Archive for outubro \28\UTC 2010

Imagem da semana: Três Marias versão tunning

outubro 28, 2010

Como já disse por aqui anteriormente, eu nunca me deparo com imagens bonitas enquanto faço pesquisa, e na maioria das vezes não paro e olho as fotos do céu que são publicadas por aí. Esse “exercício” de publicar a imagem da semana, mesmo que seja uma vez por bimestre, acaba me fazendo apreciar um pouco mais o trabalho alheio. E essa visão logo abaixo com certeza vale um post.

A imagem desta semana mostra uma visão bem mais caprichada (ou “tunada”, como diriam aqueles que se julgam anglófonos porque assistem friends sem ler a legenda, adoram pegar palavras em inglês, pronunciar de qualquer jeito, trocar os sons, piorar o sentido e continuar achando que está tudo bem) daqueles três pontinhos sem graça que observamos a olho nu no céu. Apresento-lhes Órion, o caçador. E, quem diria, nossas três marias desbravadoras formam o importantíssimo cinturão do sujeito, sem o qual ele não poderia carregar sua espada nem manter o saiote no lugar. Logo à direita das três amigas encontra-se uma região azulada de intensa formação estelar, chamada Nebulosa de Órion. Além disso, essas imensas nuvens de gás e poeira espalhadas pela imagem só podem ser observadas com o auxílio de telescópios potentes, sendo que a imagem final é uma composição de várias outras tomadas em diferentes filtros.

Outra figura conhecida que pode ser vista na imagem é a Nebulosa Cabeça do Cavalo, que encontra-se bem próxima à “maria inferior” na imagem. Caso queira saber exatamente onde se encontram esses objetos e o nome das estrelas mais brilhantes da imagem clique aqui. (Me reservo o direito de continuar chamando as três marias de maria1, maria2 e maria3. Onde já se viu chamar alguém de Alnilam? Parece mais uma marca de água sanitária).

E o arco avermelhado que envolve as marias? O que seria?

É o mundialmente conhecido e adorado Loop de Barnard, cujo centro encontra-se próximo à nebulosa de Órion. O nome foi dado em homenagem a Edward Barnard, que capturou algumas imagens desta região em 1895. Porém, dizem as más línguas que William Herschel (o cara que fez um mapa da Galáxia) já havia observado o dito loop nos idos de 1786. Acredita-se que o loop foi formado por sucessivas explosões de supernova, que  teriam ocorrido entre 2 e 3 milhões de anos atrás.

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Para ser bem sincero, eu não vejo caçador nenhum no céu, nem fazendo muito esforço. Clique aqui para acessar minha releitura pessoal da constelação.

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Café com Ciência pelo Brasil

outubro 24, 2010

Bem, escrevo aqui para alguns milhões dos antes bilhões de leitores do Café com Ciência. As circunstâncias que a vida nos coloca fazem com que exista uma lista de prioridades, e infelizmente a tarefa de publicar textos no blog foi deixada para segundo plano.

Não pensem que é preguiça ou descaso com as dezenas de bilhões de leitores diários que este blog já teve. É apenas um período de escassez que vai passar tão rápido e leve quanto uma bolinha de papel em uma careca reluzente.

Resolvi escrever este pequeno texto para (como diriam os americanos) fazer um “update” e quem sabe receber um “feedback” dos poucos leitores que ainda se dão ao trabalho de não apertar a tecla “read all” do agregador de rss de sua preferência.

A ótima notícia é a de que Dr. Alessandro Pereira Moisés foi aprovado em um concurso público para provimento de cargo de professor doutor na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), no Campus de São Raimundo Nonato, Piauí. Ele fará parte do Colegiado do Curso de Ciências da Natureza. Todos aqui do IAG/USP ficaram extremamente felizes e satisfeitos com a boa nova, e nós do Café com Ciência ainda mais. Sempre soubemos do potencial do nosso plantel, e esse fato é só mais uma confirmação. “Perdemos” um pós-doutorando, mas tenho certeza que o país ganhou mais um grande professor/pesquisador.

Sendo assim, compreendemos que agora o Professor passará por um período de adaptação em seu novo local de trabalho, mas que em breve teremos muitas notícias interessantes acerca dessa nova empreitada de nosso co-autor. Ele ainda precisará adquirir uma cafeteira e acertar seu relógio com o fuso horário de São Paulo para que o ritual do café continue a ocorrer religiosamente no mesmo horário.

Eu não faço idéia de como serão as coisas por lá, mas tenho uma certeza: o céu noturno será muito parecido (senão melhor!) do que o da foto que inicia este texto. O palpite é que até o final deste ano já teremos notícias sobre a fundação de um clube de astronomia lá por aquelas bandas! Esperaremos ansiosamente muitas imagens dos céus dessa região do Brasil.

Sucesso professor!

PS: A foto foi gentilmente cedida (apesar de eu não ter pedido) pelo preparador oficial de café Rafael Santucci, que tirou esta foto em Campos do Jordão, em agosto deste ano.

A história (ou uma outra crônica) de um Átomo

outubro 7, 2010

No ano passado foi publicado aqui no um texto neste blog intitulado Crônicas de um carbono ancião. A ideia do texto é a de contar a história da “vida” de um átomo de carbono desde o início do universo.

Naquela época, esse texto rendeu uma longa discussão sobre cópias de textos entre blogs, plágios etc. Algumas pessoas envolvidas na discussão acreditam que a Crônica inspirara um texto de outro blogueiro. Compartilhei dessa opinião durante um tempo, mas após ouvir uma série de pessoas – algumas, aliás, só pude conhecer por conta dessa cisma – duvido muito que a ideia por trás do texto publicado no C³ tenha sido tão original a ponto de influenciar outros autores, por mais interessante que tenha sido o texto. Prova de que o tema não era nem um pouco inovador foram outros textos com o mesmo tema publicados anteriormente em outros sites e blogs, como este e este aqui.

Hoje resolvi retomar esse assunto, enterrado há mais de um ano, após encontrar um material de divulgação científica muito interessante, produzido pela Casa da Ciência da UFRJ. Esse centro cultural produziu a revista Ciência para Poetas, que trata o conhecimento científico numa perspectiva cultural. Na revista publicada (se não me engano) em julho encontrei uma poesia de um cidadão chamado Rodolfo Teófito (1853-1932). De acordo com a revista, Teófito foi “médico sanitarista, escritor e divulgador da ciência, desempenhou importante atividade nas campanhas de vacinação no nordeste, há cerca de um século. Publicou diversos livros, entre contos, poesias e romances, como a obra intitulada A Fome, que introduziu o realismo/naturalismo no Ceará”. Eis a poesia:

História de um Átomo
(Eternidade da matéria)

Fui átomo de rocha, fui granito,
Fui lava de vulcão, fui flor mimosa,
Sutil perfume, nuvem borrascosa
Manchando a transparência do infinito.

Vaguei no espaço… errante aerolito
Transpus mundos de essência vaporosa.
De santos fui artéria vigorosa,
O coração formei a ser maldito.

Nasci com a Terra; gaz eu fui com ela,
Estive de Princípio na procela,
Fui nebulosa, sol, planeta agora.

Há cem mil séculos vivo m’encarnando,
Águia n’altura, verme rastejando,
Pólen voando pelo espaço a fora.

De fato, a poesia mostra que nossas ideias não têm sido tão originais quanto pensava. (Diga-se de passagem, mostra também que a divulgação científica não se dá apenas por textos postados em blogs, livros e vídeos de grandes autores; há uma série de poesias e outras expressões disponíveis por aí que tratam a ciência com um olhar difereciado.) Independente de alguém ter tomado emprestada a originalidade de algum texto alheio ao longo desses tempos, essa poesia conseguiu expressar de forma também interessante o que eu e os autores dos outros textos tentamos escrever em prosa, cada um à sua maneira.