Analogia da semana – conhecimento e meio interestelar

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NGC6543

Nebulosa Olho-de-gato

Minha experiência com o curso de licenciatura, limitada a duas disciplinas recém concluídas, foi excelente. Mostrou que nesse curso há espaço para reflexões sobre como acontece a construção do conhecimento, algo que me foi raro durante o bacharelado. Em uma dessas disciplinas fez-se uma importante (porém negligenciada) constatação de como evolui a ciência: por maior que seja a contribuição de cada um de seus agentes – tanto os gênios quantos os “meros mortais” – o conhecimento cinetífico se desenvolve agregando em si ideias pré-existentes, evoluindo de uma estrutura simples para outra mais complexa do que a primordial.

Veja por exemplo o conceito do éter, um meio material em que se acreditava ser essencial para a propagação da luz. Por que a luz não se propagaria no vácuo, por exemplo?  Durante muito tempo se buscou na Mecânica uma explicação para diversos fenômenos; com a interpretação da natureza ondulatória da luz não foi diferente. Todos os fenômenos ondulatórios conhecidos até então – som, ondas do mar, etc. – exigiam um meio material para sua ocorrência. Dessa forma, esperava-se que a luz, então encarada como uma onda, necessitasse também de um meio para sair de um ponto e chegar a outro. Com o surgimento do conceito de campo eletromagnético, a busca pelo éter onde a luz se propagaria deixou de ser necessária. No entanto, um meio etéreo ainda é evocado de forma recorrente na tentativa de se explicar outros fenômenos. É o que acontece atualmente com a expansão acelerada do universo, da qual se acredita que o éter (ou quintessência) seja o um responsável em potencial.

A tentativa mecanicista (pressupondo a existência de um meio material) de se explicar o comportamento ondulatório da luz representa muito bem como o conhecimento é construído a partir de ideias já concebidas, apropriadas e organizadas criativamente. Nem mesmo Einstein, em sua elegante teoria da relatividade restrita, deixou de utilizar conceitos e ideias que já haviam sido formuladas por outros cientistas – como a constância da velocidade da luz, experimentalmente comprovada por Michelson e Morley, e a contração do espaço, interpretação dada por Lorentz. É importante deixar claro que ideias inovadoras existem, embora todas elas sejam absolutamente influenciadas pelo contexto em que surgiram. Ou seja, a produção do conhecimento nunca ignora o que já foi criado, pois se apropria dos conceitos estabelecidos na cultura onde tal produção se insere. É nesse sentido que o conhecimento evolui de um estado simples para outro complexo, reciclando ideias de acordo com um dado contexto.

A evolução da ciência com base em um conhecimento já estabelecido é análogo ao processo evolutivo do espaço onde nascem e morrem as estrelas, o chamado meio interestelar.

As estrelas são as responsáveis pela reciclagem do meio interestelar: nascem de um gás composto por átomos de elementos químicos presentes naquele ambiente, transforma esses átomos em outros através de alguns processos de produção (assim como o Sol tranforma hidrogênio em hélio em seu núcleo) e antes de morrerem devolvem parte do material transformado ao meio ambiente onde nasceram (como fazem as nebulosas planetárias, objetos do tipo apresentado na figura acima). Tal transformação faz com que o meio interestelar evolua de uma composição química relativamente simples para uma mais complexa.

Ou seja, a humanidade recicla o conhecimento assim como as estrelas reciclam a composição química do meio interestelar. Curioso, não é? Pois isso é apenas uma parte do muito que ainda temos para aprender com as estrelas.

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6 Respostas to “Analogia da semana – conhecimento e meio interestelar”

  1. ROCA Says:

    Bom artigo!

    Excelente blog!

    Agradecemos a citação de nosso blog.

    Grato.
    ROCA

  2. tiagozecolmeia Says:

    Obrigado, ROCA!

  3. Stephen Dedalus Says:

    Caro Tiago,

    Cuidado! Do jeito que você escreveu parece que nunca há criação de material novo no meio científico: “o conhecimento é construído a partir de ideias já concebidas, apenas apropriadas e organizadas criativamente”. Oras, mas alguém deve ter tido as idéias em algum ponto (elas não apareceram do nada, ou estiveram sempre por aí). Ou seja, criatividade não consiste apenas em reagrupar idéias de forma criativa – e na ciência há, de vez em quando, o lampejo de novas idéias e conceitos.

    Um abraço!

  4. Marcellus Says:

    Tiago, devo concordar com o Stephen, segundo entendeu ele, essa analogia relega o conhecimento àquela velha frase, “na vida nada se cria tudo se copia”.

    Aprendendo sobre a evolução da humanidade tanto ciêntificamente quanto nas artes podemos entender que os saltos no conhecimentos são mais significativos que as transformações dos elementos.

    Porém podemos para pensar de maneira diferente. O que ainda não sabemos ou não conhecimos podem vir a ser “lampejo de novas idéias e conceitos”, assim como novas descoberta no universo possam mudar nossos conceitos. Afinal de contas, analogias não precisam ser 100% analogas.

  5. tiagozecolmeia Says:

    Caros Stephen e Marcellus,

    concordo plenamente com o apontado por vocês.
    A frase citada por Stephen foi muito mal formulada por mim. Para vocês terem ideia, com ela eu quis passar justamente a mensagem oposta.
    Obrigado pelos comentários. Alterei o texto a fim de deixar essa sutileza sobre a criação das ideias um pouco mais clara. Ainda assim, eu poderia ter tomado o cuidado para o espírito da analogia não ter ficado com essa cara tão “stritu sensu”, e não forçado esses 100% de correlação.
    Um abraço

  6. Os observatórios espaciais no ano internacional da Astronomia « Café com Ciência Says:

    […] Trata-se da região central da nossa Galáxia, que usualmente não a vemos na luz visível devido ao obscurecimento causado pelo gás e pela poeira do meio interestelar. […]

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