A grama é sempre mais verde do outro lado da cerca?

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Tendo em vista que a minha estadia na terra do tio Sam está para terminar e que, devido ao excesso de trabalho, minha frequencia de posts foi bem abaixo do esperado, resolvi escrever um ultimo texto antes de voltar para casa.

O título acima é uma tradução livre da frase The grass is always greener on the other side of the fence. Indo até onde minha inteligência permite, eu entendo essa frase quase como uma bronca, ou seja, tudo o que é do outro é melhor do que o seu. Não é uma questão de querer melhorar, de se espelhar nas boas ações do vizinho para melhorar as suas; é uma questão  (com o perdão da palavra) que chega perto da inveja.

E porque escrever tudo isso aqui? Muitas pessoas, sem ter a base correta para falar de certos assuntos, tendem a achar que tudo que existe e vem do primeiro mundo (nesse caso, os Estados Unidos) é melhor, até mesmo em ciência. Bom, depois desse mês trabalhando aqui, posso dizer se, pelo menos dentro da Astronomia, a grama é realmente mais verde aqui.

Não, a grama não é mais verde aqui. Em matéria de estrutura, investimento e incentivo à pesquisa, eu diria que o Brasil ainda perde de lavada. Mas quando se trata de qualificação de pessoal, nível de trabalhos publicados e empenho individual em pesquisa, estamos muito bem, obrigado. Me arrisco até a dizer que eu algumas áreas bem específicas nossa grama é ainda mais verde que a deles.

A dinâmica me pareceu muito similar. Alunos de pós-graduação são sempre alunos de pós-graduação. A grande maioria longe de casa, enfrentando problemas para se estabelecer em um novo instituto, ganhar dinheiro para pagar aluguel, trabalhando duro para conseguir um pós-doc e, quem sabe um dia, um emprego permanente. Porém, quando algum deles precisa de, por exemplo,  um laptop novo, aí a competição fica injusta. É revoltante ver o tamanho da parcela que pagamos de impostos…

Um ponto interessante que eu reparei aqui (além do péssimo café-água-de-batata) foi a questão de horário. No Brasil (pelo menos no instituto onde eu faço pesquisa), é possível encontrar gente trabalhando desde antes das 7h até 22-23h. Aqui, pelo contrário, as coisas funcionam das 9-9h30 às 17h. Tudo que deve ser feito no dia tem que caber nesse horário. Bom, deve-se levar em conta que alguns continuam a trabalhar fora desse horário em casa e no final de semana. Outro fator limitante é que estamos no verão aqui. Realmente o escritório não é tão atrativo quando você tem uma temperatura de 25-30 graus lá fora, levando em conta que no inverno o frio é tenso (a sensação chega a -20 graus). Bom, isso foi apenas uma constatação. Nada de julgamentos (exceto pela questão do café).

Tive a oportunidade de assistir à teses de doutorado, seminários e de interagir com professores e alunos. Os trabalhos apresentados são de muita qualidade, a mesma mostrada nos trabalhos feitos no Brasil. Aqui é mais comum os alunos (pelo menos da Astronomia) fazerem um doutorado direto em 5 anos (com 2-3 anos para disciplinas e monitoria e 3-2 anos de pesquisa) do que um mestrado e depois um doutorado. E sempre com aquela pressão (que é igual em todos os lugares do mundo) de ter que publicar o maior número  possível de papers…

Resumindo: em se tratando de pesquisa em Astronomia, a grama do Brasil é tão verde quanto a dos Estados Unidos, e os jardineiros tem  mesma capacitação. As principais diferenças são: o primeiro mundo tem (muito) mais dinheiro; investe mais para cuidar do próprio jardim e; o número de jardineiros deles (ainda) é bem maior que o nosso…

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2 Respostas to “A grama é sempre mais verde do outro lado da cerca?”

  1. Marcellus Says:

    É uma pena. Acho que no Brasil, de um modo geral, temos que nos esforçar mais para conseguir chegar no nível de competitividade internacional. Justamente por causa da falta de incentivo por parte do governo e das empresas.

    Acho que muitos brasileiros se tivem as mesmas oportunidades dos americanos, por exemplo, seriam também doutores, outros iriam terminar seus estudos e iriam procurar por áreas de pesquisa.

    O lado bom é que os poucos que se tornam doutores, aqui no Brasil, fazem juz a esse título.

    Parabéns pelo post.

  2. Vinicius Placco Says:

    Olá Marcellus,

    É, acho que se as oportunidades fossem equivalentes o Brasil estaria muito melhor colocado do que hoje. Mas existem tantas e tantas áreas onde o país precisa de incentivo que não deve ser fácil deixar todos satisfeitos.

    Eu concordo: nossos doutores são Doutores!

    Obrigado pelo comentário!

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