Archive for março \25\UTC 2010

Imagem da semana: Congestionamento de estrelas

março 25, 2010

(Se você foi ao seu buscador preferido atrás de uma reportagem sobre o movimento das celebridades no carnaval carioca, clique aqui para ir ao endereço correto. Caso você seja um dos milhões de leitores deste blog, prossiga com a leitura.)

A bela imagem mostra as centenas de estrelas do aglomerado aberto NGC290, localizado na Pequena Nuvem de Magalhães. Por ser um aglomerado aberto, ele contém poucas estrelas quando comparado com um aglomerado globular, e a maioria delas é jovem e de cor mais azulada. O fundo repleto de estrelas é um efeito de projeção, ou seja, nem todos os objetos da imagem fazem parte do aglomerado. Elas podem parecer muito próximas umas das outras, mas a chance de colisão é quase zero.

Como já visto aqui no C3, estes locais são excelentes laboratórios para estudos de evolução estelar, já que todas as estrelas nasceram praticamente ao mesmo tempo e evoluem de forma distinta de acordo com a sua massa. Encontrei essa imagem no simpático álbum de fotografias do Hubble. Para uma versão em alta resolução da imagem, clique aqui.

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Vale lembrar que este é apenas UM aglomerado com POUCAS estrelas, contido em UMA das galáxias do Grupo Local (que possui da ordem de centenas de bilhões de estrelas), que representa uma fração ínfima do número de galáxias do universo… ou seja, são tantas, mas tantas galáxias, aglomerados e estrelas que não é possível achar que a raça humana é tão especial que provavelmente vive sozinha no universo simplesmente porque alguém quis assim. Não, ninguém é tão especial, nem foi criado a partir de um monte de barro e muito menos consegue viver de luz.

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Imagem da semana: Saturno gordinho

março 18, 2010

Não, você não esqueceu de colocar os óculos nem precisa ajustar os configurações do monitor. A foto acima está mesmo um pouco fora de foco. Agora, porque diabos alguém colocaria uma fotografia horrível como essa de Saturno e seus anéis quando você pode apreciar algo como isto?

Bom, eu só coloquei esta imagem porque ela foi tirada pelo àsno na fotografia que vos escreve. Sim, eu mesmo, com o auxílio da minha câmera digital tabajara (que hoje mais parece um apoio de porta moderno), na época da minha visita ao Observatório Pico dos Dias. Eu confesso que foi a primeira vez que vi Saturno e seus anéis assim “tão de perto”. Fiquei com aquela sensação de “será que alguém colou essa figura no telescópio?” e achei melhor registrar o momento. Por mais que a imagem seja muito ruim quando comparada com a do link acima, garanto que o impacto (pelo menos para mim) foi muito maior. Fiquei tentando imaginar como deve ter sido essa sensação para alguém que apontou seu telescópio rudimentar para esse ponto brilhante no céu sem ter a menor idéia do que iria encontrar.

Bem legal. Também é possível observar, à direita do planeta, uma pequena mancha. Na verdade não é sujeira que caiu na lente, e sim uma das luas de Saturno. (Melhor clicar na foto e ver a versão “um pouco melhor”).

Imagem da semana: Pôr-do-sol no Pacífico

março 10, 2010

A imagem desta semana mostra o pôr-do-sol no oceano pacífico. Infelizmente não coloquei a fonte pois encontrei a foto em um disquete velho que ia jogar fora (para os mais jovens que não sabem o que é um disquete, clique aqui).

Pensei em falar um pouco sobre a imagem, de como somos pequenos em relação aos corpos celestes, e que estes pontinhos da foto que parecem aquelas bolinhas que aparecem em blusas de lã são nuvens, mas, depois de pegar van lotada, trem lotado e circular lotado, achei melhor ficar só na contemplação. Cliquem na imagem acima para ver a versão mais caprichada.

Obs: Para aqueles que possuem alguns minutos disponíveis, sugiro assistir aos vídeos dos dois post anteriores do C3. Muito interessantes!

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Nota da Diretoria:

A diretoria do Café com Ciência pede desculpas pela ausência da “Imagem da semana” na semana passada. Foram milhões, senão bilhões, de e-mails perguntando se a Imagem iria ter o mesmo fim da “Analogia da semana“, que hoje já é praticamente “Analogia do bimestre”. No entanto, o problema foi prontamente resolvido com a demissão por justa causa do estagiário responsável por fazer o café, que logicamente foi culpado por tamanho descaso com as dezenas de milhões de seguidores do blog.

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Homenagem ao Dia Internacional da Mulher

março 8, 2010

Não sou bom com as palavras! Então decidi postar algum vídeo com tema científico, de preferência algo relacionado à Astronomia, como minha singela homenagem ao Dia Internacional da Mulher.

Escolhi a Astronomia porque ela é bela e nos mostra o nosso tamanho no Universo. Segundo Neil deGrasse Tyson, um Universo em que não somente estamos nele, mas fazemos parte dele. Estamos nele e ele está em nós.

Como sei que há inúmeras leitoras deste humilde blog, a elas dedico este post. Que continuem lendo e comentando nossos textos!

Este vídeo mostra o “nascer” da Via Látea sob um ponto de vista de um observador no vulcão inativo, Mauna Kea, no Havaí. Lembrando que a Via Láctea é a galáxia onde vivemos. Como estamos em seu plano, não podemos vê-la de cima (ou de baixo) com todo seu padrão espiral. Daí a faixa esbranquiçada (devido às infindáveis estrelas) projetada no céu.

É neste vulcão que estão alguns dos mais poderosos telescópios da Terra. O telescópio que aparece em maior aproximação, com uma espécie de janela aberta na cúpula, é o Gemini Norte. Há um igualzinho no Chile, o Gemini Sul, daí o nome Gemini (gêmeos). Modéstia à parte, já trabalhei com dados científicos de ambos. 🙂

Terremoto e Tsunami – Chile, 2010

março 4, 2010

Animação que mostra as ondas no Oceano Pacífico após o Terremoto de 8,8 mag que ocorreu no Chile (35.846°S, 72.719°W) às 06:34 UTC, 115 km NNE de Concepción, 27 de fevereiro de 2010.

A animação foi criada pela agência americana NOAA, a National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Nacional para os Oceanos e Atmosfera, em tradução livre).

Ao mesmo tempo que catastrófico e mortal, a animação mostra as ondas interagindo com os obstáculos (ilhas e países) à medida em que se propaga oceano a dentro.

A intensidade das ondas é mostrada no gráfico presente na animação.

Interessante que mesmo em escala global, o fenômeno é bem similar às reproduções de ondas em simples tanques aquáticos.

Analogia da Semana – Agulha no palheiro

março 3, 2010

Versão 1: Dentro do Celeiro

Como eu procuraria uma agulha no palheiro? Bom, primeiro preciso de uma forma prática para diferenciar a agulha de um pedaço de palha (assumindo que ambos tenham a mesma forma geométrica). Vou supor que a agulha em questão seja facilmente detectada por um detector de metais da ACME que eu comprei. Dessa forma, posso utilizar as diferenças na composição desses dois objetos em meu favor, pois o objeto de interesse será detectado pelo aparelho. Então, só preciso pegar meu detector e fazer uma busca sistemática em locais onde o acesso ao palheiro seja mais fácil.

Versão 2: Dentro da Galáxia

Como eu procuraria uma estrela pobre em metais no halo da Galáxia? Bom, primeiro preciso de uma forma prática para diferenciar a estrela pobre em metais de uma estrela “normal” (assumindo que ambas tenham a mesma massa). Vou supor que a estrela pobre em metais em questão seja facilmente detectada por um telescópio com espelho de 4m de diâmetro. Dessa forma, posso utilizar as diferenças na composição desses dois objetos em meu favor, pois o espectro do objeto de interesse apresentará uma diferença em relação aos demais. Então, só preciso pegar meu telescópio e fazer um survey em porções do céu menos obscurecidas pela poeira interestelar.

Foi examente esse o procedimento utilizado por Norbert Christlieb e colaboradores em seu estudo publicado em 2008 no periódico Astronomy e Astrophysics. Eles utilizaram uma amostra de 4.5 milhões de estrelas observadas no halo da Via Láctea (nem vou comentar aqui o trabalhão que foi observar tudo isso). Assim, tendo todos esses espectros estelares, como diferenciar a quantidade de metais presentes em cada estrela?

ResearchBlogging.org

Existe uma certa característica presente em espectros tomados em baixa resolução que pode colaborar para essa procura. Estrelas de baixa massa parecidas com o Sol apresentam uma assinatura muito peculiar do átomo de cálcio uma vez ionizado (Ca II). Foi notado por estudos na década de 80 que a intensidade da linha K do Ca II (localizada em 3933 angstrons) era um indicador da metalicidade das estrelas. Assim, foi criado um índice que sistematicamente media a força desta linha em todos os espectros e, através de comparação com outros espectros de estrelas bem conhecidas, foi criada uma escala que poderia dizer (com certo grau de confiança) se uma estrela era ou não pobre em metais. O trabalho de 2008 citado acima contribuiu para encontrar 20.000 estrelas candidatas a pobres em metais dentro da amostra maior de 4.5 milhões.

Agora a pergunta: Isso tudo serve para quê mesmo?

Olha… a questão é a seguinte: Para fazer um estudo detalhado de uma estrela em especial, os astrônomos recorrem à observações em alta resolução com grandes telescópios. Porém, para conseguir tempo de observação dedicado apenas a um objeto, é necessário justificar muito bem a escolha do alvo de estudo. E, para isso, você precisa ao menos de algum indício de que seu objeto é interessante. Nesse momento é que os métodos apresentados acima são utilizados. Ou seja, partindo de uma grande amostra, você utiliza as ferramentas disponíveis para, pelo menos, criar uma subamostra menor de objetos interessantes e que possam ser elegíveis para observações em alta resolução. E se você fizer direito a lição de casa, talvez consiga achar a tal da agulha no palheiro…

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Christlieb, N., Schörck, T., Frebel, A., Beers, T., Wisotzki, L., & Reimers, D. (2008). The stellar content of the Hamburg/ESO survey Astronomy and Astrophysics, 484 (3), 721-732 DOI: 10.1051/0004-6361:20078748
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PS: Claro que eu poderia simplesmente queimar todo o palheiro e pegar a agulha em seguida, mas aí a analogia com as estrelas não ia funcionar…