A Evolução ao Vivo e em Cores

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A abstração é algo intrínseco do ser humano? Parece que não. Quando nos deparamos com os problemas do cotidiano, precisamos pensar em uma alternativa para solucioná-los. Ao mesmo tempo, os animais ditos irracionais usam de seus dotes físicos herdados através de anos e anos de evolução biológica para solucionar desde a mais simples escalada em uma árvore para pegar um fruto, a uma boa escapada de um predador.

Também já é bem conhecido que em qualquer ambiente é necessário estar a ele adaptado. Caso contrário, a espécie em questão estará fadada ao fracasso.

Recentemente, foi descoberto no Estado brasileiro do Piauí, município de Gilbués, alguns primatas (em particular, macacos-prego) que se utilizam de ferramentas para obtenção de alimentos.

Em algum momento, pelo menos um dos membros do grupo (muito provavelmente não da geração atual) percebeu que se poderia quebrar o coquinho de algumas palmeiras utilizando pedras. Talvez tenha presenciado o rolar de uma pedra de algum paredão próximo esmagando um desses coquinhos em sua passagem. De qualquer forma, o registro foi bem assimilado e o tal indivíduo resolveu experimentar, testar com suas próprias forças, a arte de extrair os nutrientes de um coquinho.

Agora, os mais novos aprendem com os mais velhos esta técnica. Observam, e reproduzem em algum momento posterior. Nunca antes tal comportamento tinha sido observado em primatas inferiores. Já era conhecido em alguns Chimpanzés africanos que estão, evolutivamente falando, muito mais próximos de nós. Nas Américas e com pequenos primatas e sem influência humana, nunca antes.

Uma situação foi bem reportada na revista National Geographic. Reproduzindo o texto da revista: “O macaco-prego desceu da árvore, caminhou pelo chão em postura bípede até uma palmeira baixa, coletou um coquinho e levou-o correndo a uma rocha plana. Depois, ainda apoiado sobre duas pernas, ajeitou o fruto sobre a superfície dura, ergueu acima da cabeça com as duas mãos uma pedra solta e desferiu um golpe certeiro sobre o coquinho. Tudo muito coordenado. Repetiu as pancadas até rachar a casca e expor a castanha nutritiva, sua refeição. Outros indivíduos do bando esperavam a vez para quebrar os próprios frutos naquela bigorna natural enquanto filhotes observavam atentos.”

Tem que ficar, bastante, claro que nada disso é trivial. Se o fosse, todos os animais superiores teriam tal tipo de habilidade em se utilizar de instrumentos com tamanha perspicácia. Estamos falando em um salto evolutivo presenciado ao vivo e em cores. Um primata escolhe o fruto que mais lhe agrada, toma uma pedra cujo peso possa ser suficiente para esmagar o tal fruto, planeja tudo e executa enquanto outros mais jovens aprendem. Tudo isso não se trata de atividades repetitivas onde o executor não faz a menor ideia do que está fazendo. Houve uma interpretação de um fenômeno, e sim, surgiu uma ideia. “Por que não utilizar algumas pedras para quebrar aqueles deliciosos coquinhos e me fartar?” Cada passo de uma vez, a evolução dá as cartas.

Simplesmente sensacional.

Macaco-prego se prepara para golpear um pequeno fruto de palmeira, enquanto um macaco mais novo observa com atenção (fonte: National Geographic).

Macaco-prego se prepara para golpear um pequeno fruto de palmeira, enquanto um macaco mais novo observa com atenção (fonte: National Geographic).

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