Paradoxo da Pedra

by
Rocha

Uma rocha demasiadamente grande e pesada?

Coloquei à venda nas “Casas do Abreu, que o fabricante não dá garantias nem eu”, uma máquina formidável. Trata-se de um robô perfeito projetado para sempre obedecer às ordens de seu dono e somente às dele!

Porém, em uma manhã ensolarada, enquanto se bronzeava em torno de sua piscina semiolímpica, Severina Xique-Xique ordenou que seu escravo perfeito lhe trouxesse um copo de limonada que ficara esquecido na cozinha. Para sua surpresa, o robô não se moveu um único centímetro. Até aparentou exibir um sorriso sarcástico. Para deixá-la ainda mais pasma, Dona Gertrudes (sua sogra megera) manda-o pegar sua dentadura na pia do banheiro. Segundo as promessas do fabricante, o robô deveria, obrigatoriamente, obedecer à Severina, ao mesmo tempo em que deveria, incondicionalmente, rejeitar quaisquer ordens de terceiros (inclusive de sogras). Todavia, o robozinho sai em disparada atrás da dentadura da feliz sogra. Em choque, Severina quase desmaia na piscina.

Obviamente, o robô apresentou mal funcionamento. Pergunto: de quem é a culpa? Do robô? Que deve ser castigado com choques elétricos até voltar a funcionar corretamente. Ou, seria de quem o projetou/fabricou? Acho que ninguém teria dúvidas de que o projetista (eu no caso) teria que voltar à prancheta e refazer as contas. O interessante é que este raciocínio tão simples e óbvio não é aplicado em outras situações similares.

Esta estória sempre me vem à mente quando tentam explicar as desgraças humanas utilizando como pano de fundo a religião e seus mitos fabulosos. A trama começa com o argumento de que um erro (que costumam chamar de pecado) cometido por um de casal há muito tempo manchou nosso futuro. E tudo, absolutamente tudo, de ruim que a humanidade já passou, passa e passará está a este erro relacionado. Este tipo de ideia ajuda a encobrir a falta de evidência de um ser onipotente e que, portanto, poderia interagir em nossos momentos mais difíceis.

O interessante é que nesta situação, o mesmo raciocínio da estória do robô nunca é aplicado. Vamos lá: supondo que originalmente “fomos projetados” para sermos perfeitos, mesmo com o livre arbítrio (que seria um tipo de inteligência artificial ao robô), deveríamos seguir à risca o programado (não matar, não roubar, não assistir o BBB…). E, se não seguimos o que fora especificado a priori, pergunto: “De quem é a culpa?”

Existe um paradoxo sobre a existência de um ser onipotente. Seja esse ser Jeová, Alah ou Padre Cícero.

Em uma de suas variantes, ele afirma: “Se há algum ser onipotente, ele deve ser capaz de criar uma rocha tão grande e pesada que nem mesmo ele seria capaz de erguê-la”.

O paradoxo está no fato de que se tal ser conseguir tirar essa pedra (ou aerolito, como prefere o Vinicius Placco) da cartola ele não terá poder para levantá-la. Se, por outro lado, o misterioso mestre dos deuses não conseguir criar tal pedra, já de antemão será gongado pelos jurados. Sua provável onipotência falhará em qualquer situação.

A pergunta que não sai de minha cabeça é: o Haiti foi, ou é, alguma pedra demasiadamente grande e pesada? Ou o provável ser onipotente anda mais preocupado com outras coisas, como esta, esta ou esta outra. Acho que não custa perguntar se quisermos as respostas.

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11 Respostas to “Paradoxo da Pedra”

  1. Marcellus Says:

    Seguindo a linha da onipotência, será que Deus tem o poder de criar outro Deus? E porque não, criar um Deus mais poderoso que ele. Será que Deus pode se destruir? Ele pode deixar de existir se quiser?

    Não podemos resolver os paradoxos, Deus deveria, mas então, não seriam mais paradoxos.

  2. Alessandro Moisés Says:

    Boa, gostei!😀

  3. Gerson Machado de Avillez Says:

    A questão em questão está na perceptivdade rançosa de alguns, tal proposta soaria obviamente em acordo com a oniciência como um Deus criar o problema, ou seja, irracionalmente estúpido e idiota. Por isso digo que Deus (verdadeiro) não cria contradições, o que é este o caso, mas sim paradoxos do qual sustenta sua própria existência (existente por si só). Tal concepção sustenta uma clara diferença entre contradições e paradoxos onde as contradições são auto-anulativas pertencente a seres de igual modo (homo nulus se preferir) ao passo que os paradoxos se auto-sustentam, o que não é o caso.
    A criação de leis necessárias ao universo, não obstante, Ele mesmo em seu pressuposto se submente em imparcialidade tal como o livre-arbítrio a nós dado em que jamais interfere diretamente, pois até mesmo as ditas manifestações sobrenaturais não seriam contra-naturais mas sobre as leis de modo além do poder humano.

  4. Stephen Dedalus Says:

    Caro Gerson Avillez,

    Você sabe se comunicar em português moderno e inteligível?

    Um abraço!

  5. Marcellus Says:

    Caro Gerson,

    As questão não foram respondidas, por seu comentário, mostram apenas a fragilidade dos fatos, nesse caso a religião, quando não pode ou não consegue responder a uma questão esconde-se em retóricas.

  6. Giovani Says:

    Adorei o “não assistir o BBB”, mas continuo acreditando que Deus não tem nada a ver com estes acontecimentos, sempre houve tremores na Terra e não é por causa de um acontecimento como este que devemos perder a fé em Deus e sermos arrogantes pensando que nada de ruim deve acontecer conosco, as religiões não são um bicho de sete cabeças como muitos cientistas afirmam, devemos nos preocupar com a situação dos haitianos após esse acontecimento, e não ficar questionando se Deus existe ou não. Mas mesmo assim gostei da sua reflexão sobre este tema.

  7. Daniel Moser Says:

    Adoraria debater o assunto, mas talvez aqui não seja o canal adequado.Já que o nome do blog é Café com CIÊNCIA, quero deixar o meu comentário…
    Sobre a existência ou não de Deus, indico o livro do astrônomo Camille Flammarion, “Deus na Natureza” – “O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se numa convicção -, par­ticularmente quanto à existência de um coordena­dor do mundo e da destinação dos seres – que, quando não encontra uma fé satisfatória, experi­menta a necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus não existe e busca, então, repousar o espírito no ateísmo e no niilismo. (…) Pretendem os nossos materialistas atuais que a matéria existe de toda a eternidade, revestida de umas tantas propriedades, de certos atributos e que essas propriedades qualificativas da matéria bastam para explicar a existência, estado e con­servação do mundo. (…) A exposição precedente não é fruto direto do estudo científico, mas procura insinuar-se com essa aparência.”
    Link: http://www.4shared.com/file/61210457/a550c1c7/Deus_na_Natureza.html
    Como o livro é de 1866, não há problemas na distribuição.
    Sobre o problema da justiça divina (tragédia no Haiti), a pergunta pode ser colocada da seguinte forma: “Se Deus existe, como se processa sua justiça?”. Se avaliarmos a questão sob o ponto de vista de uma única vida, realmente Ele seria injusto. Entretanto, todas as crenças reencarnacionistas afirmam que a justiça se opera nas vidas futuras, como na idéia de Karma – em contraposição a “fé” defendida pelas religiões abraâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), onde todos os dramas humanos são proveniente da vontade de Deus (inclui-se aqui a expiação do pecado original).

  8. Zé Colmeia Says:

    Daniel,
    nosso camarada Flammarion diz que
    >”O homem tem, por natureza, uma necessidade tão imperiosa de firmar-se numa convicção(…) que, quando não encontra uma fé satisfatória, experimenta a necessidade de se demonstrar a si mesmo que esse Deus não existe e busca, então, repousar o espírito no ateísmo e no niilismo”
    Acho um tanto ousado essa hipótese da natureza humana ter essa propriedade.
    Muito se fala da natureza humana ser assim ou assado, mas é muito mais plausível que essa necessidade de firmar uma convição seja tão cultural quanto adotar uma religião, achar evidente que o homem possui livre arbítrio ou até mesmo saborear uma xícara de café.
    Me parece que tudo que trata da natureza humana não passa de postulados, e assim podemos refutar essa natureza a torto e a direito (ou não?). Diria até que “natureza do homen” seja um efeito de nossa linguagem, portanto só pode ser tomado como verdade em um dado discurso e não como uma verdade em si.
    Aliás, essa natureza humana costuma ser evocada para legitimar uma série de pressupostos – inclusive quanto a naturalidade do homem viver em busca do conhecimento, o que normalmente é usado pelo cientificistas contra outras formas de se ver o mundo que não privilegiam o olhar científico.
    Particularmente, acho mais prudente (embora menos confortável) questionar essa dita natureza humana ao seu limite e ficar com um pé atrás quanto a ela.
    Abraços

  9. Mauro Cafundó de Morais Says:

    De conceito de onipotente podemos inferir que Deus é também onipresente. Portanto, se Deus está em todos os lugares, Ele também está na própria pedra; Ele é a pedra.
    Matematicamente, esse paradoxo é inválido. É como se afirmássemos que INFINITO (tamanho da pedra) > INIFINITO (poder de Deus). Mas enfim, esta é apenas a minha opinião. Talvez não seja a mais adequada, mas é a que me agrada.rs!
    Abrass!

  10. James Akciid Says:

    Muito interessante as questões abordadas, mesmo assim não me faz desistir de acreditar na existência de um Deus onisciente/presente/potente, se nós que somos humanos fazemos o que queremos, Ele esta limitado a fazer o que quiser sem colocar em risco suas características de Deus, e quanto aos problemas do mundo, como por exemplo desastres naturais é uma longa historia, mas se você duvida da existência Dele, como eu poderia conversar contigo sobre o principio de justiça que rege o universo.

    (só mais uma coisinha . . . o site de vc´s é muito bom, sou muito fã de astronomia!!! Estão de parabéns!!)

  11. criticareligiosa Says:

    O paradoxo da pedra contém uma petição de princípio: ao partir da premissa que pode existir algum objeto que não pode ser movido por um ser onipotente, você já parte da premissa que o ser onipotente não é onipotente (ou conseguiria mover qualquer objeto).

    Em outras palavras: você parte do princípio que o ser onipotente não é onipotente, e chega à conclusão que ele não é onipotente (!). Estranho seria *não* chegar a essa conclusão…

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