A falsa polêmica do “novo zodíaco”

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Representação da precessão, movimento responsável pelo "novo signo"

Parabéns ao cidadão que criou a falsa polêmica de que o zodíaco atualmente é diferente do que o utilizado pelos astrólogos. Foi muito perspicaz encontrar uma manchete que chamasse tanta atenção para um fato antigo, já sabido há muito. Agora, depois de todo esse tumulto criado em torno do décimo terceiro signo, o que mais me pareceu desnecessário foi um monte de cientistas e astrônomos querendo dar pitaco na profissão alheia.

Antes de explicar por que acredito que astrônomos não deveriam interferir na astrologia (pelo menos não na forma como tem sido feita), talvez valha a pena explicar essa mudança nos signos anunciada pelos jornais.

Para entender essa mudança do zodíaco, é preciso entender os movimentos da Terra. A Terra possui uma série de movimentos que resultam de sua interação com o Sol e outros corpos e das condições do sistema solar quando foi criado. No ensino fundamental, normalmente ouvimos falar de dois movimentos da Terra: a rotação e a translação. Este diz respeito ao caminho percorrido pelo planeta em torno do Sol e tem duração de um ano. Um dos efeitos da translação é que as constelações vistas no céu noturno não são as mesmas ao longo dos 12 meses – por exemplo, Escorpião é fácil de ser vista nas noites de julho no Brasil, o que não é verdade em dezembro. Já a rotação, que dura um dia, é o movimento da Terra em torno de seu próprio eixo, e é responsável por deixar a face da Terra iluminada ou sem luz, o que nada mais é do que o dia e a noite.

Mas não são apenas esses os dois movimentos da Terra. Há outros movimentos que possuem efeitos menos perceptíveis. A cultura helênica já tinha conhecimento desses movimentos, tanto que haviam sido utilizados para a construção da máquina de Anticítera.

Um desses movimentos é o de precessão, representado na figura acima. Ele é análogo ao movimento do peão que, conforme vai girando cada vez mais devagar, tem sei eixo mudando de posição até tombar e ficar na horizontal. O eixo da Terra, assim como o do peão, também muda de posição e não fica eternamente como um espeto cravado em um isopor, sempre apontando para o mesmo lugar. Na realidade, é como se o espeto se mantivesse inclinado, mas sua ponta fizesse movimentos circulares. Se a Terra tivesse um espeto cravado para representar seu eixo, ele completaria um círculo a cada 26000 anos, aproximadamente. Esse é o tempo da precessão da Terra.

Um dos efeitos da precessão é que a posição aparente das constelações mudam ao longo de período. As pessoas hoje veem as constelações em posições diferentes das que eram há séculos. Outro efeito diz respeito ao zodíaco, nome dado ao conjunto das constelações que ficam no caminho do movimento aparente do Sol em torno da Terra. Dizemos aparente porque não é o movimento real, uma vez que a Terra é quem gira em torno do Sol embora o Sol pareça girar em torno de nós.

Por conta da precessão, de tempos em tempos o zodíaco pode ter mais ou menos constelações. Hoje, por exemplo, o zodíaco tem uma constelação a mais – chamada Serpentário – do que tinha há milênios atrás.

A responsabilidade desse conhecimento – movimento da Terra e seus efeitos, constelações etc. – e de seu progresso é atribuída atualmente aos astrônomos. Há alguns séculos, não fazia sentido distinguir astrólogos e astrônomos, pois o estudo do céu e do movimento dos astros tinha como uma de suas finalidades justificar diversos fenômenos na Terra, portanto um estudo era ligado ao outro. Prova disso é que, não fosse Newton astrólogo, seria improvável que ele utilizasse a ação a distância, elemento incompatível com o pensamento científico da época por seu caráter místico e nada mecanicista, em sua lei universal da gravitação.

Hoje, Astrologia e Astronomia, são áreas de conhecimento separadas e, por mais que tenham caminhado juntas durante séculos, não compartilham mais das mesmas crenças. São corpos diferentes, alicerçados em estruturas diferentes. Planetas e constelações constituem para os astrólogos uma linguagem para expressar seu objeto de estudo, a relação entre alguma coisa lá fora e o comportamento humano, enquanto planetas e constelações são atualmente alguns dos objetos de estudo dos astrônomos. São, portanto, duas atividades diferentes, por isso não faz sentido tentar compará-las ou achar válido utilizar elementos de uma para interferir na outra. A Astrologia precisa de doze signos para representar o comportamento humano, e a Astronomia hoje não tem mais nada a ver com isso.

O que acontece na realidade é o menosprezo por parte da grande maioria dos astrônomos e cientistas pela Astrologia por ser considerada pseudociência – o que, diga-se de passagem, se dá muitas vezes pelo senso comum e de forma pouco científica, como mostra este artigo. E esse menosprezo por uma área de conhecimento não-científica, o que representa uma intolerância e soberba que daria inveja ao Sheldon, é usado para legitimar a intromissão dos astrônomos no trabalho dos astrólogos.

Veja, argumentos como astrologia “é picaretagem”, “é misticismo” e “representa um atraso para a vida das pessoas” são irrelevantes para argumentar se os astrônomos têm espaço ou não para dizer quantos signos os astrólogos deveriam utilizar em sua atividade. Tratam-se de sistemas de crenças a princípio independentes um do outro, por mais que haja alguns elementos em comum.

Portanto, se você acredita em astrologia e não gostou de descobrir que falta um signo no zodíaco, não se preocupe, pois você não tem obrigação alguma de dar ouvido a um astrônomo nessa questão, e o zodíaco astrológico pode continuar a ter seus doze signos. Isso porque os astrônomos, assim como qualquer astrólogo, não são os donos da verdade.

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Se meu texto te ofende, é hora de assistir este vídeo.

Enquanto eu escrevia este texto, um colega publicou outro com informações sobre o “novo zodíaco” também interessantes, embora com uma visão divergente da minha.

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29 Respostas to “A falsa polêmica do “novo zodíaco””

  1. Abeid Says:

    A minha dúvida seria a seguinte: precisamos de um novo membro para os Cavaleiros do Zodiaco?

    • Tiago Almeida Says:

      Sua pergunta é pertinente. Do ponto de vista astrológico, não. Pela Astronomia, sim. Pela tradição dos mangás, não pois isso desonraria toda a obra já produzida. Economicamente, sim pois seria um motivo para uma nova temporada e gerar renda para seus autores. Sugiro que envie uma mensagem aos autores, eles vão gostar da ideia.

      Abraços

  2. Marcellus Says:

    Gostei da abordagem, mas essa história de outro signo eu escuto desde criança.

    Essas discussões entre ciência e crença, magia e tudo mais às vezes tomam proporções além do necessário. Outras vezes é divertido.

    E para continuar com a polêmica, porque não criar os Cavaleiros do Zodiaco Chinês? Poderia ser outra temporada e eles ainda, poderiam lutar contra os caveleiros originais. Adoraria ver alguém dar um surra naquele tal de Seiya.

    • Says:

      Pois é, o 13o signo não é novidade. Muito esperto quem sacou que isso poderia ser manchete a ponto de se tornar trendtopic.

      E concordo que um texto mais descontraído talvez torne essa discussão um pouco mais fácil de engolir, pois ela de fato é desgastante a ponto de se tornar desnecessária. Mas o blog tava meio paradão, sabe como é…

      E embora eu defenda o direito das pessoas pensarem em astrologia, nunca gostei disso, muito menos gostava dos Cavaleiros. E tenho certeza de que um signo a mais no zodíaco ainda é um motivo fraco para eu assistir uma temporada daquele desenho. Prefiro muito mais gastar tempo com o Sheldon e seus amigos nerds.

      Abraços

  3. Gerson Avillez Says:

    Não posso comentar se não serei morto, mas será que justifica alguns me atacarem? Creio que covardia não vai comprovar nada para os crentes no horóscopo!

    • Tiago Almeida Says:

      Olá, Gerson.

      Espero que vc não seja aqui atacado por suas crenças. Isso seria triste.

      Mas não ficou clara para mim a relação entre covardia e crentes que você propôs. O que você quis dizer?

      Abraços

  4. vials Says:

    Que tá dando o que falar isso tá!

  5. Nelson Góes Says:

    Cara, quanta sensatez. Também fico fulo da vida quando alguém acha que pode dar opinião profissional na área alheia. Mesmo não dando muita bola para a astrologia a minha postura como cientista seria de esclarecer apenas o que diz respeito a minha profissão.
    Tá de parabéns, é assim que se defende a verdade.

    • Tiago Almeida Says:

      Olá, Nelson.

      Obrigado pelo comentário. Só que não acredito estar defendendo uma verdade, mas sim um ponto de vista que pode não ser tão ruim quanto parece, embora eu não concorde com ele. Pensar diferente da norma pode ser estratégico – há muitas imprevisibilidades no mundo.

      Um abraço

  6. Diego Says:

    Discordo majoritariamente do uso da palavra “crença” ao se dirigir ao estudo da Astronomia. Assim como todo estudo científico, a astronomia ajusta seus pontos de vista e teorias conforme novas descobertas e estudos são realizados. Crença é justamente o oposto, a negação do pensamento crítico em função de manter o “status quo” de seus fundamentos.
    Por se tratar e fazer uso de “crenças” é que a astrologia fica descreditada, e não por apresentar hipóteses cientificamente absurdas. Ou então os próprios Astrólogos teriam se pronunciado sobre tais mudanças no “mapa astral”.

    • Tiago Almeida Says:

      Olá, Diego.

      O que se sabe é que nossas áreas de conhecimento se estabelecem sobre alguns pressupostos. Isso faz com que essas áreas de saber constituam sistemas de crença. Por exemplo: quem garante que as leis físicas funcionam em todos os lugares do universo? Esse é um pressuposto que alicerca toda uma área de conhecimento, no caso das ciências físicas. Não é possível provar se esse pressuposto é verdadeiro, mas ele é fundamental para os físicos.

      A partir daí (e com um pouco de paciência aliada a um trabalho árduo) você pode elaborar um pouco os critérios para dizer o que é ciência ou pseudociência. Mas o fato é que ambos constituem sistemas de crenças, goste você da palavra ou não.

      Creio que ao não atribuir valores positivos ou negativos à ao conceito de crença, ganha-se muitos elementos para se entender melhor como nosso mundo funciona.

      Abraços

  7. Gustavo Rocha Says:

    Zé,

    muito bacana o texto!
    Queria apenas dar uma sugestão pra vcs , que acho que pode ajudar na visibilidade do site. Acrescentar um plugin que permita compartilhar as matérias nas redes sociais como o facebook e twitter, ou stumbleupon.
    Os posts são muito legais e seria bom passar para mais pessoas.
    Abração

  8. Tiago Almeida Says:

    Fala, Gustavo!

    Achei ótima sua ideia. Fui ver o que poderia fazer e descobri que o botão share do facebook já estava disponível aqui, mas apenas nas páginas de cada post e não na página principal. Agora ativei tb o para o facebook e outras coisas.

    E bom que tenha gostado do texto. Espero que possamos publicar mais a longo desse ano e menos sobre Astrologia. =)

    Forte abraço

  9. Francisco Says:

    …só que Astronomia não é um “sistema de crenças”.

    • Tiago Almeida Says:

      Se a Ciência é um sistema de crenças, por que a Astronomia não seria?

      • Marina Says:

        “…a Ciência é um sistema de crenças” ???

      • Tiago Almeida Says:

        Sim, ciência É um sistema de crença. Talvez a divergência esteja em nossa concepção de crença.

        Gostaria muito de escrever sobre isso em breve, pois parece ser um campo controverso para muitos cientistas. Mas vai uma palhinha:

        Se pesquisar um pouco (achei pouca coisa em português), é possível verificar que, na ciência, existem ao menos duas hipóteses que se mantêm por pura fé. São elas:
        1) Existe uma realidade objetiva externa a nós e
        2) existe algum tipo de uniformidade temporal, o que permite dizer que
        a) o universo é dotado de uma estrutura e
        b) previsões e generalizações são possíveis.
        Este artigo, do qual extraí esse trecho, parece ser muito interessante para que nossa desavença possa ter um final, feliz ou não.

        Abraços

      • Marina Says:

        Acho que agora entendi o que vc quis dizer. Mas continuo achando infeliz a escolha do termo “sistema de crenças”. Concordo plenamente que tudo é feito assumindo que essas hipóteses (e talvez outras mais) sejam válidas. Mas ASSUMIR algo é diferente de CRER em algo. Se alguém pergunta se isso é “verdade”, a resposta científica seria: não sabemos e não temos como saber. Logo, não há “crença”. O que há, para mim, é a consciência das nossas limitações, consciência de que existem perguntas que são “unanswerable by its very nature”. Isso, pra mim, é bem diferente de crer em uma resposta. Concorda?🙂
        Abraços!

      • Tiago Almeida Says:

        Ok. Uma alternativa é não atribuir valor alguma à palavra “crença”. Isso resolveria nosso problema e driblaria o incômodo que parece ser a ciência ter que compartilhar um elemento com as religiões.

        Mas acho que esse drible semântico não resolve uma questão maior. Se pensarmos pelo seu argumento, não tenho dúvidas de que possa surgir algum religioso dizendo que na religião também não há crença, pois não sabemos ou não temos como saber da existência de deus, por exemplo. Um agnóstico parte desse princípio, não é? Não estou dizendo que todos os religiosos pensam assim, mas com certeza alguns podem ter essa convicção.

        Ou melhor, talvez você refute esse exemplo. Mas, transpondo o exemplo da religião para a ciência, você nunca viu alguém acreditar que a Matemática traduz a natureza? Aí no seu Instituto mesmo, sou capaz de apontar uma legião de pessoas que acreditam piamente que a natureza é absolutamente racional e que é possível utilizar a matemática, também absoluta, como linguagem que nos permita comunicar com qualquer forma de vida que (por algum acaso) exista no universo. Uns vão dizer que não é crença, mas mera hipótese. Outros diriam que é o que temos de mais próximo da verdade do universo.

        Enfim, sistema de crenças ou sistema de hipóteses, na minha visão, remetem a sistemas que tem algumas coisas em comum, gostemos disso ou não. O que importa mesmo é o que fazemos diante disso tudo.

        Abraços!

    • Tiago Almeida Says:

      Veja, não há problemas na dependência de sistemas de crenças para se explicar o universo, uma vez que não há outra forma de se fazê-lo.

  10. Francisco A. G. de Almeida Says:

    Olá! Sou o Prof. Dr. Francisco Almeida do Dep. de Física da Universidade Federal de Sergipe. Conheci Alessandro na Bahia durante o concurso da UFRB e fiquei de informá-lo sobre o concurso da UFS para Astronomia. Por favor, poderia comunicá-lo. Se possível ajude a divulgar o edital http://200.17.141.11/site/grh//files/Edital_003_2011_Docente_BEQ_.pdf . Está sendo criado o curso de astronimia na UFS e por isto está tendo o primeiro concurso específico para a área. Meu e-mail é assisalmeida@hotmail.com
    Abs e Obrigado.

  11. Cristina Says:

    Tiago,
    Muito bom o seu texto e as referências, sobretudo ao Sheldon.🙂
    Minha dissertação de mestrado em Filosofia pela PUC-Rio, defendida há 5 anos, trata do problema da cientificidade da astrologia. Numa das seções, refiro-me diretamenta ao artigo do Thagard que você menciona, além de outros filósofos da ciência, como Kuhn e Feyerabend, que decerto já lhe são familiares.
    Saudações,
    Cristina

    • Tiago Almeida Says:

      Olá, Cristina.

      Obrigado. Sheldon deve ser um grande exemplo para todos nós. Bazinga.

      Fiquei interessado pela sua dissertação. Como posso ler seu trabalho? Há algum artigo publicado ou apenas a dissertação? Continua a pesquisa sobre o mesmo tema?

      Saudações,

      Tiago

  12. Cristina Says:

    Tiago,
    Você pode encontrar tanto a dissertação quanto a tese no site da biblioteca da PUC-Rio (http://www.dbd.puc-rio.br/). Basta pesquisar o meu nome: Cristina de Amorim Machado. A dissertação (de mestrado em Filosofia) chama-se “A falência dos modelos normativos de filosofia da ciência – a astrologia como um estudo de caso”; e o título da tese (de doutorado em Letras) é “O papel da tradução na transmissão da ciência: o caso do Tetrabiblos de Ptolomeu”. Agora estou às voltas com uma pesquisa sobre a história do LNA (por isso vim parar aqui no seu blog) e continuo com os meus estudos sobre Ptolomeu. Tenho alguns artigos publicados, mas nada que não esteja na tese ou na dissertação.
    Bazinga!
    Saudações,
    Cristina

  13. Rodrigo Holanda Says:

    “Ciência ?!!! crençasss?!!!” Thiago eu sinto muito, acho que vc precisa criar um blog diferente, realmente alguns posts seus não condizem com o objetivo deste. A Astrologia é uma superstição, uma vez que, até hoje, nenhum astrólogo apresentou evidências oficiais acerca da eficácia de seus métodos. Totalmente diferente da ciência, que por vezes baseada em postulados que depois se mostram muito perto da descrição da verdade, uma vez que estou escrevendo isso aqui agora.

    • Tiago Almeida Says:

      Olá, Rodrigo. Faz tempo que não nos falamos. Espero que esteja tudo bem com você.

      Talvez eu não tenha entendido seu comentário. Entendi que você questionou o objetivo do Café com Ciência. pode se explicar melhor?

      Abraço

  14. Bancos de dados sobre fenômenos sociais « Café com Ciência Says:

    […] Depois de alguns posts antigos e polêmicos (embora haja assuntos mais polêmicos do que aqueles), volto a falar aqui sobre ciências. Aos […]

  15. espiritualidade esta em tudo Says:

    Muito legal seu texto Tiago. Não existe verdade absoluta e sim o que cada um acredita..

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