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A história (ou uma outra crônica) de um Átomo

outubro 7, 2010

No ano passado foi publicado aqui no um texto neste blog intitulado Crônicas de um carbono ancião. A ideia do texto é a de contar a história da “vida” de um átomo de carbono desde o início do universo.

Naquela época, esse texto rendeu uma longa discussão sobre cópias de textos entre blogs, plágios etc. Algumas pessoas envolvidas na discussão acreditam que a Crônica inspirara um texto de outro blogueiro. Compartilhei dessa opinião durante um tempo, mas após ouvir uma série de pessoas – algumas, aliás, só pude conhecer por conta dessa cisma – duvido muito que a ideia por trás do texto publicado no C³ tenha sido tão original a ponto de influenciar outros autores, por mais interessante que tenha sido o texto. Prova de que o tema não era nem um pouco inovador foram outros textos com o mesmo tema publicados anteriormente em outros sites e blogs, como este e este aqui.

Hoje resolvi retomar esse assunto, enterrado há mais de um ano, após encontrar um material de divulgação científica muito interessante, produzido pela Casa da Ciência da UFRJ. Esse centro cultural produziu a revista Ciência para Poetas, que trata o conhecimento científico numa perspectiva cultural. Na revista publicada (se não me engano) em julho encontrei uma poesia de um cidadão chamado Rodolfo Teófito (1853-1932). De acordo com a revista, Teófito foi “médico sanitarista, escritor e divulgador da ciência, desempenhou importante atividade nas campanhas de vacinação no nordeste, há cerca de um século. Publicou diversos livros, entre contos, poesias e romances, como a obra intitulada A Fome, que introduziu o realismo/naturalismo no Ceará”. Eis a poesia:

História de um Átomo
(Eternidade da matéria)

Fui átomo de rocha, fui granito,
Fui lava de vulcão, fui flor mimosa,
Sutil perfume, nuvem borrascosa
Manchando a transparência do infinito.

Vaguei no espaço… errante aerolito
Transpus mundos de essência vaporosa.
De santos fui artéria vigorosa,
O coração formei a ser maldito.

Nasci com a Terra; gaz eu fui com ela,
Estive de Princípio na procela,
Fui nebulosa, sol, planeta agora.

Há cem mil séculos vivo m’encarnando,
Águia n’altura, verme rastejando,
Pólen voando pelo espaço a fora.

De fato, a poesia mostra que nossas ideias não têm sido tão originais quanto pensava. (Diga-se de passagem, mostra também que a divulgação científica não se dá apenas por textos postados em blogs, livros e vídeos de grandes autores; há uma série de poesias e outras expressões disponíveis por aí que tratam a ciência com um olhar difereciado.) Independente de alguém ter tomado emprestada a originalidade de algum texto alheio ao longo desses tempos, essa poesia conseguiu expressar de forma também interessante o que eu e os autores dos outros textos tentamos escrever em prosa, cada um à sua maneira.

Mestre em Ciências – Área: Astronomia

outubro 30, 2009

É com grande satisfação que informamos que, na tarde de hoje (30/10/2009), nosso estimado co-autor do Café com Ciência, Tiago Almeida (a.k.a. Zé Colméia), apresentou a dissertação: “A origem do carbono no Universo: insights a partir de observações de estrelas pobres em metais nas nuvens de Magalhães” e tornou-se Mestre em Ciências na área de Astronomia.

A apresentação foi excelente e o candidato foi aprovado por unanimidade pela banca, composta pela Prof.a Dr.a Silvia Rossi (IAG/USP – orientadora), Prof. Dr. Marcos Diaz (IAG/USP) e Timothy C. Beers (MSU/USA).

Tendo em vista o título da dissertação, podemos ver que as histórias do carbono e das covas de Adão e Eva foram escritas por quem entende do assunto!

Parabéns Zé!

Crônica de um Carbono ancião

maio 12, 2009

carbonPode não acreditar, mas bem me lembro do ambiente em que nasci, há bilhões de anos. Era um empurra-empurra danado. Naquela ocasião, quando me dei conta de que era um átomo de Carbono, vi vários primos nascerem das trombadas de núcleos de Hélio. Confesso ter gostado de toda aquela turbulência: depois de uma supernova, é difícil encontrar um lugar assim tão carregado de energia.

Contam por aí histórias de átomos de Carbono em outras estrelas, que não nasceram como eu, das fusões nucleares em supernovas (quando a estrela explode e espalha todo seu material pelo espaço), mas das que ocorrem no interior estelar – afinal, onde mais poderia ser?

Esses átomos não têm o meu privilégio. Dizem as más línguas que, para os Carbonos provenientes do interior estelar, alcançar um planeta requer percorrer um caminho tortuoso: para saírem das profundezas do interior da estrela em que nasceram, os átomos de Carbono precisaram esperar por uma célula convectiva passar e com ela pegarem carona até a superfície estelar. Dos que chegam lá, só alguns têm a sorte de serem ejetados da atmosfera da estrela e, depois de um tempo viajando no meio interestelar, acabar em um planeta qualquer.

Respeito as dificuldades pelas quais passaram, mas não tiveram que suportar as altas temperaturas pelas quais passei na supernova. Na verdade, depois de ter sido espalhado no meio interestelar, ficar naquele gás foi um tédio. Comparado ao ambiente em que nasci, interagia muito pouco com os outros. Ao menos pude entrar em contato com átomos diversos, inclusive os de elementos mais pesados que o Ferro, que só nascem das supernovas.

Depois de um bom tempo vagando pelo espaço, umas bolotas enormes de gás começaram a se condensar naquela nuvem de gás que restou da supernova, e as coisas ficaram mais interessantes. Foi quando surgiu uma estrela, querendo brilhar mais do que todos os outros corpos dali e ser o centro das atenções. Veja a ironia do destino: da explosão que matou uma estrela em um lugar nasceu outra em um sítio diferente, que hospedaria o sistema planetário que passei a habitar. As bolotas, que então atinei serem planetas, começaram uma ciranda em torno da estrela, que hoje recebe o nome de Sol. Não imaginava o que estava por vir.

Fui atraído por um desses planetas. Agradeço muito à gravidade da Terra: não fosse ela, ainda estaria vagando pelo meio interestelar ou teria acabado em algum lugar ermo – já pensou passar a vida toda em Marte ou em um asteróide? Na Terra sou muito importante, talvez mais do que qualquer Carbono em outro lugar do Universo. Tenho orgulho das funções que desempenho – e não são poucas, passaria outros bilhões de anos falando sobre todas elas. Ser a base da vida é a que mais me dá orgulho.

Fiz parte de vários organismos, dos mais simples ao mais complexo, do unicelular ao animal. Perdi a noção do número de seres vivos dos quais já fiz parte; já estive em todos os agentes da cadeia alimentar. Fui petróleo, carvão, plástico, látex. Até nas rochas de montanhas já estive. Ajudei a marcar o tempo de objetos muito antigos. Já fui herói, hoje alguns me têm como vilão. Ah!, se eu pudesse escrever um livro sobre mim… é verdade, até em livros e papéis já estive!

Tem Carbono que se gaba de ter assumido postos mais valiosos do que o meu, como os que já passaram por diamantes. Eu não me importo com isso, pois diamantes podem existir em qualquer lugar mas fazer parte de um ser vivo, até onde sei, só é possível na Terra.

Tenho satisfação do papel que desempenho neste planeta. Passei bons momentos e não me arrependo de nenhum elétron que tenha compartilhado com os outros. Apesar de toda essa responsabilidade, passaria uma eternidade fundamentando a vida, aqui ou em qualquer outro lugar do Universo.