Bancos de dados sobre fenômenos sociais

julho 3, 2011 por

Aliando alguns conceitos estabelecidos a métodos estatísticos, podemos encontrar padrões muito interessantes de comportamento na sociedade. Tudo bem que não é uma tarefa tão simples quanto parece, pois requer uma carga de leitura pesada de textos com uma linguagem própria de quem lida com sociologia. Mesmo assim, não é impossível para quem tem acesso a um punhado de recursos, entre eles textos, bancos de dados e programas.

Todo esse blablablá introdutório é para falar de um trabalho em grupo feito em uma disciplina sobre métodos de pesquisa em ciências sociais. Escolhemos racismo como tema a ser estudado. Uma das perguntas que surgiu em nessa tarefa da faculdade foi a seguinte: como será que varia a percepção de discriminação entre pessoas de cores diferentes? Será que as diversas etnias – brancos, indígenas, orientais, negros etc. – sentem que são discriminados na mesma proporção? Na realidade, nossa proposta foi estudar como a percepção de discriminação varia com a escolaridade – quem nunca estudou deveria sentir menos a discriminação pela sua cor do que quem tem ensino médio, por exemplo -, mas nossos resultados foram inconclusivos. Por isso seguimos pesquisando por outro caminho.

Para respondermos essa pergunta, usamos um banco de dados chamado “Discriminação racial e preconceito de cor no Brasil ”. Esse banco contém perguntas e respostas de 5003 pessoas de diversas etnias, residentes em 267 brasileiras. Ele pode ser baixado no site do Consórcio de Informações Sociais. Para manipulá-lo, é recomendável a instalação do programa Statistical Package for the Social Sciences da IBM, disponibilizado em versão trial. Com alguns cliques, o programa lhe dá frequências e resultados de cruzamentos das perguntas respondidas que lhe interessar. E há vários bancos de dados para se “brincar” com esse programa.

Escolhemos então duas questões presentes na entrevista para tentar resolver o problema proposto. Supomos que seja possível dizer se a pessoa percebe já ter passado por situações de discriminação pela resposta dada à pergunta “o/a sr/a. já se sentiu discriminado/a alguma vez por causa da sua cor ou raça?” As respostas possíveis foram i) sempre, ii) quase sempre, iii) de vez em quando, iv) isso aconteceu só uma ou duas vezes, v) outras frequências, vi) nunca se sentiu discriminado/a.

Perceba que buscamos descobrir a percepção quanto à discriminação sofrida – o que é muito subjetivo – já que é difícil acessar a informação sobre se a pessoa sofreu ou não algum tipo de discriminação. Mesmo diante de tal subjetividade é possível chegar a conclusões interessantes. A segunda pergunta diz respeito à cor ou raça do entrevistado. Vale também observar que o conceito de raça biológica, embora seja rejeitado no meio científico, ainda reside no imaginário da população, o que justifica a pergunta não se limitar apenas à cor do entrevistado.

Quando fragmentamos em cores e raças as respostas positivas de quem já sofreu discriminação pelo menos uma vez, obtivemos o a tabela e o gráfico abaixo.

O que se pode inferir é que quanto mais escura a pessoa maior é sua percepção de discriminação por cor ou etnia.

Embora seja uma tendência óbvia para alguns, há ainda alguns que insistem em negar as evidências de que há segregação racial no Brasil mesmo que de forma dissimulada. Nelson Rodrigues já dizia que “não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite” . Provavelmente ele não rodou um programa nem criou gráficos, o que não o impediu de chegar à mesma conclusão a partir de sua experiência de vida.

O interessante dessa história toda é que esses bancos de dados – não apenas o sobre racismo no Brasil, mas também sobre direitos humanos, idosos, juventude, mulheres etc. – consistem em diversos recursos para colocarmos em números vários tipo de fenômenos sociais, o que nos ajuda a desmistificar conceitos, preconceitos e (por que não?) às vezes até criar muitos outros.

PS.: Depois de alguns posts antigos e polêmicos (embora haja assuntos mais polêmicos do que aqueles), volto a falar aqui sobre ciências. Aos dois ou três que acompanham o blog e acham que ciências humanas não são ciências, sinto muito pela discordância e por decepcioná-los mais uma vez.

Destaque do Doutorado!

maio 30, 2011 por
Prêmio de Destaque do Doutorado em Astronomia - IAG/USP

Prêmio de Destaque do Doutorado em Astronomia - IAG/USP

É com grande prazer que a família Café com Ciência comunica mais uma excelente notícia sobre um de seus membros.

O Dr Vinicius Placco, maior contribuidor deste blog, foi condecorado como “Destaque do Programa de Doutorado em Astronomia“, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP.

Após uma apresentação triunfal, com direito a gritos da torcida histérica, o Dr Placco recebeu das mãos do Prof. Emérito do IAG Sylvio Ferraz Mello, a premiação por seu destaque no IAG. Premiação esta merecida já faz muito tempo!

Felicidades ao nosso grande amigo e que muitos outros títulos venham coroar um futuro que promete ser de grande êxito.

Estamos muito orgulhosos!

NUCLEAR: PARA ALÉM DAS USINAS

abril 4, 2011 por

O Café com Ciência ainda não morreu. Está apenas em um letárgico processo de hibernação. Enquanto isso, contamos com a ajuda de colegas como a Pamela Piovezan (que escreve em um blog chamado Nuclear: conhecer para debater) para manter o pessoal informado! Ficamos então com um texto bem interessante sobre energia nuclear:

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Minha ideia inicial era falar de usinas nucleares e do acidente no Japão. Mas, já pipocaram tantas reportagens, imagens e infográficos na mídia que eu mudei de ideia. Afinal, um infográfico hoje vale mais que mil palavras! (falando nisso, esse infográfico [3] está bem legal).

O acidente nas usinas japonesas alimenta dois opostos: o medo e a curiosidade sobre fenômenos e tecnologias nucleares. Uma aplicação bem interessante da energia nuclear, que não tem sido divulgada nesse “boom” de informações, é na exploração aeroespacial. Pois é! O tal calor de decaimento, vilão no caso japonês, aparece como o protagonista bonzinho nos chamados GERADORES TERMOELÉTRICOS POR RADIOISÓTOPOS (radioisotope thermoelectric generator – RTG [1]). Os RTGs têm fornecido energia elétrica para uma variedade de naves e sondas espaciais, como veremos a seguir.

Bom, vamos começar do começo! Lembrando das aulas de química do colégio, o NÚCLEO dos elementos químicos (aqueles da tabela periódica) é formado por PRÓTONS (partículas carregadas positivamente) e por NÊUTRONS (partículas sem carga). O que diferencia um elemento químico do outro é basicamente o número de prótons. Podem existir elementos com mesmo número de prótons, mas com números de nêutrons diferentes. Tais elementos são chamados de ISÓTOPOS. Como exemplo de iśótopos, podemos citar o Hidrogênio (1 próton e 0 nêutron), o Deutério (1 próton e 1 nêutron) e o Trítio (1 próton e 2 nêutrons).

Ok, mas e os radioisótopos? RADIOISÓTOPOS são isótopos radioativos, isto é, elementos químicos que emitem radiação na forma de partículas alpha (núcleos de Hélio), beta (elétrons ou pósitrons) e radiação gamma (fótons com energias muito altas). Eles emitem radiação porque seus núcleos – o conjunto de prótons e nêutrons – não estão em uma configuração estável: emitindo a radiação, os prótons e nêutrons se reorganizam tentando alcançar posições mais estáveis. Essa radiação emitida pelos radioisótopos carrega ENERGIA que depois é transferida ao meio em que a radiação se propaga. O meio recebe essa energia como uma agitação de suas moléculas e átomos, o que se traduz em CALOR. Esse é o tal do CALOR DE DECAIMENTO!

Voltando então ao nosso assunto, os geradores termoelétricos por radioisótopos (RTGs) têm fornecido energia elétrica para uma variedade de naves e sondas espaciais. Eles consistem em um radioisótopo e um sistema de conversão termelétrico: o calor produzido a partir do radioisótopo é convertido diretamente em eletricidade. A eficiência dessa conversão é da ordem de 15%, ou seja, 15% do calor gerado é transformado em eletricidade. A Cassini, por exemplo, a primeira nave a órbitar Saturno, é alimentada por RTGs. Após seis anos de viagem até os anéis de Saturno, a Cassini chegou ao seu destino em 2004. Para viajar longas distâncias, ela é alimentada por três RTGs (com quase 33 kg de plutônio) que produzem 750 W de potência.

A energia elétrica gerada diminui um pouco com o tempo devido ao DECAIMENTO EXPONENCIAL da radioatividade. Para entender isso, vamos considerar o Pu-238 (plutônio com 94 prótons+144 nêutrons, totalizando 238 nucleons), um radioisótopo utilizado nos RTGs por causa de sua MEIA-VIDA de 87 anos. À medida que o Pu-238 decai, ele se transforma em outro elemento químico. Logo, a concentração de Pu-238 (isto é, o número de átomos de Pu-238 dividido pelo volume) diminui com o tempo (porque o número de átomos de Pu-238 diminui!). A diminuição da concentração do radioisótopo é EXPONENCIAL (cai muito rápido nos primeiros intervalos de tempo e depois vai caindo mais devagar). No caso do Pu-238, em 87 anos sua concentração cai pela metade, daí o termo meia-vida. Pois bem, se a concentração diminui com o tempo, a radiação e, consequentemente, o calor de decaimento também o fazem! Como nos RTGs a energia elétrica é gerada a partir do calor de decaimento, a energia gerada também diminui com o tempo.

Além da Cassini, famosas missões espaciais como a Pioneer 10 e 11, a Apolo, a Galileo e as Voyager foram alimentadas por RTGs. Até 2005, 44 RTGs tinham alimentado 24 veículos espaciais dos EUA.  Para se ter uma ideia da confiabilidade de tais sistemas, os RTGs das Voyager I e II estão operando há aproximadamente 30 anos! De fato, as principais vantagens dos RTGs são a longa durabilidade, o tamanho compacto, a alta confiabilidade e resistência a efeitos ambientais como o frio e meteoritos.

Em 2005, a NASA lançou o relatório “Expanding Frontiers with Standard Radioisotope Power Systems” [2] contendo uma análise detalhada sobre o passado, o presente e o futuro do uso das tecnologias nucleares para a exploração espacial. De 1960 a 2010 os sistemas de geração elétrica que utilizam o calor de decaimento de radioisótopos evoluíram bastante e, segundo o relatório da NASA, a próxima geração de missões espaciais utilizará os MMRTGs (Multi-Mission Radioisotope Thermoelectric Generator) e os SRGs (Stirling Radioisotope Generator). Dentre as aplicações previstas estão o Triton Lander, o Dual-Mode Lunar Rover Vehicle, o Titan Aerobot e o Saturn Ring Observer.

Uma coisa é certa: essa tecnologia permitiu a exploração espacial de longas distâncias, garantindo a energia elétrica onde não é possivel utilizar a energia solar ou carregar pesados geradores elétricos de combustíveis fósseis.

fontes:

1. http://en.wikipedia.org/wiki/Radioisotope_thermoelectric_generator

2. http://solarsystem.nasa.gov/scitech/display.cfm?ST_ID=705

3. http://www1.folha.uol.com.br/mundo/890016-entenda-o-que-causa-as-explosoes-em-usina-nuclear-no-japao.shtml

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Já chegou o disco voador!

fevereiro 8, 2011 por

Antes de mais nada: Se você estava procurando aquele vídeo clássico do Chaves, clique aqui e seja feliz.

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Caso o seu vizinho comece a gritar hoje no horário da novela dizendo que está vendo um OVNI, não se assuste. Durante esta semana, por curtos períodos de tempo, um objeto muito brilhante e peculiar poderá ser avistado nos céus de São Paulo, caso a densa camada de poluição permita: É a Estação Espacial Internacional, que reflete a luz do Sol em nossa direção e torna-se visível em determinados locais durante a noite.

A ISS encontra-se em órbita em torno da Terra (já foram mais de 57.300 voltas completas) a uma altitude média em torno de 350km. Seu primeiro módulo foi lançado pela NASA no dia 20 de novembro de 1998 e, desde então, a estação já percorreu incríveis 2,7 bilhões de km. Nada mal para uma máquina que pesa 375.727 kg e é maior que uma cobertura duplex com 4 suítes. Olha ela aí:

 

A tabela abaixo, enviada pelo Rafael, foi retirada do site Heavens Above. Nela são mostradas algumas datas desta semana, para a cidade de São Paulo, com os horários em que a Estação Espacial estará visível no céu. Notem a coluna Mag: na noite de hoje a ISS brilhará com uma magnitude aparente de -3.7, ou seja, 5 magnitudes (ou 100 vezes) mais brilhante que Acrux (a estrela mais brilhante do Cruzeiro do Sul).

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ISS – Visible Passes HomeInfo.OrbitPrev.NextHelp |
Search period start: 00:00 Tuesday, 8 February, 2011
Search period end: 23:00 Thursday, 17 February, 2011
Observer’s location: São Paulo, 23.5330°S, 46.6170°W
Local time zone: Eastern Brazil Daylight Time (UTC – 2:00)
Orbit: 349 x 354 km, 51.6° (Epoch Feb 7)

Click on the date to get a star chart and other pass details.

Date Mag Starts Max. altitude Ends
Time Alt. Az. Time Alt. Az. Time Alt. Az.
8 Feb -3.7 21:05:30 10 SW 21:08:27 79 NW 21:08:51 62 NNE
9 Feb -1.9 19:56:56 10 S 19:59:17 21 SE 20:01:35 10 E
9 Feb -0.8 21:32:52 10 W 21:34:23 13 NW 21:34:27 13 NW
10 Feb -3.3 20:22:27 10 SW 20:25:23 64 NW 20:28:17 10 NNE
11 Feb -0.4 20:50:15 10 WNW 20:51:13 11 NW 20:52:11 10 NW

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Ao clicar em cada uma das datas, abrir-se-á uma nova “aba” em seu navegador com a respectiva carta celeste, com vários pontos de referência para facilitar a localização da ISS.

A falsa polêmica do “novo zodíaco”

janeiro 18, 2011 por

Representação da precessão, movimento responsável pelo "novo signo"

Parabéns ao cidadão que criou a falsa polêmica de que o zodíaco atualmente é diferente do que o utilizado pelos astrólogos. Foi muito perspicaz encontrar uma manchete que chamasse tanta atenção para um fato antigo, já sabido há muito. Agora, depois de todo esse tumulto criado em torno do décimo terceiro signo, o que mais me pareceu desnecessário foi um monte de cientistas e astrônomos querendo dar pitaco na profissão alheia.

Antes de explicar por que acredito que astrônomos não deveriam interferir na astrologia (pelo menos não na forma como tem sido feita), talvez valha a pena explicar essa mudança nos signos anunciada pelos jornais.

Para entender essa mudança do zodíaco, é preciso entender os movimentos da Terra. A Terra possui uma série de movimentos que resultam de sua interação com o Sol e outros corpos e das condições do sistema solar quando foi criado. No ensino fundamental, normalmente ouvimos falar de dois movimentos da Terra: a rotação e a translação. Este diz respeito ao caminho percorrido pelo planeta em torno do Sol e tem duração de um ano. Um dos efeitos da translação é que as constelações vistas no céu noturno não são as mesmas ao longo dos 12 meses – por exemplo, Escorpião é fácil de ser vista nas noites de julho no Brasil, o que não é verdade em dezembro. Já a rotação, que dura um dia, é o movimento da Terra em torno de seu próprio eixo, e é responsável por deixar a face da Terra iluminada ou sem luz, o que nada mais é do que o dia e a noite.

Mas não são apenas esses os dois movimentos da Terra. Há outros movimentos que possuem efeitos menos perceptíveis. A cultura helênica já tinha conhecimento desses movimentos, tanto que haviam sido utilizados para a construção da máquina de Anticítera.

Um desses movimentos é o de precessão, representado na figura acima. Ele é análogo ao movimento do peão que, conforme vai girando cada vez mais devagar, tem sei eixo mudando de posição até tombar e ficar na horizontal. O eixo da Terra, assim como o do peão, também muda de posição e não fica eternamente como um espeto cravado em um isopor, sempre apontando para o mesmo lugar. Na realidade, é como se o espeto se mantivesse inclinado, mas sua ponta fizesse movimentos circulares. Se a Terra tivesse um espeto cravado para representar seu eixo, ele completaria um círculo a cada 26000 anos, aproximadamente. Esse é o tempo da precessão da Terra.

Um dos efeitos da precessão é que a posição aparente das constelações mudam ao longo de período. As pessoas hoje veem as constelações em posições diferentes das que eram há séculos. Outro efeito diz respeito ao zodíaco, nome dado ao conjunto das constelações que ficam no caminho do movimento aparente do Sol em torno da Terra. Dizemos aparente porque não é o movimento real, uma vez que a Terra é quem gira em torno do Sol embora o Sol pareça girar em torno de nós.

Por conta da precessão, de tempos em tempos o zodíaco pode ter mais ou menos constelações. Hoje, por exemplo, o zodíaco tem uma constelação a mais – chamada Serpentário – do que tinha há milênios atrás.

A responsabilidade desse conhecimento – movimento da Terra e seus efeitos, constelações etc. – e de seu progresso é atribuída atualmente aos astrônomos. Há alguns séculos, não fazia sentido distinguir astrólogos e astrônomos, pois o estudo do céu e do movimento dos astros tinha como uma de suas finalidades justificar diversos fenômenos na Terra, portanto um estudo era ligado ao outro. Prova disso é que, não fosse Newton astrólogo, seria improvável que ele utilizasse a ação a distância, elemento incompatível com o pensamento científico da época por seu caráter místico e nada mecanicista, em sua lei universal da gravitação.

Hoje, Astrologia e Astronomia, são áreas de conhecimento separadas e, por mais que tenham caminhado juntas durante séculos, não compartilham mais das mesmas crenças. São corpos diferentes, alicerçados em estruturas diferentes. Planetas e constelações constituem para os astrólogos uma linguagem para expressar seu objeto de estudo, a relação entre alguma coisa lá fora e o comportamento humano, enquanto planetas e constelações são atualmente alguns dos objetos de estudo dos astrônomos. São, portanto, duas atividades diferentes, por isso não faz sentido tentar compará-las ou achar válido utilizar elementos de uma para interferir na outra. A Astrologia precisa de doze signos para representar o comportamento humano, e a Astronomia hoje não tem mais nada a ver com isso.

O que acontece na realidade é o menosprezo por parte da grande maioria dos astrônomos e cientistas pela Astrologia por ser considerada pseudociência – o que, diga-se de passagem, se dá muitas vezes pelo senso comum e de forma pouco científica, como mostra este artigo. E esse menosprezo por uma área de conhecimento não-científica, o que representa uma intolerância e soberba que daria inveja ao Sheldon, é usado para legitimar a intromissão dos astrônomos no trabalho dos astrólogos.

Veja, argumentos como astrologia “é picaretagem”, “é misticismo” e “representa um atraso para a vida das pessoas” são irrelevantes para argumentar se os astrônomos têm espaço ou não para dizer quantos signos os astrólogos deveriam utilizar em sua atividade. Tratam-se de sistemas de crenças a princípio independentes um do outro, por mais que haja alguns elementos em comum.

Portanto, se você acredita em astrologia e não gostou de descobrir que falta um signo no zodíaco, não se preocupe, pois você não tem obrigação alguma de dar ouvido a um astrônomo nessa questão, e o zodíaco astrológico pode continuar a ter seus doze signos. Isso porque os astrônomos, assim como qualquer astrólogo, não são os donos da verdade.

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Se meu texto te ofende, é hora de assistir este vídeo.

Enquanto eu escrevia este texto, um colega publicou outro com informações sobre o “novo zodíaco” também interessantes, embora com uma visão divergente da minha.

Imagem da semana: Eclipse da Lua

dezembro 27, 2010 por

Semana de férias para alguns, semana de trabalho para outros. Embalado pelo post anterior sobre os detalhes do eclipse lunar, achei pertinente compartilhar algumas imagens. A “foto oficial” do evento é do APOD do dia 23/12:

Entretanto, nesta imagem não é possível ver exatamente como occoreu o eclipse. Para não deixar o leitor com muita curiosidade, acordei meu irmão Matheus às 4h30 no dia do referido evento e ele gentilmente, com um sorriso no rosto e cabelo despenteado, tirou algumas fotos (eu fiquei mesmo na parte de logística, que incluiu chamar o elevador e trancar a porta):

Alguns problemas que ocorreram (além do sono): (i) São Paulo, (ii) Lua muito próxima ao horizonte, (iii) apartamento com sacada oposta ao evento, (iv) maldito sobrado com telhado que mais parece um barracão de escola de samba, (v) iluminação pública e (vi) falta de tripé para apoiar a câmera.  Mesmo assim as fotos saíram bem legais.

 

Eclipse da Lua – 21/12/2010

dezembro 19, 2010 por

O que acontece é o seguinte: o blog anda muito parado, e o motivo principal para a falta de posts continua sendo a falta de tempo. Quem sabe ano que vem as coisas melhoram por aqui. Semana passada recebemos um texto muito legal do nosso amigo Rafael Santucci (que já colaborou com o Café com Ciência recentemente), sobre o eclipse da Lua que ocorrerá dia 21. Aproveitem.

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Acho que pelo menos um dos 2,57 trilhões de leitores do blog já se deparou com aquela fatídica notícia de internet que diz que Marte será visto no céu com o mesmo tamanho da Lua cheia. Pois é, se você recebeu esse tipo de mensagem deve estar se perguntando de onde isso pode ter surgido, e se você nunca recebeu, talvez receba nos próximos dias.

(Comentário: esse causo já foi tema da analogia da semana)

No próximo dia 21 de dezembro de 2010 teremos mais um eclipse da Lua. Não sei se todos os incontáveis leitores do blog já tiveram a oportunidade de observar esse evento. Para os que nunca observaram, é importante dizer que a Lua será vista durante todo o eclipse, entrentanto sua intensidade luminosa diminuirá e sua cor irá se modificar até atingir uma tonalidade laranja-avermelhada, retornando depois ao seu brilho e cores naturais. Veja algumas figuras interessantes na Wikipedia (Inglês):

O motivo de observarmos a mudança na tonalidade da Lua é a influência da atmosfera da Terra, que se comporta como um prisma, difratando a luz solar. Os raios de luz de cor vermelha sofrem um desvio maior do que os raios de outras cores, deixando o terreno lunar com o aspecto avermelhado. Aqui é interessante fazer uma outra abordagem do fenômeno: se um observador estivesse na Lua, o que seria observado? A resposta é: Um eclipse do Sol! Entretanto, este ocorreria de forma diferente daqueles que são vistos aqui da Terra, pois na Lua veríamos um anel vermelho intenso ao redor da Terra durante o eclipse, como tenta mostrar a ilustração artística a seguir:

Ilustração Artística de um Eclipse do Sol, visto para um observador na Lua.

O eclipse vai durar pouco menos de 05h e 40min (contando desde o momento em que a Lua começa a entrar na penumbra da Terra até o momento em que ela está completamente fora dela), sendo 1h e 13min de eclipse total umbral. Vocês poderão começar a observar a Lua se tornando avermelhada às 4h33min (horário de Verão), às 5h40min a Lua estará totalmente coberta pela umbra terrestre e o máximo do Eclipse será às 6h17min. Para os mais fanáticos, podem olhar todos os detalhes do eclipse clicando aqui.

Recomendamos a observação do eclipse da Lua à vista desarmada (ou seja, a olho nu!). No máximo utilize um binóculo de pequeno aumento e, claro, acorde cedo. Infelizmente, dessa vez nós brasileiros não veremos o eclipse em todas as suas etapas, pois a Lua irá se pôr (região Oeste) pouco antes do máximo do eclipse, enquanto o Sol já estará nascendo no horizonte oposto.

Mas o que isso tudo tem a ver com a notícia de Marte? Se você estiver voltando da balada por volta desse horário na madrugada do dia 21, lembre-se que você não bebeu demais e ganhou super poderes de aumento visual, Marte continua sendo um pontinho avermelhado no céu e a bola laranja que você estará vendo, é a Lua mesmo.

Se você não lembrar de acordar cedo, ou então estiver chovendo, não fique triste, o próximo eclipse da Lua visto aqui do Brasil acontecerá em 15 de junho de 2011, e o melhor, será logo depois do pôr do Sol. :)

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Imagem da semana: Três Marias versão tunning

outubro 28, 2010 por

Como já disse por aqui anteriormente, eu nunca me deparo com imagens bonitas enquanto faço pesquisa, e na maioria das vezes não paro e olho as fotos do céu que são publicadas por aí. Esse “exercício” de publicar a imagem da semana, mesmo que seja uma vez por bimestre, acaba me fazendo apreciar um pouco mais o trabalho alheio. E essa visão logo abaixo com certeza vale um post.

A imagem desta semana mostra uma visão bem mais caprichada (ou “tunada”, como diriam aqueles que se julgam anglófonos porque assistem friends sem ler a legenda, adoram pegar palavras em inglês, pronunciar de qualquer jeito, trocar os sons, piorar o sentido e continuar achando que está tudo bem) daqueles três pontinhos sem graça que observamos a olho nu no céu. Apresento-lhes Órion, o caçador. E, quem diria, nossas três marias desbravadoras formam o importantíssimo cinturão do sujeito, sem o qual ele não poderia carregar sua espada nem manter o saiote no lugar. Logo à direita das três amigas encontra-se uma região azulada de intensa formação estelar, chamada Nebulosa de Órion. Além disso, essas imensas nuvens de gás e poeira espalhadas pela imagem só podem ser observadas com o auxílio de telescópios potentes, sendo que a imagem final é uma composição de várias outras tomadas em diferentes filtros.

Outra figura conhecida que pode ser vista na imagem é a Nebulosa Cabeça do Cavalo, que encontra-se bem próxima à “maria inferior” na imagem. Caso queira saber exatamente onde se encontram esses objetos e o nome das estrelas mais brilhantes da imagem clique aqui. (Me reservo o direito de continuar chamando as três marias de maria1, maria2 e maria3. Onde já se viu chamar alguém de Alnilam? Parece mais uma marca de água sanitária).

E o arco avermelhado que envolve as marias? O que seria?

É o mundialmente conhecido e adorado Loop de Barnard, cujo centro encontra-se próximo à nebulosa de Órion. O nome foi dado em homenagem a Edward Barnard, que capturou algumas imagens desta região em 1895. Porém, dizem as más línguas que William Herschel (o cara que fez um mapa da Galáxia) já havia observado o dito loop nos idos de 1786. Acredita-se que o loop foi formado por sucessivas explosões de supernova, que  teriam ocorrido entre 2 e 3 milhões de anos atrás.

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Para ser bem sincero, eu não vejo caçador nenhum no céu, nem fazendo muito esforço. Clique aqui para acessar minha releitura pessoal da constelação.

Café com Ciência pelo Brasil

outubro 24, 2010 por

Bem, escrevo aqui para alguns milhões dos antes bilhões de leitores do Café com Ciência. As circunstâncias que a vida nos coloca fazem com que exista uma lista de prioridades, e infelizmente a tarefa de publicar textos no blog foi deixada para segundo plano.

Não pensem que é preguiça ou descaso com as dezenas de bilhões de leitores diários que este blog já teve. É apenas um período de escassez que vai passar tão rápido e leve quanto uma bolinha de papel em uma careca reluzente.

Resolvi escrever este pequeno texto para (como diriam os americanos) fazer um “update” e quem sabe receber um “feedback” dos poucos leitores que ainda se dão ao trabalho de não apertar a tecla “read all” do agregador de rss de sua preferência.

A ótima notícia é a de que Dr. Alessandro Pereira Moisés foi aprovado em um concurso público para provimento de cargo de professor doutor na Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), no Campus de São Raimundo Nonato, Piauí. Ele fará parte do Colegiado do Curso de Ciências da Natureza. Todos aqui do IAG/USP ficaram extremamente felizes e satisfeitos com a boa nova, e nós do Café com Ciência ainda mais. Sempre soubemos do potencial do nosso plantel, e esse fato é só mais uma confirmação. “Perdemos” um pós-doutorando, mas tenho certeza que o país ganhou mais um grande professor/pesquisador.

Sendo assim, compreendemos que agora o Professor passará por um período de adaptação em seu novo local de trabalho, mas que em breve teremos muitas notícias interessantes acerca dessa nova empreitada de nosso co-autor. Ele ainda precisará adquirir uma cafeteira e acertar seu relógio com o fuso horário de São Paulo para que o ritual do café continue a ocorrer religiosamente no mesmo horário.

Eu não faço idéia de como serão as coisas por lá, mas tenho uma certeza: o céu noturno será muito parecido (senão melhor!) do que o da foto que inicia este texto. O palpite é que até o final deste ano já teremos notícias sobre a fundação de um clube de astronomia lá por aquelas bandas! Esperaremos ansiosamente muitas imagens dos céus dessa região do Brasil.

Sucesso professor!

PS: A foto foi gentilmente cedida (apesar de eu não ter pedido) pelo preparador oficial de café Rafael Santucci, que tirou esta foto em Campos do Jordão, em agosto deste ano.

A história (ou uma outra crônica) de um Átomo

outubro 7, 2010 por

No ano passado foi publicado aqui no um texto neste blog intitulado Crônicas de um carbono ancião. A ideia do texto é a de contar a história da “vida” de um átomo de carbono desde o início do universo.

Naquela época, esse texto rendeu uma longa discussão sobre cópias de textos entre blogs, plágios etc. Algumas pessoas envolvidas na discussão acreditam que a Crônica inspirara um texto de outro blogueiro. Compartilhei dessa opinião durante um tempo, mas após ouvir uma série de pessoas – algumas, aliás, só pude conhecer por conta dessa cisma – duvido muito que a ideia por trás do texto publicado no C³ tenha sido tão original a ponto de influenciar outros autores, por mais interessante que tenha sido o texto. Prova de que o tema não era nem um pouco inovador foram outros textos com o mesmo tema publicados anteriormente em outros sites e blogs, como este e este aqui.

Hoje resolvi retomar esse assunto, enterrado há mais de um ano, após encontrar um material de divulgação científica muito interessante, produzido pela Casa da Ciência da UFRJ. Esse centro cultural produziu a revista Ciência para Poetas, que trata o conhecimento científico numa perspectiva cultural. Na revista publicada (se não me engano) em julho encontrei uma poesia de um cidadão chamado Rodolfo Teófito (1853-1932). De acordo com a revista, Teófito foi “médico sanitarista, escritor e divulgador da ciência, desempenhou importante atividade nas campanhas de vacinação no nordeste, há cerca de um século. Publicou diversos livros, entre contos, poesias e romances, como a obra intitulada A Fome, que introduziu o realismo/naturalismo no Ceará”. Eis a poesia:

História de um Átomo
(Eternidade da matéria)

Fui átomo de rocha, fui granito,
Fui lava de vulcão, fui flor mimosa,
Sutil perfume, nuvem borrascosa
Manchando a transparência do infinito.

Vaguei no espaço… errante aerolito
Transpus mundos de essência vaporosa.
De santos fui artéria vigorosa,
O coração formei a ser maldito.

Nasci com a Terra; gaz eu fui com ela,
Estive de Princípio na procela,
Fui nebulosa, sol, planeta agora.

Há cem mil séculos vivo m’encarnando,
Águia n’altura, verme rastejando,
Pólen voando pelo espaço a fora.

De fato, a poesia mostra que nossas ideias não têm sido tão originais quanto pensava. (Diga-se de passagem, mostra também que a divulgação científica não se dá apenas por textos postados em blogs, livros e vídeos de grandes autores; há uma série de poesias e outras expressões disponíveis por aí que tratam a ciência com um olhar difereciado.) Independente de alguém ter tomado emprestada a originalidade de algum texto alheio ao longo desses tempos, essa poesia conseguiu expressar de forma também interessante o que eu e os autores dos outros textos tentamos escrever em prosa, cada um à sua maneira.


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