1453 d. C.

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O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

O Sacrifício de Isaac (Caravaggio ca. 1601-02, Galleria degli Uffizi, Florence )

A Idade Média, que tratei em um post anterior (476 d.C.), encerrou-se em 1453 d.C. com a queda do Império Bizantino. E, não foi em vão que a descoberta da América, e logo após a descoberta do Brasil, aconteceu apenas algumas décadas depois da queda de Constatinopla. Afinal de contas, em termos históricos, de 1453 até 1492 (descobrimento da América) são menos de 40 anos.

Foi devido ao Bloqueio da passagem por Constantinopla (e região) que os europeus se viram forçados a encontrar uma outra forma de continuar o comércio com as Índias. Os Espanhóis achavam que, sendo a Terra redonda, poder-se-ía alcançá-las indo no sentido contrário, para Oeste. Os Portugueses planejaram o que fora feito milhares de anos antes pelos fenícios, o périplo da África. Se a Terra não fosse redonda eles poderiam ir parar num mundo de monstros ou cair no abismo onde os oceanos vertem toda sua água.

Colombo, italiano que liderou a esquadra espanhola, alcançou a América e supõe-se que tenha morrido sem saber que, na verdade, o que ele fez não foi “simplesmente” dar outra forte comprovação quanto à esfericidade da Terra, mas sim descobriu um novo continente, o Novo Mundo. A partir daí, os portugueses quiseram sua parte na nova terra e “descobriram” o que hoje é o Brasil.

Tudo isto porque uma cidade fora tomada por inimigos alguns anos antes. Porém esta importante cidade era o elo entre o Oriente e uma Europa que estava se reformulando após séculos nas mãos dos árabes. A Reconquista da península Ibérica e a consequente formação dos primeiros estados nacionais (Portugal, Espanha, Países Baixos…) exigiu uma maior demanda de produtos de luxo para o mercado interno que emergia.

Historicamente localizados, podemos ver as conseguências destas transformações na Ciência. Por volta desta nova era (Idade Moderna) surgiu a Renascença, cujo nome já nos trás a noção de nascer novamente. O que nasceu novamente foi o pensar humano, a liberdade de questionar-se, de procurar entender a natureza. A liberdade de expressar-se nas pinturas, nas escrituras, nas esculturas. Claro que falar de liberdade para fazer, pensar ou agir nos idos de 1500, não teria uma boa contrapartida nos dias atuais. Mas quando tratamos da era que ficara para trás, as mudanças foram de uma importância sem precedentes.

A era de ouro perdida na época dos gregos ressurgia nas mãos e mentes brilhantes de Galileu Galilei (1564-1642), Leonardo da Vinci (1452-1519), Michelangelo (1475-1564), Caravaggio (1571-1610). Um pouco mais tarde, mas ainda na era Moderna: Newton (1643-1727), Leibniz (1646-1716), Euler (1707-1783) e tantos outros que não caberia citar todos aqui, revolucionaram a Física, a Matemática, a Astronomia e a sociedade como um todo. É só dar liberdade para o ser humano buscar respostas as suas indagações, ou mesmo liberdade para questionar-se, que as revoluções no conhecimento vêm como simples consequência.

Evidentemente que não cabe só ao acontecido em Constatinopla (hoje Istambul) toda essa reviravolta, mas o ponto de partida foi lá, o pontapé inicial que exigiu mudanças nas estruturas do poder na Europa. Países antes sem expressão, como Portugal e Espanha, devido a suas posições estratégicas no Atlântico e Mediterrâneo, passaram a ter grande importância. Apoiados por uma Inglaterra que se erguia a base do mercantilismo e dos Países Baixos que lucravam com o transporte de matéria-prima originária das colônias no Novo Mundo, a Europa começava a impor no resto do mundo suas culturas. E tudo isso exigia uma logística e engenharias que precisaram ser repensadas e constantemente renovadas devido à competição entre as novas potências que surgiam. E a ciência pegou carona nesta empreitada que começava a redesenhar o mundo.

Após o refortalecimento das monarquias dos Estados Nacionais, com contrapartidas autoritárias para com suas respectivas populações, em 1789 d.C. o mundo sofre outro abalo que redireciona o rumo da História, ocorre a Revolução Francesa. Neste momento surgia a Idade Contemporânea.

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3 Respostas to “1453 d. C.”

  1. Marcellus Says:

    Bem interessante o seu ponto de vista. Acho que volta a busca pelo conhecimento que teve origem no califado da península Ibérica – de 929 – 1031 da Era Comum. Um califado que ajudou a disceminar a filosofia grega, até então perdida na Europa, traduzindo do árabe, de volta para o latim. Essa contribuição que trouxe de volta a Europa o pensamento ocidental e o regurgimento das cidades também contribuiram para o Renascimento.

    O blog é muito bom com assuntos que aprecio muito, parabéns.

    • Alessandro Moisés Says:

      Ola Marcellus, obrigado pelo elogio ao texto.

      Sempre que posso dou uma olhada nos blogs que mais me chamam a atenção e o seu está entre eles.

      Na verdade, quando comecei a escrever esta série de posts (começou com 476 dC, agora com 1453 dC e logo logo vem outro) pensei em dar uma visão histórica do mundo no momento em que ocorriam as revoluções científico-culturais. Quando estudamos História na escola, não vemos a parte do desenvolvimento científico. Nestas datas cruciais, o pensamento humano sofreu reviravoltas, levando com ele as artes, ciências e tudo o mais. Discutir a História, ajuda a enraizar as noções sobre o conhecimento humano, inclusive a Ciência.

      Apesar de não termos muito espaço, pois uma postagem em um blog não deve ser demasiadamente longa, procuro cumprir com meu papel.
      E você tem razão, a influência árabe foi fundamental durante a Idade Média. E ainda hoje achamos suas influências, em particular em palavras como almofada ou alambique, nas abóbodas espanholas, mesmo posteriormente à época da Reconquista e que ainda vemos lá na Espanha ou em suas ex-colônias…

      Bom, é isso, espero que curta as novas postagens…
      Um grande abraço.

  2. 1789 d.C. – A queda da Bastilha « Café com Ciência Says:

    […] civilização ocidental (476 d.C. – Queda do Império Romano do Ocidente e 1453 d.C. – Tomada de Constantinopla), terminarei esta série com a Queda da Bastilha em […]

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