar:

screen-capture

Algumas informações (importantes) antes de continuar: G é a constante de gravitação universal, o R todo rebuscado é a constante universal dos gases, o μ é o peso molecular médio, T é a temperatura e ρ é a densidade. Esta equação descreve a Massa de Jeans, em homenagem ao físico, astrônomo, matemático, cozinheiro e conselheiro sentimental Sir James Hopwood Jeans. A matemática envolvida na dedução desta equação é bem complicada e, acreditem, depois de muita conta aparece essa belezura.

Segundo o critério de instabilidade de Jeans (sempre em mente: em linhas gerais), para uma dada configuração de temperatura e densidade qualquer massa (de uma nuvem de gás, por exemplo) que satisfaça M > MJ, sofrerá instabilidade gravitacional e consequente colapso. Assim, se fixarmos um valor de densidade, ambientes com temperaturas maiores vão gerar objetos cuja distribuição de massa dará preferência à objetos mais massivos.

OK, até aqui bem legal. Então, seguindo essa linha de raciocínio (e lembrando que o Universo está esfriando…), pode-se inferir que logo após o Big-Bang, quando as primeiras estrelas se formaram, só existiam estrelas super-massivas e mais nada. Só que existe um pequeno problema: Se algum leitor curioso pegar a equação acima e substituir valores típicos de densidade e temperatura de uma nuvem interestelar de hidrogênio neutro (densidade = 0,000000000000000000000001 g/cm3 e T=-173 graus Celsius), a massa de Jeans encontrada será da ordem de 10000 massas Solares, ou seja, MUITO maior do que a massa típica das estrelas se formando hoje em dia.

Qual é o problema então? É… outros processos devem ser levados em conta. O principal deles é a fragmentação. A maneira simples de olhar para o problema seria a de que pedaços de uma nuvem de grande porte podem atingir  densidades maiores em escalas locais, onde então ocorreria a instabilidade de Jeans. Quando a nuvem se contrai, a temperatura aumenta, a massa de Jeans assume um valor maior que a massa da nuvem e o colapso termina. Se o colapso termina, a nuvem esfria, a massa de Jeans diminui, e o colapso começa novamente, em escala reduzida. Assim, dentro de uma mesma nuvem, é possível encontrar valores diferentes para a massa de Jeans, o que permite que estrelas com massas menores (como o Sol) possam se formar sem grandes traumas. Esse tipo de modelo hierárquico foi sugerido pela primeira vez por um camarada chamado Hoyle, em 1953!

Um exemplo bem legal (e visual) do processo de colapso e fragmentação de uma nuvem molecular pode ser visto no vídeo abaixo

No final de tudo isso, para que os astrônomos utilizam essas informações? Como confirmar o tamanho e temperatura de uma nuvem que formou uma estrela há bilhões de anos atrás? Esse é o assunto para a próxima série de posts, que virá em breve.

Lembre-se sempre que este cenário é aproximado. Existe (como de costume) um sem-número de outras variáveis que podem influenciar no problema, como a geometria adotada, simetria esférica, campos magnéticos e por aí vai. Será que isso daria uma boa analogia? Como fatores ambientais (dinheiro, cultura, religião) influenciam a formação (nascimento) de entes típicos (pessoas) de um determinado meio (região, cidade, país, continente)?

Galileu e a descoberta de Netuno

julho 13, 2009
Planeta Netuno pode ter sido descoberto por Galileu Galilei.

Planeta Netuno pode ter sido descoberto por Galileu Galilei.

David Jamieson, físico da Universidade de Melbourne, afirma que Galileu Galilei é o verdadeiro autor da descoberta do planeta Netuno.

Já é sabido que Galileu Galilei observou o que conhecemos por Netuno no fim de 1612, mas que achou que se tratava de uma simples estrela, e portanto, o planeta passou-lhe despercebido.

Jamieson andou estudando as anotações de Galileu e afirma que descobriu provas substanciais da descoberta de Netuno por parte de Galileu. Para Jamieson, Galileu não deixou esta oportunidade escapar e, sim, deu-se conta de que na verdade aquela estrela movia-se como um planeta. Isto ainda em 1613!

Galileu, que era um defensor do sistema heliocêntrico de Copérnico, sempre fazia esboços de suas observações. Interessante que em um de seus rascunhos há um dado ponto próximo de Júpiter, seu foco principal de investigação. Esse ponto não está em nenhum catálogo estelar moderno (porque se move!) e isso levou a suspeitas sobre sua existência. Por meio de simulações computacionais, foi possível analisar onde estava Netuno no momento em que Galileu fizera suas observações, e que foram retratadas em seus esboços. Os resultados indicaram que o ponto em questão era mesmo Netuno.

“Na noite de 28 de janeiro de 1613, Galileu escreveu em seus rascunhos que uma estrela (que agora sabemos que se trata de Netuno) moveu-se com relação a uma outra estrela em sua vizinhança”, afirmou Jamieson à space.com. Ou seja, a mobilidade foi percebida sim!

Aparentemente, Galileu não fez divulgar seus estudos. Mais do que isso, devido às limitações nos conhecimentos astronômicos da época, afirmar a descoberta de um novo planeta (que mal se sabia o que eram, além de objetos luminosos no céu e com movimentos errantes) seria esperar demais.

Mas Jamieson vai além e afirma que há rascunhos, anteriores ao de 28 de janeiro de 1613, com indicações de que Galileu voltou a eles numa aparente tentativa de rever as posições anteriores do ponto observado em 28 de janeiro, em uma tentativa de achar onde estaria o, recém-descoberto, corpo movente em noites anteriores. Segundo Jamieson, um forte indicativo de que Galileu suspeitava de que se tratava de um novo corpo que girava em torno do Sol, como os demais planetas até então conhecidos.

O que a história tradicional nos ensina é que a autoria da previsão da existência de Netuno ainda é motivo de debates. Antes mesmo de uma prova matemática de sua existência, Alexis Bouvard, em 1821, supôs que deveria haver um outro planeta além de Urano ao constatar desvios não-previstos na órbita deste. Acabou abandonando a ideia após descrédito por parte da comunidade científica.

Matematicamente, Netuno foi previsto em 1843 por John Couch Adams que realizou cálculos para explicar os desvios encontrados nos dados de Urano associando tais desvios à influência de um outro planeta. E, entre 1845 e 1846, Urbain Le Verrier, de forma independente de Adams, também realizou cálculos que o levaram a prever um oitavo planeta.

Com bases matemáticas para sua existência, a caça ao oitavo planeta foi aberta e Netuno foi descoberto, e posteriormente notificado, em 23 de setembro 1846 por Johann Gottfried Galle.

Cada ano que passa, Galileu ainda nos surpreende. Se a veracidade desta história se confirmar, ela implicará que Galileu observou Netuno antes mesmo da descoberta de Urano (1781).

Esboços do LHC ‘a la’ da Vinci

julho 8, 2009
teste

Descrição do funcionamento do CMS no LHC de uma forma não usual.

Particularmente, gosto muito quando se mescla a arte com a ciência. Quando se coloca, lado a lado, o emocional e o racional. Mas de forma profunda e consistente, uma vez que ambas, arte e ciência, são frutos de anseios humanos em se expressar, buscar respostas, para si e para o outro.

Também, percebo que não sou o único a pensar desta forma. No filme Contato (baseado no romance homônimo do sensacional Carl Sagan) isto ocorre quando uma civilização extraterrestre resolve se comunicar com a cientista do SETI, Ellie Arroway, da forma menos traumática possível. Arroway é uma personagem fictícia, mas inspirada na cientista do SETI Jill Tarter. Para isto, eles abriram mão de uma comunicação puramente “racional” no momento em que acharam por bem contactá-la por meio da imagem de seu pai, já morto, e em uma praia paradisíaca em uma noite espetacularmente estrelada.

O engenheiro italiano Sergio Cittolin é o autor das imagens desta postagem, e tem feito obras de arte sobre o maquinário do LHC.

Ele trabalha no CERN e, em seus momentos livres, desenha esboços dos aparatos onde trabalha. Mas com um toque de arte, ele o faz num estilo bastante antigo, e que não era mais utilizado.

Mesmo sem muito tempo livre (conforme entrevista à revista Symetry), uma vez que está sendo o coordenador de projeto do sistema de aquisição de dados da experiência CMS (Compact Muon Solenoid) no LHC (Large Hadron Collider), ele tem feito um conjunto de esboços de vários sistemas do CMS, no que seria o estilo de da Vinci.

Tudo com a mais completa (e voluntária) ilegibilidade para um leitor dos dias atuais. Além disso, ele procura usar objetos da época renascentista, como cordas e roldanas, para explicar o funcionamento dos aparatos, além de escrever em sentido contrário ao dos dias atuais (como fazia Leonardo).

Por se tratar de pura arte, seus desenhos são usados nas capas dos relatórios técnicos do CMS. De certa forma, um tributo por parte do time em que trabalha.

Cittolin compara este tipo de trabalho com a visão naturalista de Leonardo da Vinci. da Vinci foi em busca do conhecimento seguindo sua própria maneira. Ele mergulhou fundo em descobrir como as coisas funcionam e por quê. Para isso, muitas vezes ele dissecava os objetos de estudo. “Então veio a idéia: por que não apresentar nosso trabalho ao mundo usando este instinto naturalista de Leonardo?”, questionou-se Cittolin.

Assim como Leonardo que não via muita distinção entre arte e ciência, Cittolin nos presenteia com belas imagens:

teste

A idéia é desenhar sob um, provável, ponto de vista de Leonardo. Como em um corpo, o detector é dissecado por um curioso que deseja entendê-lo.

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Aqui, as partículas são representadas por livros. Mais de 99% é rejeitado ao longo do trajeto no aparato e, por fim, empilhado. Os poucos em fila, são eventos pré-selecionados para estudo posterior.

Fazendo café no hemisfério norte

julho 6, 2009

O objetivo principal do Café com Ciência é divulgar ciência de qualidade de forma acessível. Além disso,  com o blog conseguimos mais um motivo para nos reunir e apreciar um bom café após o almoço. Durante o mês de julho, demos um novo passo: agora temos um correspondente internacional nos Estados Unidos. Estou atualmente fazendo pesquisa (e café) no Departamento de Física e Astronomia da MSU (Michigan State University), localizada em East Lansing, Michigan.

Departamento de Física e Astronomia da MSU

Departamento de Física e Astronomia da MSU

Vou tentar, durante esta curta estadia na terra do tio Sam, dar um panorama geral de como as coisas funcionam por aqui, e quais são as diferenças (e semelhanças), em matéria de pesquisa, com o nosso querido Brasil. O primeiro aspecto que me saltou aos olhos foi que aqui eles possuem um planetário junto ao departamento de Astronomia. A figura abaixo mostra o Planetário Abrams, em um belo dia de Sol.

Planetário Talbert e Leota Abrams

Planetário Talbert e Leota Abrams

Qual a importância de se ter um planetário tão próximo às salas de aula? Os alunos, tanto das ciências exatas quanto das demais, têm a possibilidade de complementar as aulas teóricas de, por exemplo,  astronomia de posição, sem precisar se deslocar grandes distâncias (nesse caso, cerca de 400 passos). Essa prática economiza tempo, dinheiro e aumenta a frequencia às aulas. Além disso, existe uma contribuição para a comunidade, com palestras e cursos voltados especialmente para este público.

FTRwanda

Mudando um pouco de assunto, logo nos primeiros dias, em uma de minhas investidas à procura de café expresso (porque se não for expresso, é “cháfé”), me deparei com algo interessante. Existe uma iniciativa da Universidade, juntamente com um fabricante de café, de comercializar nos EUA café produzido por agricultores em Ruanda.

Utilizando os princípios do Fair Trade (Comércio Justo), foram criadas cooperativas para ajudar no desenvolvimento da agricultura local, capacitando pequenos agricultores, criando e melhorando  as fazendas produtoras de café e, o mais importante, pagando preços justos.

Segundo a Wikipedia: (O Comércio justo) Trata-se de um movimento social e uma modalidade de comércio internacional que busca o estabelecimento de preços justos, bem como de padrões sociais e ambientais equilibrados, nas cadeias produtivas.

E essa é apenas a ponta do Iceberg. Existe um impacto positivo tremendo nas comunidades onde a iniciativa é implantada. Uma história que circula de forma impressa pela universidade é de uma menina chamada Paola Pereira, cuja família faz parte da Cooperativa de Café de Poço Fundo, Minas Gerais. Segundo o folheto, a cooperativa utilizou parte do dinheiro recebido atrás das vendas de café pelo sistema de Comércio Justo para financiar os estudos dos jovens da comunidade. Foi assim que a Paola conseguiu terminar a faculdade.

E, para garantir que todo o processo está sendo feito corretamente, foi criada, em 1998, a TransFair USA, que é uma agência de certificação sem fins lucrativos que regula os produtos Fair Trade nos Estados Unidos. Acredito que devam existir várias iniciativas semelhantes espalhadas pelo Brasil, mas minha ignorância no assunto não me permite escrever  nada além do exposto acima. Simplesmente encontrei o café e resolvi escrever um pouco sobre sua procedência. Mas a certeza que tenho é a de que em breve a Equipe do Café com Ciência saberá o gosto do café produzido em Ruanda.

Analogia da semana – conhecimento e meio interestelar

julho 1, 2009
NGC6543

Nebulosa Olho-de-gato

Minha experiência com o curso de licenciatura, limitada a duas disciplinas recém concluídas, foi excelente. Mostrou que nesse curso há espaço para reflexões sobre como acontece a construção do conhecimento, algo que me foi raro durante o bacharelado. Em uma dessas disciplinas fez-se uma importante (porém negligenciada) constatação de como evolui a ciência: por maior que seja a contribuição de cada um de seus agentes – tanto os gênios quantos os “meros mortais” – o conhecimento cinetífico se desenvolve agregando em si ideias pré-existentes, evoluindo de uma estrutura simples para outra mais complexa do que a primordial.

Veja por exemplo o conceito do éter, um meio material em que se acreditava ser essencial para a propagação da luz. Por que a luz não se propagaria no vácuo, por exemplo?  Durante muito tempo se buscou na Mecânica uma explicação para diversos fenômenos; com a interpretação da natureza ondulatória da luz não foi diferente. Todos os fenômenos ondulatórios conhecidos até então – som, ondas do mar, etc. – exigiam um meio material para sua ocorrência. Dessa forma, esperava-se que a luz, então encarada como uma onda, necessitasse também de um meio para sair de um ponto e chegar a outro. Com o surgimento do conceito de campo eletromagnético, a busca pelo éter onde a luz se propagaria deixou de ser necessária. No entanto, um meio etéreo ainda é evocado de forma recorrente na tentativa de se explicar outros fenômenos. É o que acontece atualmente com a expansão acelerada do universo, da qual se acredita que o éter (ou quintessência) seja o um responsável em potencial.

A tentativa mecanicista (pressupondo a existência de um meio material) de se explicar o comportamento ondulatório da luz representa muito bem como o conhecimento é construído a partir de ideias já concebidas, apropriadas e organizadas criativamente. Nem mesmo Einstein, em sua elegante teoria da relatividade restrita, deixou de utilizar conceitos e ideias que já haviam sido formuladas por outros cientistas – como a constância da velocidade da luz, experimentalmente comprovada por Michelson e Morley, e a contração do espaço, interpretação dada por Lorentz. É importante deixar claro que ideias inovadoras existem, embora todas elas sejam absolutamente influenciadas pelo contexto em que surgiram. Ou seja, a produção do conhecimento nunca ignora o que já foi criado, pois se apropria dos conceitos estabelecidos na cultura onde tal produção se insere. É nesse sentido que o conhecimento evolui de um estado simples para outro complexo, reciclando ideias de acordo com um dado contexto.

A evolução da ciência com base em um conhecimento já estabelecido é análogo ao processo evolutivo do espaço onde nascem e morrem as estrelas, o chamado meio interestelar.

As estrelas são as responsáveis pela reciclagem do meio interestelar: nascem de um gás composto por átomos de elementos químicos presentes naquele ambiente, transforma esses átomos em outros através de alguns processos de produção (assim como o Sol tranforma hidrogênio em hélio em seu núcleo) e antes de morrerem devolvem parte do material transformado ao meio ambiente onde nasceram (como fazem as nebulosas planetárias, objetos do tipo apresentado na figura acima). Tal transformação faz com que o meio interestelar evolua de uma composição química relativamente simples para uma mais complexa.

Ou seja, a humanidade recicla o conhecimento assim como as estrelas reciclam a composição química do meio interestelar. Curioso, não é? Pois isso é apenas uma parte do muito que ainda temos para aprender com as estrelas.