Posts com Tag ‘Café Evolutto Tradicional Coxupé’

Imagem da semana: Saturno gordinho

março 18, 2010

Não, você não esqueceu de colocar os óculos nem precisa ajustar os configurações do monitor. A foto acima está mesmo um pouco fora de foco. Agora, porque diabos alguém colocaria uma fotografia horrível como essa de Saturno e seus anéis quando você pode apreciar algo como isto?

Bom, eu só coloquei esta imagem porque ela foi tirada pelo àsno na fotografia que vos escreve. Sim, eu mesmo, com o auxílio da minha câmera digital tabajara (que hoje mais parece um apoio de porta moderno), na época da minha visita ao Observatório Pico dos Dias. Eu confesso que foi a primeira vez que vi Saturno e seus anéis assim “tão de perto”. Fiquei com aquela sensação de “será que alguém colou essa figura no telescópio?” e achei melhor registrar o momento. Por mais que a imagem seja muito ruim quando comparada com a do link acima, garanto que o impacto (pelo menos para mim) foi muito maior. Fiquei tentando imaginar como deve ter sido essa sensação para alguém que apontou seu telescópio rudimentar para esse ponto brilhante no céu sem ter a menor idéia do que iria encontrar.

Bem legal. Também é possível observar, à direita do planeta, uma pequena mancha. Na verdade não é sujeira que caiu na lente, e sim uma das luas de Saturno. (Melhor clicar na foto e ver a versão “um pouco melhor”).

Analogia da Semana – Agulha no palheiro

março 3, 2010

Versão 1: Dentro do Celeiro

Como eu procuraria uma agulha no palheiro? Bom, primeiro preciso de uma forma prática para diferenciar a agulha de um pedaço de palha (assumindo que ambos tenham a mesma forma geométrica). Vou supor que a agulha em questão seja facilmente detectada por um detector de metais da ACME que eu comprei. Dessa forma, posso utilizar as diferenças na composição desses dois objetos em meu favor, pois o objeto de interesse será detectado pelo aparelho. Então, só preciso pegar meu detector e fazer uma busca sistemática em locais onde o acesso ao palheiro seja mais fácil.

Versão 2: Dentro da Galáxia

Como eu procuraria uma estrela pobre em metais no halo da Galáxia? Bom, primeiro preciso de uma forma prática para diferenciar a estrela pobre em metais de uma estrela “normal” (assumindo que ambas tenham a mesma massa). Vou supor que a estrela pobre em metais em questão seja facilmente detectada por um telescópio com espelho de 4m de diâmetro. Dessa forma, posso utilizar as diferenças na composição desses dois objetos em meu favor, pois o espectro do objeto de interesse apresentará uma diferença em relação aos demais. Então, só preciso pegar meu telescópio e fazer um survey em porções do céu menos obscurecidas pela poeira interestelar.

Foi examente esse o procedimento utilizado por Norbert Christlieb e colaboradores em seu estudo publicado em 2008 no periódico Astronomy e Astrophysics. Eles utilizaram uma amostra de 4.5 milhões de estrelas observadas no halo da Via Láctea (nem vou comentar aqui o trabalhão que foi observar tudo isso). Assim, tendo todos esses espectros estelares, como diferenciar a quantidade de metais presentes em cada estrela?

ResearchBlogging.org

Existe uma certa característica presente em espectros tomados em baixa resolução que pode colaborar para essa procura. Estrelas de baixa massa parecidas com o Sol apresentam uma assinatura muito peculiar do átomo de cálcio uma vez ionizado (Ca II). Foi notado por estudos na década de 80 que a intensidade da linha K do Ca II (localizada em 3933 angstrons) era um indicador da metalicidade das estrelas. Assim, foi criado um índice que sistematicamente media a força desta linha em todos os espectros e, através de comparação com outros espectros de estrelas bem conhecidas, foi criada uma escala que poderia dizer (com certo grau de confiança) se uma estrela era ou não pobre em metais. O trabalho de 2008 citado acima contribuiu para encontrar 20.000 estrelas candidatas a pobres em metais dentro da amostra maior de 4.5 milhões.

Agora a pergunta: Isso tudo serve para quê mesmo?

Olha… a questão é a seguinte: Para fazer um estudo detalhado de uma estrela em especial, os astrônomos recorrem à observações em alta resolução com grandes telescópios. Porém, para conseguir tempo de observação dedicado apenas a um objeto, é necessário justificar muito bem a escolha do alvo de estudo. E, para isso, você precisa ao menos de algum indício de que seu objeto é interessante. Nesse momento é que os métodos apresentados acima são utilizados. Ou seja, partindo de uma grande amostra, você utiliza as ferramentas disponíveis para, pelo menos, criar uma subamostra menor de objetos interessantes e que possam ser elegíveis para observações em alta resolução. E se você fizer direito a lição de casa, talvez consiga achar a tal da agulha no palheiro…

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Christlieb, N., Schörck, T., Frebel, A., Beers, T., Wisotzki, L., & Reimers, D. (2008). The stellar content of the Hamburg/ESO survey Astronomy and Astrophysics, 484 (3), 721-732 DOI: 10.1051/0004-6361:20078748
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PS: Claro que eu poderia simplesmente queimar todo o palheiro e pegar a agulha em seguida, mas aí a analogia com as estrelas não ia funcionar…

TED Prize e Culinária

fevereiro 20, 2010

Para quem não conhece, o TED (Technology, Entertainment, Design) é uma fundação americana sem fins lucrativos cujo mote é: Ideas worth spreading (algo como Ideias dignas de serem divulgadas, Ideias que merecem ser espalhadas ou ainda Ideias boas pra car***). Esta fundação organiza conferências anuais com a presença de personalidades, pesquisadores e pessoas que tentam, dentro de suas especialidades, fazer um mundo melhor. Não vou citar nomes, mas garanto que muitos se surpreenderão ao ver a lista de pessoas que já passaram por lá.

A fundação oferece, todos os anos, o chamado TED Prize. É um prêmio oferecido para pessoas que realizam feitos excepcionais em suas áreas e que, em 2010, foi entregue à Jamie Oliver. Não deixe de ver o vídeo abaixo.

Eu resolvi escrever especialmente sobre o prêmio deste ano porque acompanho a trajetória deste rapaz de 35 anos, nascido nos confins do Reino Unido, desde que seus programas começaram a passar aqui no Brasil (infelizmente só na TV paga). Talvez por eu ser um cozinheiro que não sabe cozinhar (mas que aprecia muito a comida), sempre via o programa com aquela vontade de aprender, mesmo não conseguindo. O que sempre me chamou a atenção foi que Jamie sempre se mostrou uma pessoa simples, e que gosta de refeições feitas em casa, sempre com ingredientes frescos.

Porém, o prêmio veio graças a uma de suas iniciativas em defesa da comida saudável, com o foco voltado principalmente para as crianças. No vídeo acima, ele apresenta uma série de números que comprovam que, ao se tratar do assunto obesidade, é mais fácil (e barato) prevenir (com boa alimentação) do que remediar (com gastos em planos de saúde). Além disso, ele é responsável por várias outras campanhas muito interessantes, como o ministério da comida, melhoria da merenda escolar na Inglaterra e o restaurante Fifteen.

Os ganhadores sempre fazem o chamado “desejo para mudar o mundo”. E o dele foi:

“I wish for your help to create a strong, sustainable movement to educate every child about food, inspire families to cook again and empower people everywhere to fight obesity.”

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Obs1: No site oficial do rapaz é possível encontrar muitas receitas legais e simples de serem feitas. Vale a pena dar uma conferida.

Obs2: Eu recomendo fortemente que vocês – ou você, caso apenas uma pessoa leia o post – assinem o feed do TED. São divulgados por volta de 5 pequenas palestras por semana, com os mais variados temas. Bem melhor do que assistir televisão…

Obs3: Existe também uma iniciativa chamada TEDx, que são eventos independentes realizados ao redor do mundo, nos moldes da ideia original. São Paulo já tem a sua própria versão.

Imagem da semana: homenagem ao Café

fevereiro 18, 2010

A imagem desta semana é uma homenagem a este que, com todo seu aroma e sabor, faz da pós-graduação um momento agradável de nossas vidas. O que aconteceria com os relatórios semestrais, prestações de contas e observações madrugada adentro se não fosse pelo café?

O Café com Ciência existe hoje graças ao café. Qual outra bebida seria servida em uma conversa informal após o almoço? Chá de camomila? Cidra? Groselha? Você consegue imaginar um funcionário convidando o chefe para tomar uma Itubaína após o almoço? Ou até mesmo um suco de couve com chantili? Isso tudo sem falar do adicional-turbo-extra da cafeína que, como mostra a imagem acima, nos deixa sempre acordados nas horas mais difíceis! Agradecimentos ao colega Fabiô (dica 1 e dica 2) por ter mandado a imagem por e-mail.

Fica então a nossa sincera homenagem. Durante essa semana o Café com Ciência bebe Coxupé Evolutto Tradicional.

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Nota extra (e fora de contexto) sobre o carnaval: Eu sempre tenho que aguentar as pessoas me dizendo que o Brasil só começa a funcionar depois do carnaval (que nem feriado é). Tenho também que ver os sorrisos amarelos dizendo “é melhor você ligar novamente semana que vem, já que TODOS vão esticar o feriado”, além de ter os jornais contaminados por matérias sobre tudo que envolve esta maravilhosa celebração: desde o “tapa-sexo” (que, de fato, não é suficiente nem para “tapar” um dos meus dentes do juízo – que não devem ter nascido ainda em muita gente) que caiu não sei aonde até do fulano que beijou a fulaninha. Realmente, é só alegria!

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Artigo velho é que faz pesquisa boa

fevereiro 1, 2010

Ontem à tarde eu assisti o DVD Pixar Short films Collection, que reúne uma série de pequenos filmes feitos pelo pessoal da Pixar desde a década de 80. O DVD também mostra um pouco do desenvolvimento de hardware e software de computação gráfica necessários para criar desde desenhos animados bem simples até chegar ao primeiro longa metragem do gênero, Toy Story.

À noite fiquei matutando sobre a importância do pessoal “das antigas” e suas pesquisas. Bem, na verdade os conhecimentos vão sendo incorporados e as raízes mais profundas das teorias acabam não sendo citadas, e se tornam senso comum dentro dos artigos. Então tentei pensar em um contra exemplo: algum trabalho muito importante, que seja bastante utilizado e, mais importante, citado pelos artigos mais recentes. O que me veio logo à mente (dentro da minha área de pesquisa), foi um artigo datado de 1957.

ResearchBlogging.orgÉ um review intitulado Synthesis of the Elements in Stars, escrito por Margaret Burbidge, Geoffrey Burbidge, William Fowler e Fred Hoyle (só a primeira autora ainda está entre nós). Em Astrofísica/Física, este artigo é carinhosamente chamado de B2FH (conjunto das iniciais dos sobrenomes dos autores) e, até o momento, coleciona 1047 citações no ADS. Para se ter uma idéia, só em Janeiro deste ano já foram 10 citações. É um dos artigos pioneiros na subárea que une a Física Nuclear e a Astrofísica, surpreendentemente chamada Astrofísica Nuclear.

O texto é muito denso e completo. Os autores tratam desde estrutura nuclear e origem dos elementos químicos,  passando (detalhadamente) pelos processos de formação dos mesmos nos interiores das estrelas, até a relação entre o enriquecimento da Galáxia e os estágios finais de evolução estelar. As seções que mais me interessam são as que tratam dos processos de captura de nêutrons, chamados de process-r (rápido) e processo-s (lento), que são responsáveis pela formação de todos os elementos da tabela periódica desde o Ferro até o Urânio. A ocorrência desses processos depende essencialmente da temperatura do meio e da disponibilidade (densidade) de nêutrons. Assim, com valores dessas grandezas (calculados utilizando ferramentas teóricas) é possível associar o tipo de ambiente onde cada processo poderia ocorrer: o processo-s pode ocorrer, por exemplo, em pulsos térmicos durante a evolução de uma estrela de massa intermediária; já o processo-r ocorre em eventos explosivos associados à supernovas de tipo II. Sabendo então a taxa de formação dos elementos e a quantidade de matéria liberada pelo evento, pode-se inferir o grau de enriquecimento no meio onde ocorreu a explosão e, por conseguinte, associar as estrelas aos seus possíveis locais de formação. É possível ver que, mesmo com 53 anos de idade, grande parte da Física descrita no texto ainda serve muito bem de base teórica para trabalhos atuais.

O título desta postagem não é para ser provocativo. Minha intenção não é, de forma alguma, dizer  que de lá para cá nada aconteceu, mas sim salientar/destacar/ressaltar e enaltecer este trabalho tão importante que serviu de base para tantos outros estudos em sua área. Na verdade, este trabalho foi tão inovador que, em 2007 (exatos 50 anos após a publicação), foi realizada a conferência Nuclear Astrophysics – Beyond the First Fifty Years, onde foram tratados assuntos contemporâneos relacionados às portas abertas em 1957.

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Burbidge, E., Burbidge, G., Fowler, W., & Hoyle, F. (1957). Synthesis of the Elements in Stars Reviews of Modern Physics, 29 (4), 547-650 DOI: 10.1103/RevModPhys.29.547

O sorvete e as estrelas

janeiro 8, 2010

A primeira fórmula que eu decorei aprendi nas aulas de Física do ensino médio foi a do “sorvete”:

Essa fórmula (também chamada de função horária das posições – porque S é uma função de t) permite calcular, para um movimento com velocidade constante, as posições (S) à partir do tempo (t), uma vez conhecidas a posição inicial (So) e a velocidade (V). Mais determinístico impossível.

Eu passei todo o ensino médio e cursinho achando que só poderia aplicar a fórmula para carrinhos em linha reta, trens passando por pontes e para calcular o alcance máximo de um projétil. Mas, porém, todavia, contudo, entretanto (e mais qualquer conjunção coordenativa adversativa que você conhecer), eu estava enganado…

Semestre passado eu fiz uma disciplina de pós-graduação excelente chamada Estrutura Galáctica, ministrada pelo Professor Jacques Lépine. Em uma das listas propostas, o objetivo era calcular a idade “dinâmica” de uma associação de estrelas (grupo de dezenas de estrelas jovens) na região do plano da Galáxia. Para tanto, era necessário calcular o tempo, no passado, em que as estrelas estavam mais próximas umas das outras, ou seja, calcular uma distância média, em função do tempo passado. A hipótese feita é a de que a associação “nasceu” no momento em que as estrelas estavam, em média,  mais agrupadas. Assim, para encontrar as posições bastava multiplicar a velocidade atual em cada direção espacial pelo tempo para obter o deslocamento. SORVETE! Incrível.

Vale a pena dizer que é uma situação especial. Essa aproximação é aceitável porque os tempos considerados são menores que 10 milhões de anos, visto uma volta da Galáxia demora 200 milhões de anos. A figura abaixo mostra uma animação bem simplificada de uma associação de estrelas evoluindo com o tempo. O plano XY refere-se ao plano da Galáxia, e a direção Z representa a altura em relação a este plano. As unidades de distância estão em parcecs. O parâmetro t nesse caso não está em escala, mas fazendo as contas, é possível estimar a idade. Para ver mais alguns testes e associações de estrelas em movimento clique aqui.

No caso do exemplo da figura acima, a associação se formou em torno de t=20/400, e evolui a partir desse ponto até o presente. Nas demais figuras do link acima, a escala de tempo varia desde -8 até 40 milhões de anos. Para esses casos, o sinal de “-” implica tempos futuros e os valores positivos referem-se ao passado. Comparando a distância média das estrelas em cada tempo dado, encontra-se uma idade de 8.5 milhões de anos para a associação 1. A parte 2 inclui alguns objetos que se encontram fora do plano da Galáxia. Como dito acima, esse método não é capaz de prever as posições para tempos muito maiores do que isso, pois nesse caso outros fatores, como a velocidade de rotação da Galáxia, começam a ter maior influência.

Realmente, bem mais legal do que calcular a posição do encontro entre os carrinhos A e B. Claro que todo esse exercício não poderia ser feito no ensino médio, mas, com a ajuda de um professor pró-ativo e com muita paciência (e com simplificações do enunciado), tenho certeza que a experiência seria muito produtiva para os alunos.

Noites Galileanas

outubro 22, 2009

Dentro das comemorações do Ano Internacional da Astronomia (e também parte das atividades da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia), acontecerá, entre 22 e 24 de outubro, um evento chamado Noites Galileanas. É mais uma homenagem às grandes descobertas de Galileu Galilei. Durante esses três dias serão feitas observações dos mesmos objetos vistos  por Galilei pela primeira vez em 1609, tais como: as luas de Júpiter, as Plêiades, a Lua e a Nebulosa de Órion.

ngalileu

O Departamento de Astronomia do IAG/USP preparou atividades para hoje (22/10) e amanhã (23/10). Serão colocados, à partir das 19h00, alguns telescópios em uma área com pouca luz no estacionamento do Instituto (mapa de localização), para que todos tenham a oportunidade de contemplar alguns objetos astronômicos (se a poluição de São Paulo deixar). Para quem é de outros estados, pode procurar alguma atividade relacionada no site oficial do evento.

Bom, o convite está feito. E quem quiser também pode passar no QG do Café com Ciência para um cafézinho…


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