Posts Tagged ‘História da Ciência’

Máquina de Anticítera

outubro 12, 2009
No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant)

No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant).

O conhecimento é volátil: pode evaporar sem deixar vestígios. Por sorte, às vezes sobra um pouco dele antes de desaparecer por completo. A máquina de Anticítera é uma prova concreta dessa afirmação.

Em 1902, foi encontrada uma máquina em uma embarcação afundada na ilha grega de Anticítera. Estudos indicam que essa máquina foi construída por volta de 100 a.C e afundou 35 anos depois.

A máquina é composta por pelo menos trinta rodas denteadas. Ainda não é clara a função de todas suas engrenagens. O que se sabe é que a máquina de Anticítera deve ter sido utilizada como uma espécie de calendário, prevendo eventos astronômicos (eclipses, por exemplo) e jogos pan-helênicos (como os de Nemeia e as Olimpíadas). Isso foi deduzido com ajuda das inscrições encontradas em seu corpo. Acredita-se que o mecanismo deve levar em conta em seus cálculos correções de movimentos da Terra com relação ao céu, como precessão e nutação.

O impressionante dessa história é que não se esperava que houvesse tecnologia para uma arquitetura tão elaborada pelo menos até mil anos depois da (suposta) construção dessa máquina. Máquinas sofisticadas como essa e construídas na Idade Antiga devem ter sido mantidas em segredo por políticos e militares da época, por isso não há outros registros dessa produção.

Quase cem anos de pesquisas no sentido de desvendar o mistério de todo o mecanismo de Anticítera não foram suficientes para conhecê-la por completo. Mesmo assim, não se sabe a quem creditar a invenção e montagem da máquina, o mais antigo computador que já se teve notítica. Sua descoberta pela civilização contemporânea foi um mero acaso: não fosse a busca por tesouros em embarcações afundadas, seríamos ainda mais ignorantes sobre a vida daqueles povos.

Dois exemplos Inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Dois exemplos de inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Isso mostra como não temos tanto controle sobre nosso mundo quanto pensamos. Por mais elaborado que seja nosso método científico (e por maior que seja nossa crença nele), somos incapazes de desvendarmos tudo o que se passou, assim como não temos como garantir que as civilizações futuras saberão o que acontece nos dias de hoje.

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Alan Turing: questão de sexualidade

setembro 18, 2009

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No último dia 10 o governo britânico pediu desculpas pela forma violadora como tratou o cientista inglês Alan Turing na década de 1950 responsabilizando-o por sua sexualidade.

Alan Mathison Turing (1912-1954) deu contribuições a diversas áreas do conhecimento científico, como matemática, lógica, ciência da computação e química. Apesar de ser mais lembrado na Inglaterra do que em outros países, não é exagero dizer que todo o mundo é influenciado pela produção científica de Turing. Para citar apenas parte de seu legado, foi ele quem fundamentou a ideia de computador enquanto máquina de resolver problemas matemáticos, decifrou a máquina criptográfica alemã Enigma, utilizada na Segunda Guerra Mundial (colaborando assim com a reviravolta dos Aliados e sua vitória), ajudou a construir o conceito de algoritmo e fomentou o debate sobre inteligência artificial.

Por ser homossexual, foi condenado pela legislação da época, sob a qual foi considerado doente mental e criminoso. Foi afastado dos projetos secretos do quais participava por ser encarado como um risco à segurança do país. Para não ser preso, submeteu-se em 1952 a um tratamento com hormônios femininos como forma de se curar do que na época era encarado como distúrbio mental. Aos 41 anos foi encontrado morto; acredita-se ter sido vítima de suicídio, embora sua mãe tenha duvidado da versão oficial de sua morte. O pedido de desculpas do governo britânico, comunicado pelo premiê Gordon Brown, foi reflexo de uma petição on-line que visava resgatar o assunto e chamar a atenção para a falta de financiamento ao museu do cientista.

Apesar de a ação discriminatória e homofóbica do Estado inglês contra Alan Turing não ser mais aceita como foi naquela época (desde 1973 a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Associação Americana de Psiquiatria) não é raro ainda presenciarmos discriminação a colegas (não só) no meio acadêmico, embora de forma não institucionalizada, por conta de sua orientação sexual. Sofrem tratamento diferenciado, desde piadas “inocentes” a maus tratos, por terem uma identidade sexual que não corresponde à exigência social.

Muitas vezes essa discriminação passa desapercebida: a “naturalidade” com que é encarado esse tipo de distinção, visto como espontâneo frente ao “desvio comportamental” associado à homossexualidade (como se existisse um modo normal de se agir, que devesse ser imputado a todo e qualquer indivíduo), é mais do que herança do pensamento que permeava o contexto em que Turing (e não só ele) teve sua dignidade violada. A heteronormatividade é mais uma das máscaras com que se veste a não aceitação do que é diferente. Ou uma homofobia dissimulada se comparada ao que era há 50 anos, porém não menos opressora.

Para insipirar a reflexão, uma bela obra de arte audiovisual (indicada, assim como o tema deste post, pelo Alessandro).

1453 d. C.

maio 21, 2009
O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

A Idade Média, que tratei em um post anterior (476 d.C.), encerrou-se em 1453 d.C. com a queda do Império Bizantino. E, não foi em vão que a descoberta da América, e logo após a descoberta do Brasil, aconteceu apenas algumas décadas depois da queda de Constatinopla. Afinal de contas, em termos históricos, de 1453 até 1492 (descobrimento da América) são menos de 40 anos.

Foi devido ao Bloqueio da passagem por Constantinopla (e região) que os europeus se viram forçados a encontrar uma outra forma de continuar o comércio com as Índias. Os Espanhóis achavam que, sendo a Terra redonda, poder-se-ía alcançá-las indo no sentido contrário, para Oeste. Os Portugueses planejaram o que fora feito milhares de anos antes pelos fenícios, o périplo da África. Se a Terra não fosse redonda eles poderiam ir parar num mundo de monstros ou cair no abismo onde os oceanos vertem toda sua água.

Colombo, italiano que liderou a esquadra espanhola, alcançou a América e supõe-se que tenha morrido sem saber que, na verdade, o que ele fez não foi “simplesmente” dar outra forte comprovação quanto à esfericidade da Terra, mas sim descobriu um novo continente, o Novo Mundo. A partir daí, os portugueses quiseram sua parte na nova terra e “descobriram” o que hoje é o Brasil.

Tudo isto porque uma cidade fora tomada por inimigos alguns anos antes. Porém esta importante cidade era o elo entre o Oriente e uma Europa que estava se reformulando após séculos nas mãos dos árabes. A Reconquista da península Ibérica e a consequente formação dos primeiros estados nacionais (Portugal, Espanha, Países Baixos…) exigiu uma maior demanda de produtos de luxo para o mercado interno que emergia.

Historicamente localizados, podemos ver as conseguências destas transformações na Ciência. Por volta desta nova era (Idade Moderna) surgiu a Renascença, cujo nome já nos trás a noção de nascer novamente. O que nasceu novamente foi o pensar humano, a liberdade de questionar-se, de procurar entender a natureza. A liberdade de expressar-se nas pinturas, nas escrituras, nas esculturas. Claro que falar de liberdade para fazer, pensar ou agir nos idos de 1500, não teria uma boa contrapartida nos dias atuais. Mas quando tratamos da era que ficara para trás, as mudanças foram de uma importância sem precedentes.

A era de ouro perdida na época dos gregos ressurgia nas mãos e mentes brilhantes de Galileu Galilei (1564-1642), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Caravaggio (1571-1610). Um pouco mais tarde, mas ainda na era Moderna: Newton (1643-1727), Leibniz (1646-1716), Euler (1707-1783) e tantos outros que não caberia citar todos aqui, revolucionaram a Física, a Matemática, a Astronomia e a sociedade como um todo. É só dar liberdade para o ser humano buscar respostas as suas indagações, ou mesmo liberdade para questionar-se, que as revoluções no conhecimento vêm como simples consequência.

Evidentemente que não cabe só ao acontecido em Constatinopla (hoje Istambul) toda essa reviravolta, mas o ponto de partida foi lá, o pontapé inicial que exigiu mudanças nas estruturas do poder na Europa. Países antes sem expressão, como Portugal e Espanha, devido a suas posições estratégicas no Atlântico e Mediterrâneo, passaram a ter grande importância. Apoiados por uma Inglaterra que se erguia a base do mercantilismo e dos Países Baixos que lucravam com o transporte de matéria-prima originária das colônias no Novo Mundo, a Europa começava a impor no resto do mundo suas culturas. E tudo isso exigia uma logística e engenharias que precisaram ser repensadas e constantemente renovadas devido à competição entre as novas potências que surgiam. E a ciência pegou carona nesta empreitada que começava a redesenhar o mundo.

Após o refortalecimento das monarquias dos Estados Nacionais, com contrapartidas autoritárias para com suas respectivas populações, em 1789 d.C. o mundo sofre outro abalo que redireciona o rumo da História, ocorre a Revolução Francesa. Neste momento surgia a Idade Contemporânea.