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Paradoxo da Pedra

janeiro 18, 2010
Rocha

Uma rocha demasiadamente grande e pesada?

Coloquei à venda nas “Casas do Abreu, que o fabricante não dá garantias nem eu”, uma máquina formidável. Trata-se de um robô perfeito projetado para sempre obedecer às ordens de seu dono e somente às dele!

Porém, em uma manhã ensolarada, enquanto se bronzeava em torno de sua piscina semiolímpica, Severina Xique-Xique ordenou que seu escravo perfeito lhe trouxesse um copo de limonada que ficara esquecido na cozinha. Para sua surpresa, o robô não se moveu um único centímetro. Até aparentou exibir um sorriso sarcástico. Para deixá-la ainda mais pasma, Dona Gertrudes (sua sogra megera) manda-o pegar sua dentadura na pia do banheiro. Segundo as promessas do fabricante, o robô deveria, obrigatoriamente, obedecer à Severina, ao mesmo tempo em que deveria, incondicionalmente, rejeitar quaisquer ordens de terceiros (inclusive de sogras). Todavia, o robozinho sai em disparada atrás da dentadura da feliz sogra. Em choque, Severina quase desmaia na piscina.

Obviamente, o robô apresentou mal funcionamento. Pergunto: de quem é a culpa? Do robô? Que deve ser castigado com choques elétricos até voltar a funcionar corretamente. Ou, seria de quem o projetou/fabricou? Acho que ninguém teria dúvidas de que o projetista (eu no caso) teria que voltar à prancheta e refazer as contas. O interessante é que este raciocínio tão simples e óbvio não é aplicado em outras situações similares.

Esta estória sempre me vem à mente quando tentam explicar as desgraças humanas utilizando como pano de fundo a religião e seus mitos fabulosos. A trama começa com o argumento de que um erro (que costumam chamar de pecado) cometido por um de casal há muito tempo manchou nosso futuro. E tudo, absolutamente tudo, de ruim que a humanidade já passou, passa e passará está a este erro relacionado. Este tipo de ideia ajuda a encobrir a falta de evidência de um ser onipotente e que, portanto, poderia interagir em nossos momentos mais difíceis.

O interessante é que nesta situação, o mesmo raciocínio da estória do robô nunca é aplicado. Vamos lá: supondo que originalmente “fomos projetados” para sermos perfeitos, mesmo com o livre arbítrio (que seria um tipo de inteligência artificial ao robô), deveríamos seguir à risca o programado (não matar, não roubar, não assistir o BBB…). E, se não seguimos o que fora especificado a priori, pergunto: “De quem é a culpa?”

Existe um paradoxo sobre a existência de um ser onipotente. Seja esse ser Jeová, Alah ou Padre Cícero.

Em uma de suas variantes, ele afirma: “Se há algum ser onipotente, ele deve ser capaz de criar uma rocha tão grande e pesada que nem mesmo ele seria capaz de erguê-la”.

O paradoxo está no fato de que se tal ser conseguir tirar essa pedra (ou aerolito, como prefere o Vinicius Placco) da cartola ele não terá poder para levantá-la. Se, por outro lado, o misterioso mestre dos deuses não conseguir criar tal pedra, já de antemão será gongado pelos jurados. Sua provável onipotência falhará em qualquer situação.

A pergunta que não sai de minha cabeça é: o Haiti foi, ou é, alguma pedra demasiadamente grande e pesada? Ou o provável ser onipotente anda mais preocupado com outras coisas, como esta, esta ou esta outra. Acho que não custa perguntar se quisermos as respostas.