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Bancos de dados sobre fenômenos sociais

julho 3, 2011

Aliando alguns conceitos estabelecidos a métodos estatísticos, podemos encontrar padrões muito interessantes de comportamento na sociedade. Tudo bem que não é uma tarefa tão simples quanto parece, pois requer uma carga de leitura pesada de textos com uma linguagem própria de quem lida com sociologia. Mesmo assim, não é impossível para quem tem acesso a um punhado de recursos, entre eles textos, bancos de dados e programas.

Todo esse blablablá introdutório é para falar de um trabalho em grupo feito em uma disciplina sobre métodos de pesquisa em ciências sociais. Escolhemos racismo como tema a ser estudado. Uma das perguntas que surgiu em nessa tarefa da faculdade foi a seguinte: como será que varia a percepção de discriminação entre pessoas de cores diferentes? Será que as diversas etnias – brancos, indígenas, orientais, negros etc. – sentem que são discriminados na mesma proporção? Na realidade, nossa proposta foi estudar como a percepção de discriminação varia com a escolaridade – quem nunca estudou deveria sentir menos a discriminação pela sua cor do que quem tem ensino médio, por exemplo -, mas nossos resultados foram inconclusivos. Por isso seguimos pesquisando por outro caminho.

Para respondermos essa pergunta, usamos um banco de dados chamado “Discriminação racial e preconceito de cor no Brasil ”. Esse banco contém perguntas e respostas de 5003 pessoas de diversas etnias, residentes em 267 brasileiras. Ele pode ser baixado no site do Consórcio de Informações Sociais. Para manipulá-lo, é recomendável a instalação do programa Statistical Package for the Social Sciences da IBM, disponibilizado em versão trial. Com alguns cliques, o programa lhe dá frequências e resultados de cruzamentos das perguntas respondidas que lhe interessar. E há vários bancos de dados para se “brincar” com esse programa.

Escolhemos então duas questões presentes na entrevista para tentar resolver o problema proposto. Supomos que seja possível dizer se a pessoa percebe já ter passado por situações de discriminação pela resposta dada à pergunta “o/a sr/a. já se sentiu discriminado/a alguma vez por causa da sua cor ou raça?” As respostas possíveis foram i) sempre, ii) quase sempre, iii) de vez em quando, iv) isso aconteceu só uma ou duas vezes, v) outras frequências, vi) nunca se sentiu discriminado/a.

Perceba que buscamos descobrir a percepção quanto à discriminação sofrida – o que é muito subjetivo – já que é difícil acessar a informação sobre se a pessoa sofreu ou não algum tipo de discriminação. Mesmo diante de tal subjetividade é possível chegar a conclusões interessantes. A segunda pergunta diz respeito à cor ou raça do entrevistado. Vale também observar que o conceito de raça biológica, embora seja rejeitado no meio científico, ainda reside no imaginário da população, o que justifica a pergunta não se limitar apenas à cor do entrevistado.

Quando fragmentamos em cores e raças as respostas positivas de quem já sofreu discriminação pelo menos uma vez, obtivemos o a tabela e o gráfico abaixo.

O que se pode inferir é que quanto mais escura a pessoa maior é sua percepção de discriminação por cor ou etnia.

Embora seja uma tendência óbvia para alguns, há ainda alguns que insistem em negar as evidências de que há segregação racial no Brasil mesmo que de forma dissimulada. Nelson Rodrigues já dizia que “não caçamos pretos, no meio da rua, a pauladas, como nos Estados Unidos. Mas fazemos o que talvez seja pior. A vida do preto brasileiro é toda tecida de humilhações. Nós tratamos com uma cordialidade que é o disfarce pusilânime de um desprezo que fermenta em nós, dia e noite” . Provavelmente ele não rodou um programa nem criou gráficos, o que não o impediu de chegar à mesma conclusão a partir de sua experiência de vida.

O interessante dessa história toda é que esses bancos de dados – não apenas o sobre racismo no Brasil, mas também sobre direitos humanos, idosos, juventude, mulheres etc. – consistem em diversos recursos para colocarmos em números vários tipo de fenômenos sociais, o que nos ajuda a desmistificar conceitos, preconceitos e (por que não?) às vezes até criar muitos outros.

PS.: Depois de alguns posts antigos e polêmicos (embora haja assuntos mais polêmicos do que aqueles), volto a falar aqui sobre ciências. Aos dois ou três que acompanham o blog e acham que ciências humanas não são ciências, sinto muito pela discordância e por decepcioná-los mais uma vez.

A falsa polêmica do “novo zodíaco”

janeiro 18, 2011

Representação da precessão, movimento responsável pelo "novo signo"

Parabéns ao cidadão que criou a falsa polêmica de que o zodíaco atualmente é diferente do que o utilizado pelos astrólogos. Foi muito perspicaz encontrar uma manchete que chamasse tanta atenção para um fato antigo, já sabido há muito. Agora, depois de todo esse tumulto criado em torno do décimo terceiro signo, o que mais me pareceu desnecessário foi um monte de cientistas e astrônomos querendo dar pitaco na profissão alheia.

Antes de explicar por que acredito que astrônomos não deveriam interferir na astrologia (pelo menos não na forma como tem sido feita), talvez valha a pena explicar essa mudança nos signos anunciada pelos jornais.

Para entender essa mudança do zodíaco, é preciso entender os movimentos da Terra. A Terra possui uma série de movimentos que resultam de sua interação com o Sol e outros corpos e das condições do sistema solar quando foi criado. No ensino fundamental, normalmente ouvimos falar de dois movimentos da Terra: a rotação e a translação. Este diz respeito ao caminho percorrido pelo planeta em torno do Sol e tem duração de um ano. Um dos efeitos da translação é que as constelações vistas no céu noturno não são as mesmas ao longo dos 12 meses – por exemplo, Escorpião é fácil de ser vista nas noites de julho no Brasil, o que não é verdade em dezembro. Já a rotação, que dura um dia, é o movimento da Terra em torno de seu próprio eixo, e é responsável por deixar a face da Terra iluminada ou sem luz, o que nada mais é do que o dia e a noite.

Mas não são apenas esses os dois movimentos da Terra. Há outros movimentos que possuem efeitos menos perceptíveis. A cultura helênica já tinha conhecimento desses movimentos, tanto que haviam sido utilizados para a construção da máquina de Anticítera.

Um desses movimentos é o de precessão, representado na figura acima. Ele é análogo ao movimento do peão que, conforme vai girando cada vez mais devagar, tem sei eixo mudando de posição até tombar e ficar na horizontal. O eixo da Terra, assim como o do peão, também muda de posição e não fica eternamente como um espeto cravado em um isopor, sempre apontando para o mesmo lugar. Na realidade, é como se o espeto se mantivesse inclinado, mas sua ponta fizesse movimentos circulares. Se a Terra tivesse um espeto cravado para representar seu eixo, ele completaria um círculo a cada 26000 anos, aproximadamente. Esse é o tempo da precessão da Terra.

Um dos efeitos da precessão é que a posição aparente das constelações mudam ao longo de período. As pessoas hoje veem as constelações em posições diferentes das que eram há séculos. Outro efeito diz respeito ao zodíaco, nome dado ao conjunto das constelações que ficam no caminho do movimento aparente do Sol em torno da Terra. Dizemos aparente porque não é o movimento real, uma vez que a Terra é quem gira em torno do Sol embora o Sol pareça girar em torno de nós.

Por conta da precessão, de tempos em tempos o zodíaco pode ter mais ou menos constelações. Hoje, por exemplo, o zodíaco tem uma constelação a mais – chamada Serpentário – do que tinha há milênios atrás.

A responsabilidade desse conhecimento – movimento da Terra e seus efeitos, constelações etc. – e de seu progresso é atribuída atualmente aos astrônomos. Há alguns séculos, não fazia sentido distinguir astrólogos e astrônomos, pois o estudo do céu e do movimento dos astros tinha como uma de suas finalidades justificar diversos fenômenos na Terra, portanto um estudo era ligado ao outro. Prova disso é que, não fosse Newton astrólogo, seria improvável que ele utilizasse a ação a distância, elemento incompatível com o pensamento científico da época por seu caráter místico e nada mecanicista, em sua lei universal da gravitação.

Hoje, Astrologia e Astronomia, são áreas de conhecimento separadas e, por mais que tenham caminhado juntas durante séculos, não compartilham mais das mesmas crenças. São corpos diferentes, alicerçados em estruturas diferentes. Planetas e constelações constituem para os astrólogos uma linguagem para expressar seu objeto de estudo, a relação entre alguma coisa lá fora e o comportamento humano, enquanto planetas e constelações são atualmente alguns dos objetos de estudo dos astrônomos. São, portanto, duas atividades diferentes, por isso não faz sentido tentar compará-las ou achar válido utilizar elementos de uma para interferir na outra. A Astrologia precisa de doze signos para representar o comportamento humano, e a Astronomia hoje não tem mais nada a ver com isso.

O que acontece na realidade é o menosprezo por parte da grande maioria dos astrônomos e cientistas pela Astrologia por ser considerada pseudociência – o que, diga-se de passagem, se dá muitas vezes pelo senso comum e de forma pouco científica, como mostra este artigo. E esse menosprezo por uma área de conhecimento não-científica, o que representa uma intolerância e soberba que daria inveja ao Sheldon, é usado para legitimar a intromissão dos astrônomos no trabalho dos astrólogos.

Veja, argumentos como astrologia “é picaretagem”, “é misticismo” e “representa um atraso para a vida das pessoas” são irrelevantes para argumentar se os astrônomos têm espaço ou não para dizer quantos signos os astrólogos deveriam utilizar em sua atividade. Tratam-se de sistemas de crenças a princípio independentes um do outro, por mais que haja alguns elementos em comum.

Portanto, se você acredita em astrologia e não gostou de descobrir que falta um signo no zodíaco, não se preocupe, pois você não tem obrigação alguma de dar ouvido a um astrônomo nessa questão, e o zodíaco astrológico pode continuar a ter seus doze signos. Isso porque os astrônomos, assim como qualquer astrólogo, não são os donos da verdade.

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Se meu texto te ofende, é hora de assistir este vídeo.

Enquanto eu escrevia este texto, um colega publicou outro com informações sobre o “novo zodíaco” também interessantes, embora com uma visão divergente da minha.

A história (ou uma outra crônica) de um Átomo

outubro 7, 2010

No ano passado foi publicado aqui no um texto neste blog intitulado Crônicas de um carbono ancião. A ideia do texto é a de contar a história da “vida” de um átomo de carbono desde o início do universo.

Naquela época, esse texto rendeu uma longa discussão sobre cópias de textos entre blogs, plágios etc. Algumas pessoas envolvidas na discussão acreditam que a Crônica inspirara um texto de outro blogueiro. Compartilhei dessa opinião durante um tempo, mas após ouvir uma série de pessoas – algumas, aliás, só pude conhecer por conta dessa cisma – duvido muito que a ideia por trás do texto publicado no C³ tenha sido tão original a ponto de influenciar outros autores, por mais interessante que tenha sido o texto. Prova de que o tema não era nem um pouco inovador foram outros textos com o mesmo tema publicados anteriormente em outros sites e blogs, como este e este aqui.

Hoje resolvi retomar esse assunto, enterrado há mais de um ano, após encontrar um material de divulgação científica muito interessante, produzido pela Casa da Ciência da UFRJ. Esse centro cultural produziu a revista Ciência para Poetas, que trata o conhecimento científico numa perspectiva cultural. Na revista publicada (se não me engano) em julho encontrei uma poesia de um cidadão chamado Rodolfo Teófito (1853-1932). De acordo com a revista, Teófito foi “médico sanitarista, escritor e divulgador da ciência, desempenhou importante atividade nas campanhas de vacinação no nordeste, há cerca de um século. Publicou diversos livros, entre contos, poesias e romances, como a obra intitulada A Fome, que introduziu o realismo/naturalismo no Ceará”. Eis a poesia:

História de um Átomo
(Eternidade da matéria)

Fui átomo de rocha, fui granito,
Fui lava de vulcão, fui flor mimosa,
Sutil perfume, nuvem borrascosa
Manchando a transparência do infinito.

Vaguei no espaço… errante aerolito
Transpus mundos de essência vaporosa.
De santos fui artéria vigorosa,
O coração formei a ser maldito.

Nasci com a Terra; gaz eu fui com ela,
Estive de Princípio na procela,
Fui nebulosa, sol, planeta agora.

Há cem mil séculos vivo m’encarnando,
Águia n’altura, verme rastejando,
Pólen voando pelo espaço a fora.

De fato, a poesia mostra que nossas ideias não têm sido tão originais quanto pensava. (Diga-se de passagem, mostra também que a divulgação científica não se dá apenas por textos postados em blogs, livros e vídeos de grandes autores; há uma série de poesias e outras expressões disponíveis por aí que tratam a ciência com um olhar difereciado.) Independente de alguém ter tomado emprestada a originalidade de algum texto alheio ao longo desses tempos, essa poesia conseguiu expressar de forma também interessante o que eu e os autores dos outros textos tentamos escrever em prosa, cada um à sua maneira.

A Física enquanto uma nova visão de mundo

agosto 17, 2010

Ao longo do curso da licenciatura em Física, nós, alunos, somos estimulados a fazer algumas leituras e escrever curtas resenhas sobre assuntos que, ao menos ao meu ver, são muito interessantes. Em uma das disciplinas desse curso, tive contato com um trabalho que me chamou a atenção por tratar da importância da Física fazer parte do currículo escolar.

Maurício Pietrocola publicou o artigo “Construção e Realidade: modelizando o mundo através da Física”, presente no livro “Linguagem e Estruturação do Pensamento na Ciência e no Ensino de Ciências” (publicação viabilizada pelo Núcleo de Pesquisa em Inovação Curricular, órgão vinculado à Fapesp), do qual Pietrocola foi organizador. Nessa publicação, dedicada à problematização da extensão da linguagem no pensamento científico, o autor faz uma reflexão acerca da Física e de sua importância enquanto uma forma inovadora de se representar o mundo.

A busca por uma justificativa para a institucionalização da Física no currículo escolar é capaz de resultar em uma longa lista de motivações, das mais práticas – como fornecer condições para o indivíduo se estabelecer no mercado de trabalho e assim enriquecer – até as mais românticas – como instigar o prazer pelo conhecimento em si, sem respaldo no pragmatismo exacerbado que contagia nosso espírito de época, principalmente no mundo ocidental. Todavia, tal reflexão aparentemente não surte resultados práticos: qualquer que seja a justificativa para o ensino de Física nas escolas, sua prática parece estar cada vez mais distante dos supostos objetivos da Escola brasileira.

No texto, Pietrocola mostra como o conhecimento abarcado pela Física enquanto ciência e o conhecimento que faz parte do cotidiano, apesar de constituírem realidades construídas paralelamente, podem se encontrar em um horizonte no qual as pessoas constroem o que ele diz ser seu “sentimento de realidade”, ou seja, uma forma subjetiva de se criar uma representação coerente do universo de experiências em que cada indivíduo se insere.

Por ser o conhecimento científico algo que atinge práticas sociais restritas a grupos específicos – não é comum, salvo raras exceções, dialogar em termos científicos com a família ou com os amigos em momentos descontraídos – a escola, a partir de seu currículo, desempenha papel fundamental de viabilizar a todos uma nova visão de mundo a partir da realidade Física.

É da aproximação entre realidade Física e realidade no sentido cotidiano que o autor enxerga a Física como uma espécie de estratégia para se atingir representações alternativas ao “senso comum” sobre o mundo natural, apontando, portanto, ao menos uma utilidade à presença dessa ciência no currículo escolar. Segundo Pietrocola, “é necessário mostrar na escola as possibilidades oferecidas pela Física e pela ciência em geral, enquanto formas de construção de realidades sobre o mundo que nos cerca”.

O artigo é um ótimo ponto de partida a quem busca subsídios para se engajar ao ensino de Física, principalmente por não se propor a entender o ensino sob um olhar cientificista, colocando o pensamento científico em pé de igualdade com outras modelizações de mundo.

O artigo completo pode ser encontrado neste link (e devo agradecer ao Marcellus por tê-lo encontrado).

Quer ser um astrônomo mirim?

julho 13, 2010

Tela de abertura do programa

Já parou para pensar em qual a origem dos elementos químicos? De onde saíram todos os átomos que constituem a estrutura da matéria e o que os faz diferentes uns dos outros?

Pode parecer muito distante da realidade com a qual lidamos em nosso dia-a-dia, mas todos os elementos químicos têm principalmente duas origens: ou vieram das estrelas ou nasceram pouco tempo após o Big Bang, evento que deve ter dado origem ao universo em que habitamos.

Não só aqui na Terra podemos encontrar os elementos químicos resultantes desses dois processos: eles estão espalhados por todo o universo, tanto em outros planetas como também nas estrelas e no meio interestelar. E um dos fatores que fazem com que cada estrela seja diferente das outras é justamente sua composição química, ou a quantidade de átomos de cada espécie que faz parte dessa estrela.

Isso pode parecer impressionante, mas não acaba aí! Muito do que se conhece do universo atualmente se deve ao sucesso dos astrônomos em  desvendar a composição química das estrelas e de outros objetos astronômicos. Ter acesso às informações de personagens que estão a distâncias de nosso planeta muitas vezes inconcebíveis é consequência de teorias capazes de descrever como a luz interage com a matéria.

Sabe-se que a luz pode ser decomposta em cores – o arco-íris é explicado por esse fenômeno. Ao se separar a luz que vem das estrelas em cores, é possível descobrir quais são os elementos químicos que constituem a matéria com a qual essa luz interagiu antes de chegar aos nossos olhos ou aos detectores dos telescópios.

Em resumo, a luz emitida pelas estrelas transporta informações sobre seus elementos elementos químicos.

Diante de todas essas informações, um grupo de educadores e astrônomos construiu um software que simula o trabalho do pesquisador dedicado a descobrir a composição química das estrelas. No programa “Astrônomo mirim”, produzido em Java, o usuário tem a oportunidade de trabalhar como auxiliar do astrônomo Henrique Charles Morize, um antigo diretor do Observatório Nacional (uma das instituições mais antigas existentes hoje no Brasil, fundada pelo Imperador D. Pedro I em 1827) em São Cristóvão, Rio de Janeiro. O trabalho se resume a identificar elementos químicos das estrelas da bandeira nacional pela comparação entre espectros (nome dado à luz decomposta em cores) de elementos químicos conhecidos.

O programa é destinado a alunos do 2º e 3º ano do ensino médio e pode ser baixado a partir do banco de objetos educacionais do MEC. Apesar de alguns pequenos problemas (como erros de digitação, por exemplo) que espero sejam corrigidos pela equipe responsável, é uma ferramenta muito interessante aos professores para introduzir conceitos de Astronomia nas aulas de Física.

A seriedade da pesquisa em Astrologia

junho 1, 2010

A Folha.com publicou uma reportagem sobre um departamento da Universidade de Brasília que dá o que falar no meio acadêmico: é o Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, que tem como objetos de estudo ufologia, astrologia e conscienciologia. Alguns acreditam que há problemas em financiar com verbas públicas um grupo de estudos como esse, pois o dinheiro para ciência não deve ser dividido com esse tipo de conhecimento. É raro encontrar algo dentro dos limites da universalidade da cultura humana que possa ser mais arrogante do que esse tipo de pensamento sectário e preconceituoso.

(Esse texto reflete minha opinião e não necessariamente a dos outros dois autores deste blog.)

Há uma expectativa sobre a ciência atual, respaldada tanto por uma mentalidade cientificista quanto por uma suposta necessidade desenvolvimentista, que dá ao conhecimento científico status de verdade ontológica. Tal expectativa só se concretiza no contexto no qual nossa civilização se insere temporal e espacialmente. Tudo bem que a universidade foi pensada sobre ideais iluministas, racionalistas, positivistas e todo o mais – o que sustenta nossa crença cega em uma causalidade cartesiana, mas daí para dizer que a universidade não pode financiar astrologia é preciso um salto considerável.

Astrologia e ufologia, assim como as ciências, são formas de se representar o mundo. Expressam visões de mundo, nada além disso.  Pesquisas sobre esse tipo de conhecimento podem não ser interessantes para um cientista ordinário, ainda assim não são menos razoáveis para algumas pessoas, como aquelas com quem convivemos em nosso dia-a-dia. Essa justificativa deveria ser suficiente para aceitarmos a produção de conhecimento (não-científico) nesses campos de estudo. No entanto, o status de verdade das ciências parece ser inabalável e intocável.

Tanto astrologia quanto as ciências são embasadas em hipóteses. Embora algumas hipóteses sejam mais fortes do que outras, isso ainda não faz das ciências representações que excluam a validade das não-ciências em um certo domínio de vivência. O método científico é só uma hipótese, por mais sofisticada e eficiente que o seja. A Física explica muita coisa e por isso é genial. Experiência e observação são sim muito úteis e funcionam muito bem para o desenvolvimento do conhecimento científico. Mas não são verdades em si. Por mais fantásticos e fascinantes que sejam seus resultados, ainda são apenas hipóteses fortes.

A rigor, não faz sentido financiar uma ciência que estude o universo distante – do tipo a astronômica – só porque as teorias físicas funcionam aqui no nosso mundo. Ou não é questão de fé o fato de as leis físicas serem as mesmas em todo o universo?

Estudar teologia e astrologia na universidade é tão interessante quanto estudar filosofia. Se estudadas na universidade, a função da teologia e da astrologia não deve ser a de formar profissionais para o mercado, mas sim fazer pesquisa que ajude a construir esses saberes. Um teólogo pesquisador pode ser diferente de um padre ou bispo, assim como o João Bidu não deve morrer de amores pela pesquisa. Então qual o problema em pesquisar teologia e astrologia?

A universidade não pode ser meramente utilitarista, financiando uma fatia do conhecimento que pode ser produzido e desenvolvido pela sociedade contemporânea. Nesse sentido, astrologia e paranormalidade devem ter tanto espaço no financiamento de pesquisa básica quanto qualquer ciência. Não basta conhecimento científico para satisfazer os anseios das pessoas em toda sua diversidade. Há humanidades incapazes de serem expressas por qualquer linguagem, nem mesmo a científica. Vetar financiamento à astrologia, ufologia, teologia ou qualquer que seja a área de conhecimento é mutilar uma parte importante da cultura construída ao longo de nossa história.

Física interessante

fevereiro 4, 2010

Será possível um ser humano ser mais potente que nosso astro-rei?

Aconteceu na semana passada o curso “Física Interessante”, promovido pela Comissão de Cultura e Extensão do Instituto de Física da USP. Otaviano Helene foi o professor responsável pelas aulas.

O curso tem sido oferecido frequentemente nos últimos anos. Ele é voltado a um público de educadores de ensinos fundamental e médio de formações distintas – não necessariamente físicos, mas também biólogos, químicos etc.

A proposta do curso é a de apresentar aspectos da Física de nosso cotidiano. Para tanto, o professor utiliza de alguns conceitos da Física Básica (aquela do ensino médio) e uma série de aproximações e hipóteses físicas pertinentes para tratar de assuntos como tsunamis, olho humano, estrutura da matéria (por exemplo, quanto se deve misturar o durepoxi para fazer uma massa homogênea?), energia consumida pelo corpo humano e seu resfriamento, entre outros.

Em alguns pontos do curso, o professor se sentiu à vontade de apresentar alguns conceitos de cálculo diferencial e integral (o que, salvo raras exceções, não é conteúdo de ensino médio) para tratar de problemas um pouco mais elaborados, como a formação de ondas do mar, fazendo com que alguns dos alunos que não tiveram esse conteúdo na faculdade ficassem “boiando” por um tempo e exercitando sua fé no que o professor nos apresentava. Apesar disso, os temas foram, de forma geral, apresentados em um formato mais atraente do que em uma aula média de Física em uma escola comum.

Um assunto que me chamou a atenção diz respeito à energia produzida por um ser humano com relação a sua própria massa e comparada ao Sol (aqui se manifesta mais uma vez a veia astrônoma do Café com Ciência).

Imagine que uma pessoa tenha uma alimentação diária que lhe forneça em média 2200 kcal – o que é razoável – para, em uma primeira aproximação, manter o corpo funcionando ou, basicamente, à uma temperatura constante e conveniente para seu funcionamento. Como 1 kcal equivale a aproximadamente (~) 4 J, então o corpo humano converte ~10 milhões de joules (107 J) de energia química, fornecida pela comida, em energia térmica por dia (ou 24 h x 60 min x 60 s = 86400 s).

Lembrando que a potência é igual a energia consumida por segundo, então a potência do corpo humano é igual a 107 J / 86400 s ou ~100 W). Se essa pessoa que consome 2200 kcal diárias pesar cerca de 100 kg, sua potência por massa deve ser de ~1 W/kg.

Para comparar esse valor com o do Sol, vamos dividir o valor da luminosidade (energia irradiada na superfície) solar, 4×1026 W, por sua massa, 2×1030 kg. A potência por massa do Sol é, portanto, 0,0002 W/kg.

Ou seja, a potência por massa do Sol é vinte mil vezes MENOR que a de um ser humano!

Essa comparação que vai contra o (meu) senso comum (afinal, como um ser humano pode produzir mais energia que uma estrela? Estudei estrelas todos esses anos acreditando em todo seu poder! Como pude ser tão inocente!?) só é razoável porque a maior parte da massa do Sol não contribui para sua produção de energia: apenas uma parte dos átomos de hidrogênio, presente em seu núcleo, participa das reações nucleares que produzem a energia liberada pelo Sol em forma de radiação. É essa massa “inerte”, que não produz energia, que de certa forma “dilui” a potência por massa solar; se levássemos em conta apenas o núcleo solar, sua potência por massa seria de aproximadamente ~108 W/kg!

E se pensarmos em potência absoluta, sem dividi-la pela massa, obviamente o Sol ainda é mais potente que o corpo humano (ufa!).

O material do curso foi disponibilizado pelo professor Otaviano aqui.

Como medir o aquecimento global?

outubro 15, 2009

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Para se dizer que a temperatura da Terra está aumentando, é preciso medições. Já imaginou como é difícil medir a temperatura da Terra?

Há uma variedade de definições de temperaturas. A Astronomia possui algumas delas, como (links em inglês) temperatura efetiva, de cor, de brilho e de antena. Mas não precisamos ir tão longe: podemos pensar de acordo com a termodinâmica clássica, segundo a qual a temperatura é uma medida proporcional ao grau de agitação das partículas.

Existe também uma série de formas de se medir temperatura. Isso nos leva à escolha do melhor termômetro, que (dentro da nossa proposta de medir o aquecimento global) pode ser o termômetro de bulbo, bimetálico ou eletrônico. Há intervalos de temperatura em que uns são mais adequados que os outros, e garantir que a medida está correta depende da melhor escolha.

Outro passo fundamental é a escolha do objeto de medição. Estão sendo obtidas temperaturas do solo, do ar ou do mar? Por possuírem propriedades diferentes, é de se esperar que cada sistema tenha também temperaturas diferentes.

Uma outra etapa sobre o processo de medição consiste em estabelecer a região em que ele ocorre. Se a proximidade do mar, a altitude ou a latitude da Terra não fossem relevantes, seria indiferente medir uma temperatura em Santos e outra no Nepal e tratá-las da mesma forma. Mas sabemos que há muita diferença nisso.

Além de definir a temperatura enquanto propriedade, o objeto, o instrumento e a localidade da medição, é fundamental estabelecer o tempo e a duração da medição. Uma medida obtida à noite será diferente de uma ao meio-dia, assim como varia a media com a escala de tempo em que o termômetro vai entrar em equilíbrio térmico com o meio em questão.

Agora imagine esse problema aplicado à constatação de que a temperatura da Terra não só variou com o passar do tempo mas também aumentou. Quem garante que as medições obtidas há trinta anos podem ser comparadas às de hoje? Será que todas as medidas constituem um grupo homogêneo de dados, sem um viés metodológico? Há cem anos foi utilizada a mesma tecnologia para se obter essa temperatura? Não há qualquer desvio sistemático nos dados que possam influenciar a afirmação de que existe um aquecimento global?

Logo, medir a temperatura da Terra pode ser um problema maior do que aparenta. Podemos ainda ir além da nossa crítica, o que normalmente é o que fazem os mais céticos quanto a esse problema.

Sabemos que há tabelas de temperaturas locais registradas ao longo de muitos anos, com controle de todas as variáveis citadas anteriormente. Mas será que o mesmo acontece com as medições de carbono na atmosfera? Obviamente essas emissões vêm aumentando com o passar dos anos, mas será que há medições que garantam uma correlação tão bem estabelecida entre aumento da temperatura e aumento de emissão de carbono?

Provavelmente os cientistas responsáveis pelo IPCC tomaram cuidados com todos esses fatores antes de analisarem qualquer dado coletado (sim, até certo ponto confio nas conclusões apresentadas pelo Painel). Mesmo assim, sempre é bom ter em mente que a problematização pressupõe algumas hipóteses que devem ser questionadas de forma recorrente – esse é o esperado de quem lida com o método científico.

Blog Action Day é um evento anual que une blogueiros de todo o mundo postando mensagens sobre o mesmo assunto num mesmo dia nos seus próprios blogs, com o objetivo de provocar uma discussão em torno de uma questão de importância global. “Um dia. Uma causa. Milhares de vozes” é o seu lema.

Máquina de Anticítera

outubro 12, 2009
No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant)

No topo, a máquina de Anticítera; abaixo, sua reconstituição (crédito da imagem: Jo Marchant).

O conhecimento é volátil: pode evaporar sem deixar vestígios. Por sorte, às vezes sobra um pouco dele antes de desaparecer por completo. A máquina de Anticítera é uma prova concreta dessa afirmação.

Em 1902, foi encontrada uma máquina em uma embarcação afundada na ilha grega de Anticítera. Estudos indicam que essa máquina foi construída por volta de 100 a.C e afundou 35 anos depois.

A máquina é composta por pelo menos trinta rodas denteadas. Ainda não é clara a função de todas suas engrenagens. O que se sabe é que a máquina de Anticítera deve ter sido utilizada como uma espécie de calendário, prevendo eventos astronômicos (eclipses, por exemplo) e jogos pan-helênicos (como os de Nemeia e as Olimpíadas). Isso foi deduzido com ajuda das inscrições encontradas em seu corpo. Acredita-se que o mecanismo deve levar em conta em seus cálculos correções de movimentos da Terra com relação ao céu, como precessão e nutação.

O impressionante dessa história é que não se esperava que houvesse tecnologia para uma arquitetura tão elaborada pelo menos até mil anos depois da (suposta) construção dessa máquina. Máquinas sofisticadas como essa e construídas na Idade Antiga devem ter sido mantidas em segredo por políticos e militares da época, por isso não há outros registros dessa produção.

Quase cem anos de pesquisas no sentido de desvendar o mistério de todo o mecanismo de Anticítera não foram suficientes para conhecê-la por completo. Mesmo assim, não se sabe a quem creditar a invenção e montagem da máquina, o mais antigo computador que já se teve notítica. Sua descoberta pela civilização contemporânea foi um mero acaso: não fosse a busca por tesouros em embarcações afundadas, seríamos ainda mais ignorantes sobre a vida daqueles povos.

Dois exemplos Inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Dois exemplos de inscrições que revelam um manual de instruções, descrevendo ciclos, mostrador e funções do mecanismo.

Isso mostra como não temos tanto controle sobre nosso mundo quanto pensamos. Por mais elaborado que seja nosso método científico (e por maior que seja nossa crença nele), somos incapazes de desvendarmos tudo o que se passou, assim como não temos como garantir que as civilizações futuras saberão o que acontece nos dias de hoje.

Terceiro lugar no Prêmio ABC para blogs científicos

setembro 21, 2009

O Café com Ciência ficou em terceiro lugar na votação dos melhores blogs de divulgação científica organizada pelo Anel de Blogs Científicos, na categoria Química, Física, Astronomia, Matemática e Computação. O resultado da votação pode ser visualizado aqui.

Gostaríamos de agradecer não apenas a quem votou em nosso blog mas a todos que nos acompanham de perto.

Esperamos que essa notícia seja uma das belas flores que anunciam o equinócio de amanhã, o primeiro das muitas primaveras pelas quais o Café com Ciência ainda atravessará.