Outros mapas da Galáxia

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Com o intuito de complementar o post anterior sobre uma das tentativas de fazer um mapa da nossa Galáxia, resolvi mostrar um mapa feito pela NASA em várias faixas do espectro eletromagnético. Resumindo: Seria como ver a Galáxia com óculos especiais que mostrariam apenas raios-X, microondas, infravermelho e etc. Alguém se lembra daquele famoso produto dos anos 90, o amber vision, que prometia atenuar os efeitos da luz para quem dirigia a noite, ou para quem ia à praia? Não, não é para tirar o par de óculos Ray-Ban do seu pai da gaveta e olhar para o céu, mas pense que os instrumentos aqui na Terra (e alguns no espaço) utilizam algo análogo aos filtros utilizados nos ditos óculos para “ver” em diferentes comprimentos de onda. Bom, valeu o flashback. Funciona mais ou menos assim: Você aponta para o céu com um detector específico para cada faixa de radiação e mede a intensidade em função da posição. Depois disso, associa a cada intensidade uma cor diferente, e pronto! Veja a figura abaixo. (ou clique aqui para ver em alta resolução)

multiwave

Novamente: os princípios físicos envolvidos já eram conhecidos há muito tempo, mas dependiam de inovações tecnológicas para que a construção de instrumentos de medição se tornasse possível. Cada uma das figuras representa o perfil da nossa galáxia visto da Terra em uma determinada faixa de comprimento das ondas eletromagnéticas (ainda estamos devendo um post sobre espectroscopia, radiação de corpo negro e etc.). Todas elas são muito interessantes, mas vou falar apenas de algumas para o post não ficar muito longo. Para uma referência (bem mais) completa (e específica) sobre o assunto, clique aqui.

Vale lembrar que a energia transportada pelas ondas de rádio é menor do que a transportada pelas ondas em infra-vermelho, que é menor do que a dos raios-X e etc. Então, contando de cima para baixo:

1- Ondas de rádio: Sim, são aquelas ondas captadas pelo velho radinho de pilha utilizado todas as manhãs pelo meu pai nos anos 80 para ouvir o “Show da manhã” da Joven Pan (na verdade o rádio AM trabalha em uma faixa de frequências aproximadamente 100 vezes menor do que essa). Nessa faixa de frequências, grande parte da radiação provém de espalhamento de elétrons no plasma interestelar. Agora, em português: Em um meio muito quente composto de gás ionizado (plasma), existem colisões entre partículas (elétrons) que, como resultado, emitem fótons (radiação) que são detectados.

7- Infra-vermelho: Esse tipo de radiação foi descoberta por William Herschel (o mesmo do post anterior). Ela é invisível para nós e está associada ao calor. É a radiação por trás de câmeras de visão noturna e mapas de temperatura corporal. Já no mapa da galáxia, a emissão em infra-vermelho é proveniente de estrelas “frias” (com temperaturas superficiais por volta de 4000oC) com massas da ordem da massa do Sol. Sua localização permite distinguir bem o perfil da nossa Galáxia, com um disco bem definido e uma região central aproximadamente esférica.

8- Optico: Essa é a faixa na qual nossos olhos foram adaptados a enxergar, que coincide com o pico de emissão do Sol (aguardem um post sobre este assunto). Foi uma imagem desse tipo (porém com qualidade muito, muito, muito pior) que William Herschel utilizou para mapear nossa galáxia. Note que a parte central, bem como a região do disco, é bem escurecida em relação à imagem no infra-vermelho, culpa da poeira interestelar. O pouco de luz que se vê provém de estrelas próximas ao Sol, e o efeito esfumaçado visto por toda a imagem é causado por gases quentes e de baixa densidade.

9- Raios-X: Se alguém achou que eu ia falar da Visão de Raio-X do Super-Homem, errou. Os raios-X, hoje em dia, são amplamente utilizados para tratamento de tumores, câncer e para realizar radiografias, além de suas aplicações em astrofísica. Na figura, a emissão de radiação é feita por gases quentes. Em energias mais baixas, o gás interestelar (que preenche o meio entre as estrelas) bem mais frio absorve essa radiação, e por isso as nuvens de gás são vistas como sombras frente ao fundo de emissão em raios-X. Vejam um ponto bem brilhante do lado direito da imagem que, por exemplo, não aparece no óptico nem no infra-vermelho. É um remanescente de supernova.

E, para terminar, encontrei no site do Chandra X-ray Observatory, imagens da Nebulosa do Caranguejo nas quatro faixas de comprimento de onda explicadas acima. Podem acreditar, todas representam o mesmo objeto!

crab

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8 Respostas to “Outros mapas da Galáxia”

  1. Jana Says:

    “agora em português” foi ótimo… lindas imagens para uma manhã de segunda feira!
    Aguardando anciosamente os dois textos sobre espectroscopia e o visível…

  2. Censo Demográfico da Via Láctea – Introdução « Café com Ciência Says:

    […] Demográfico da Via Láctea – Introdução By Vinicius Placco Após tratarmos dos mapas da Via Láctea, berçários e tipos de estrelas, além de um par de outras galáxias próximas e muito […]

  3. Possibilidade de Adenina em Titã « Café com Ciência Says:

    […] Estas são radiações eletromagnéticas que estão em toda parte nos céus. Aqui na Terra temos proteção contra a radiação UV devido à […]

  4. O que o infravermelho nos diz – Herschel « Café com Ciência Says:

    […] disso, os comprimentos de onda envolvidos são importantes nessa análise. Um objeto brilhante no visível (e que, portanto, percebemos com nossos olhos) pode ser […]

  5. Os observatórios espaciais no ano internacional da Astronomia « Café com Ciência Says:

    […] observatório espacial ajuda a cobrir uma faixa do espectro eletromagnético. E assim, nos fornece informações decifradas, ou decodificadas, por meio de diferentes […]

  6. E pur si muove! « Café com Ciência Says:

    […] metros, nove de 6,1 metros e oito de 3,5 metros que são utilizadas para o estudo do universo em comprimentos de onda […]

  7. Jorginho Says:

    Parabéns pela seleção das imagens e, claro, do texto bem narrativo.
    Sou apenas um leigo observador das literaturas da fantástica cosmologia…
    É gente, o Universo é mesmo muito misterioso.
    …Cada somos surpreendidos.
    Enfim, parabéns de novo e, … o site já está nos meus favoritos.

  8. Blog de Astronomia do astroPT » Nascimento Estelar II: O Gatilho do Nascimento Says:

    […] magnéticos dissipam.A favor dum factor interno estão núvens moleculares que foram mapeadas em comprimentos de onda milimétricos que vão do rádio ao IV por Charles Lada, João Alves e colaboradores. Identificaram […]

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